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Glifosato: o substituto que o Brasil ainda não conhece

Escrito por Neo Mondo | 12 de maio de 2026

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Glifosato à vista: colheitadeira percorre lavoura de grãos em área de manejo convencional, onde o herbicida segue sendo o insumo dominante - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Quando a Bayer anunciou que o Brasil seria o primeiro país do mundo a receber o icafolin-metil, sua nova molécula herbicida, a empresa escolheu cuidadosamente as palavras. O produto, afirmou a companhia, possui "perfil excepcional" de segurança e se enquadra na categoria regulatória de "risco reduzido." O que a empresa não disse — e que especialistas e pesquisadores passaram a questionar — é por que tão pouco se sabe sobre ele.

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Com estreia prevista para 2028, o icafolin-metil foi desenhado para complementar o Roundup, o herbicida à base de glifosato mais vendido do mundo, cuja eficácia vem caindo à medida que plantas daninhas desenvolvem resistência. Mas a narrativa comercial não esgota a história. O Roundup acumula 192 mil processos judiciais apenas nos Estados Unidos, que já custaram ao menos US$ 11 bilhões à companhia em acordos extrajudiciais. Para 2026, a Bayer projeta desembolsar o equivalente a R$ 29 bilhões adicionais para custear as 60 mil ações ainda pendentes. Em teleconferência com investidores realizada em março deste ano, o CEO Bill Anderson foi direto: "Estamos esperando um fluxo de caixa livre negativo este ano devido a pagamentos relacionados a litígios." O icafolin é, portanto, também uma estratégia de sobrevivência corporativa — com potencial de vendas globais estimado em cerca de 750 milhões de euros.

A escolha do Brasil como mercado inaugural não é acidental. No país, uma área superior a 50 milhões de hectares de soja — extensão comparável ao território de Minas Gerais — é manejada com glifosato, na sua maioria Roundup. Nenhum outro mercado oferece uma base de usuários tão consolidada, uma estrutura regulatória tão receptiva e, ao mesmo tempo, uma população agrícola tão exposta. Após o lançamento brasileiro, a Bayer pretende levar o icafolin ao mercado global, tendo já solicitado o registro do princípio ativo e patentes de sementes resistentes à nova molécula em uma dúzia de países, incluindo Estados Unidos e União Europeia.

O percurso regulatório no Brasil tem sido, no mínimo, incomum. Em 6 de maio, os membros da diretoria colegiada da Anvisa aprovaram por unanimidade o princípio ativo do icafolin, abrindo caminho para o uso do ingrediente no país. A agência estabeleceu limites de ingestão diária de resíduos semelhantes aos do glifosato — o mesmo composto que acumula décadas de controvérsia científica e judicial. Para trabalhadores rurais, o valor aceitável de exposição será três vezes maior. Não houve manifestações durante a consulta pública realizada antes da votação. O Ministério da Agricultura, por sua vez, já anunciou que o registro do icafolin terá prioridade, passando à frente de centenas de outros produtos que aguardam aprovação — decisão justificada pelo caráter inédito do mecanismo de ação da molécula.

Para Luiz Claudio Meirelles, ex-gerente da Anvisa e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o rito regulatório apresenta uma inconsistência estrutural: "É muito problemático a Anvisa ter aprovado antes de outras agências regulatórias, porque mostra que o princípio ativo ainda não foi devidamente analisado. É claro que precisamos substituir o glifosato, que já se provou perigoso para a saúde humana, mas é preciso ter cautela na avaliação de novos agrotóxicos." A autorização do icafolin ainda aguarda aprovação do Ibama e, no plano internacional, do Canadá, da União Europeia e dos Estados Unidos — jurisdições cujas agências competentes não concederam o aval. O Ibama confirmou por e-mail que sequer iniciou a avaliação técnica do composto. Segundo o próprio site da autarquia, existem 1.308 processos à sua frente na fila de análise — número que, dada a prioridade já declarada pelo governo federal ao pedido da Bayer, pode não refletir por muito tempo a ordem real de tramitação.

A pressão corporativa sobre o aparato regulatório brasileiro tem uma dimensão quantificável. Desde que protocolou o pedido de registro, a Bayer acumulou 62 agendas com órgãos do governo federal — média de três reuniões por mês. No final de abril, executivos da empresa estiveram com o setor de avaliação e controle do Ibama para tratar especificamente do icafolin. Procurada, a assessoria de imprensa da Bayer no Brasil informou que a empresa não se manifestaria sobre o novo produto.

O silêncio corporativo é, em si, um dado. Dina Akhmetshina, especialista em políticas públicas da ONG norte-americana U.S. PIRG, sintetizou a preocupação que atravessa pesquisadores em diferentes países: "Até agora, a empresa revelou muito pouco, o que é preocupante. Antes de utilizar novos produtos químicos, precisamos ter certeza absoluta de que são seguros." A afirmação ganha peso quando se considera que, segundo a própria Bayer, o icafolin-metil será aplicado, na maioria dos casos, em combinação com glifosato no mesmo pulverizador. Não se trata, portanto, de uma substituição, mas de uma sobreposição — dois herbicidas com perfis toxicológicos distintos aplicados conjuntamente sobre solos, corpos d'água e populações rurais.

A literatura científica sobre os efeitos de formulações compostas à base de glifosato já indicou que a toxicidade de produtos comerciais pode ser ampliada por componentes adicionais além do princípio ativo. Estudo publicado na revista Environmental Science & Health, em 2025, identificou deformidades e maior taxa de mortalidade em anfíbios expostos a formulações comerciais contendo glifosato. No Pontal do Paranapanema, no oeste de São Paulo, uma tese de doutorado defendida na Faculdade de Saúde Pública da USP investigou o aumento de casos de câncer e má formação congênita entre agricultores convivendo com a pulverização aérea de Roundup em canaviais — uma janela local sobre consequências que a ciência ainda não encerrou.

O icafolin-metil é o primeiro princípio ativo com mecanismo de ação genuinamente novo para o controle pós-emergente de plantas daninhas em mais de 30 anos — o que, por si só, exigiria cautela redobrada. Três décadas de pesquisa acumulada sobre herbicidas estabelecidos ainda não resolveram controvérsias sobre efeitos de longo prazo. Apresentar um composto sem histórico como dotado de "perfil excepcional" de segurança, antes que qualquer agência de grande economia tenha concluído sua análise independente, é uma afirmação sem amparo metodológico. É marketing regulatório.

O Brasil tornou-se, nesse arranjo, um laboratório consentido. O maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com o aparato regulatório mais ágil e a maior fronteira agrícola em expansão, serve de porta de entrada para uma molécula que o restante do mundo ainda avalia. O Projeto de Lei nº 6427/25, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe tornar obrigatória a informação sobre resíduos de agrotóxicos nos rótulos de alimentos industrializados e in natura — medida de transparência que, se aprovada, ao menos tornaria visível ao consumidor o que hoje permanece invisível na prateleira. É pouco diante da escala do que se processa nos campos. Mas é o tipo de pressão que, acumulada, obriga a transparência que nenhuma empresa oferece por vontade própria.

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