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Escrito por Neo Mondo | 31 de agosto de 2018
Barco utilizado pelos pesquisadores nos rios da Amazônia (foto: Thiago Sanna Freire Silva)[/caption]
Compilação de dados de inventários florestais e coleções biológicas gerou lista com 3.615 espécies de árvores nas áreas úmidas da bacia amazônica (foto: Thiago Sanna Freire Silva)[/caption]
Para os pesquisadores, a alta quantidade de espécies arbóreas é indicador de que as áreas úmidas têm papel importante no mecanismo de manutenção e geração de diversidade na Amazônia.
“Tradicionalmente, esse papel é atribuído aos Andes, com seu gradiente climático. Mas o fato de encontrarmos quase todas as famílias e gêneros bem distribuídos, com espécies capazes de colonizar áreas úmidas, sugere que esse ecossistema esteja envolvido no processo de diversificação há bastante tempo”, disse Thiago Sanna Freire Silva, professor no Departamento de Geografia da Unesp e coordenador do estudo. O trabalho integra o Projeto Temático "Estruturação e evolução da biota amazônica e seu ambiente: uma abordagem integrativa", coordenado pela professora Lúcia Garcez Lohmann.
Interior da floresta após a enchente, o solo ainda encharcado e as plântulas (embriões das árvores) voltam a encontrar o sol após meses submersas (foto: Bruno Garcia Luize)[/caption]
“É um ambiente incrivelmente bonito. O igapó, por exemplo, é uma das imagens mais emblemáticas da Amazônia. Por quatro ou cinco meses, os embriões das árvores ficam submersos enquanto se desenvolvem. Isso ao mesmo tempo em que macacos passam pelas copas das árvores ou um boto-rosa se alimenta de peixes dentro da floresta”, disse Luize.
Mesmo com o difícil regime hidrológico imposto, o total de espécies das áreas úmidas amazônicas compreende 53% das 6.727 espécies confirmadas em estudo mais recente da flora arbórea de toda a Amazônia.
Para os pesquisadores da Unesp, essa alta proporção de árvores – sendo que territorialmente as áreas úmidas compreendem 30% dos 7 milhões de km2 da Amazônia – é dada pelo intercâmbio entre as espécies. Dentro d’água as raízes ficam inundadas e algumas chegam a apodrecer, dificultando a troca de oxigênio.
“As áreas alagadas demandam um metabolismo diferente das árvores e algumas espécies de terra firme também conseguem tolerar as condições de inundação. Porém, estudos mostram que as populações nos diferentes ambientes não têm a mesma performance. Basicamente, isso quer dizer que se você plantar uma semente da mesma espécie de terra firme na área inundada, e vice-versa, elas provavelmente não vão vingar”, disse Luize.
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Flor e fruto em desenvolvimento de Gustavia augusta (Cachimbo ou Catoré-mucura) uma das espécies da familia Lecythidaceae que forma as florestas em áreas úmidas da Amazônia (foto: Bruno Garcia Luize)[/caption]
Segundo ele, essa diferença leva a crer que ocorre um ajuste fisiológico ao longo da vida das árvores, ou que as populações que cresceram nas áreas úmidas já estão se adaptando para aquele ambiente.
“Com isso, chegamos ao extremo que são espécies exclusivas de ambientes de áreas úmidas ou que só ocorrem nos ambientes de terra firme”, disse.
Árvore da espécie Crudia amazônica (Fabaceae, orelha-de-cachorro) na margem da floresta alagada Apenas a copa da árvore que está repleta de frutos fica para fora da água (foto: Bruno Garcia Luize)[/caption]
A América do Sul é considerada a região com maior quantidade de áreas úmidas, ecossistema fundamental para o balanço de água doce no planeta. Os pesquisadores destacam que é preciso entender melhor a variação entre as características, sejam metabólicas ou fisiológicas, das espécies que vivem tanto em terra firme como em zona úmida.
“Esse é um ponto que precisamos estudar melhor, mas há estudos que indicam os efeitos de secas e cheias na produtividade da floresta, na tomada de carbono da atmosfera e da emissão de carbono para a atmosfera. A tolerância a esses extremos hídricos de seca e de inundação, que é uma característica das árvores alagáveis, é importante entender esses balanços, essas trocas em uma escala da bacia como um todo”, disse Luize.
O doutorado de Luize tem como tema principal a influência das áreas úmidas na geração da diversidade de espécies de árvores. Atualmente, o pesquisador está na University of Michigan, nos Estados Unidos, com Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior da FAPESP, estudando a filogenia de uma família específica de árvores da Amazônia (Lecythidaceae) – da qual se inclui a castanha-do-pará –, para entender como ocorre essa migração e adaptação de espécies de terra firme e áreas úmidas.
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Após um dia de coletas botânicas na floresta os ramos com flores ou frutos das árvores são separados e preparados em jornais (prensados e secos em estufas). Depois de estarem preparados essas amostras (exscicatas) são incorporadas nos museus (herbários) e servirão para estudos sobre a diversidade das florestas (foto: Bruno Garcia Luize)[/caption]
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