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BASF conclui aquisição da AgBiTech e acelera a corrida pelos biológicos

Escrito por Neo Mondo | 1 de abril de 2026

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BASF e AgBiTech: controle biológico de lagartas em lavouras de soja no Brasil - Foto: Divulgação/BASF

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Num dos maiores mercados de defensivos do mundo, a lagarta chegou antes dos reguladores. Entre 2011 e 2013, surtos de Helicoverpa armigera varreram lavouras de soja, milho e algodão do Cerrado brasileiro com uma velocidade que deixou técnicos e produtores sem resposta química eficaz — resistência acumulada ao longo de décadas de pressão de seleção. Foi então que agricultores brasileiros viajaram à Austrália para conhecer uma tecnologia que usava vírus contra insetos, natureza contra natureza. Voltaram convencidos. Pressionaram os órgãos regulatórios por registro acelerado. E introduziram no Brasil uma empresa chamada AgBiTech.

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Vinte e cinco anos depois de sua fundação — em 2000, por um agricultor e um cientista australianos — a AgBiTech deixou de ser uma especialista independente para se tornar parte do portfólio de biossoluções da BASF Soluções para Agricultura. A transação foi concluída em 31 de março de 2026, após a obtenção de todas as aprovações regulatórias necessárias, incluindo a do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no Brasil e das demais autoridades competentes. O negócio havia sido anunciado em janeiro deste ano, quando a BASF firmou acordo com a gestora de private equity Paine Schwartz Partners e outros acionistas para assumir a propriedade integral da companhia.

O que passa para a BASF não é apenas um portfólio de produtos registrados. A transação inclui todos os ativos da AgBiTech: portfólio de produtos, direitos de propriedade intelectual, plantas de manufatura, instalações de pesquisa e desenvolvimento, e seu quadro de pessoal. No Brasil, isso se traduz num escritório em Campinas, uma equipe de cerca de 140 pessoas e um centro de pesquisas instalado no Parque Tecnológico da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia — estrutura que, nos últimos anos, vinha triando cepas de vírus encontrados nas próprias lavouras brasileiras em busca de novos agentes bioativos.

A tecnologia central da AgBiTech está no nucleopoliedrovírus, ou NPV — um vírus naturalmente presente em populações de lagartas que, quando incorporado a formulações de bioinseticidas, infecta e mata o hospedeiro sem afetar insetos benéficos, abelhas ou vertebrados. Fundada na Austrália, a empresa foi pioneira no desenvolvimento de soluções de controle de insetos baseadas nessa tecnologia de vírus de ocorrência natural. O primeiro produto registrado comercialmente data de 2002. No Brasil, a empresa construiu uma posição de liderança em bioinseticidas virais para lagartas nas culturas de soja, milho e algodão, com produtos voltados ao controle de Helicoverpa armigera, Spodoptera frugiperda e Chrysodeixis includens — as três pragas mastigadoras que mais preocupam o produtor brasileiro de grãos.

O Brasil não é apenas o maior mercado da AgBiTech. É o argumento geopolítico que sustenta a lógica estratégica de toda a operação. O país e seus vizinhos Argentina, Paraguai e Bolívia representam até 70% das vendas da empresa, com cerca de seis milhões de hectares tratados na região nas culturas de algodão, soja e milho. Esse dado precede, e em certa medida explica, a posição de Marko Grozdanovic, vice-presidente sênior de Marketing Estratégico Global e Sustentabilidade da BASF Soluções para Agricultura: o Brasil é um dos mercados que mais crescem para proteção biológica de cultivos.

Ele não está errado. O mercado de insumos biológicos no Brasil atingiu, em 2025, o maior patamar de sua série histórica, com R$ 6,2 bilhões em valor de mercado — crescimento de 15% em relação ao ano anterior — e área tratada de 194 milhões de hectares, alta de 28%, segundo dados da CropLife Brasil. Os bioinseticidas lideram em valor de vendas, com 35% de participação, e a soja responde por 62% da área tratada com biológicos. A perspectiva para 2026, segundo a entidade, é de mais crescimento, impulsionado pela combinação cada vez mais frequente entre químicos e biológicos dentro das estratégias de manejo integrado de pragas.

É nesse contexto de aceleração que grandes conglomerados de defensivos revisam suas arquiteturas de portfólio. Com €9,6 bilhões em vendas e €990 milhões investidos em P&D em 2025, a divisão agrícola da BASF já opera uma linha de BioSoluções que abrange biopraguicidas contra doenças e insetos, auxiliares de manejo de resistência e produtos de tolerância ao estresse. A AgBiTech complementa essa estrutura com especificidade viral — um modo de ação distinto, seletivo, com perfil de resíduo mínimo e compatível com programas de manejo integrado de pragas. Produtos à base de baculovírus como os da AgBiTech já alcançam eficiência superior a 80% no controle de insetos, combinando alta seletividade e segurança ambiental, segundo dados de campo levantados pelo setor.

Livio Tedeschi, presidente global da BASF Soluções para Agricultura, foi direto ao avaliar a conclusão do negócio: o mercado de biológicos continua a crescer em ritmo forte, e a aquisição da AgBiTech fortalece a posição da companhia no segmento ao complementar o portfólio existente com tecnologias biológicas diferenciadas. Do lado da empresa adquirida, Adriano Vilas-Boas, CEO da AgBiTech, vê na integração o passo que faltava para escalar a missão que fundou a companhia: tornar o controle biológico de insetos acessível a agricultores em todo o mundo. "O alcance global da BASF, seu forte ecossistema de P&D e sua profunda expertise agrícola ajudarão a acelerar o impacto de nossas tecnologias", afirmou.

A dimensão brasileira da operação foi articulada por duas vozes locais. Sergi Vizoso, vice-presidente sênior para a América Latina, destacou o foco em soluções que enxerguem o sistema produtivo como um todo — eficiência e sustentabilidade em cada etapa da lavoura. Marcelo Batistela, vice-presidente da BASF Soluções para Agricultura no Brasil, foi mais preciso sobre o que a incorporação representa: contar com a tecnologia, o conhecimento e as pessoas da AgBiTech é um passo de extrema relevância para um mercado que se destaca como vanguarda na adoção de tecnologias para o manejo integrado de pragas.

A história da AgBiTech no Brasil começou pela demanda do campo, não pelo laboratório. Termina, ao menos como capítulo independente, pelo mesmo caminho: absorvida por uma estrutura com escala global para levar a tecnologia mais longe do que uma empresa de nicho conseguiria sozinha. A base construída no Brasil — em pessoas, pesquisa e mercado — é agora o ponto de partida para escalar essas tecnologias globalmente. Se a integração preservará a velocidade de inovação que caracterizou a empresa, incluindo a triagem de novos vírus nas lavouras brasileiras, é uma questão que as próximas safras responderão.

FONTES

BASF Soluções para Agricultura, comunicado oficial de conclusão da aquisição, 2026

Paine Schwartz Partners, comunicado de conclusão da transação, 2026

CropLife Brasil / CropData, mercado de bioinsumos no Brasil, 2025

Sindiveg, relatório de defensivos agrícolas, 2025

Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (CENARGEN), dados sobre Helicoverpa armigera no Brasil

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