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Escrito por Neo Mondo | 29 de outubro de 2025
Na COP30, o oceano sobe ao mesmo patamar das florestas e da transição energética - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
Em Belém, o Brasil coloca o oceano no centro da agenda climática global — e mostra ao mundo que proteger o mar é proteger a própria vida
Sabe quando algo que sempre foi essencial finalmente começa a ser reconhecido como tal? É exatamente isso que está acontecendo agora com o oceano. Por décadas, ele foi o grande esquecido nas negociações climáticas — silencioso, profundo, e sempre ali, cumprindo o papel de regulador do planeta, enquanto a humanidade discutia apenas o que estava em terra firme.
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Mas agora o jogo virou. A presidência da COP30, que acontece em novembro em Belém, decidiu colocar o oceano no mesmo patamar das florestas e da transição energética. E essa não é apenas uma mudança simbólica — é um marco histórico. Pela primeira vez, o mar entra oficialmente na agenda dos chefes de Estado, como um dos três eixos fundamentais da conferência.
Eu me emocionei ao ler o documento oficial preparado pelo Itamaraty: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai comandar a sessão temática “Clima e Natureza: Florestas e Oceanos”. Finalmente, o oceano está sentado à mesa onde as decisões sobre o futuro do planeta são tomadas.
E não é por acaso. Como bem lembrou Marinez Scherer, Enviada Especial para o Oceano da COP30 e uma das mentes mais brilhantes da ciência marinha brasileira:
“O oceano é o principal regulador climático do planeta. Se quisermos falar em combate às mudanças climáticas, ele precisa estar no mais alto nível de discussão — ao lado das florestas e da energia.”
Marinez tem razão. O oceano absorve 90% do calor excedente da Terra, retém 25% das emissões globais de CO₂ e produz cerca de metade do oxigênio que respiramos. É como se fosse o coração azul do planeta — e, até agora, estávamos ignorando suas batidas.
Enquanto líderes discutiam metas e acordos, o oceano vinha gritando silenciosamente. Recentemente, o Instituto Potsdam de Pesquisa do Impacto Climático revelou que a acidificação marinha tornou-se o sétimo dos nove limites planetários já ultrapassados. Desde a Revolução Industrial, o pH da superfície oceânica caiu entre 30% e 40%, tornando-se mais ácido — um golpe mortal para recifes, moluscos e toda a cadeia de vida marinha.
Outro estudo, o Relatório Global sobre Pontos de Inflexão, produzido por 160 cientistas de 23 países, trouxe um alerta ainda mais devastador: os recifes de corais de águas quentes estão ultrapassando seu ponto de não retorno. Traduzindo: se o aquecimento global continuar, esses ecossistemas — e com eles o sustento de milhões de espécies e pessoas — podem simplesmente desaparecer.
E como se isso não bastasse, continuamos despejando toneladas de plástico nos mares todos os dias. É uma ironia cruel: o oceano, que nos dá tanto, recebe em troca o pior dos nossos excessos.
Por isso, o que o Brasil está fazendo na COP30 vai muito além da diplomacia. É uma reconciliação com o oceano. A decisão de colocá-lo lado a lado com as florestas e a transição energética nasce do trabalho intenso do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Grupo de Ativação da Agenda de Ação da COP30, do qual Marinez Scherer também faz parte.
Ela disse algo que ficou ecoando na minha cabeça:
“Proteger o oceano é proteger a vida. É uma decisão ambiental, mas também econômica, geopolítica e humanitária.”
E é exatamente isso. Ao dar protagonismo ao oceano, o Brasil propõe ao mundo uma visão integrada da governança climática — uma que conecta mares, florestas, energia e biodiversidade como partes de um mesmo corpo vivo.
O Relatório de Síntese das NDCs trouxe um dado esperançoso: 78% dos países já mencionam o oceano em seus compromissos climáticos nacionais, o dobro do número anterior ao lançamento do Desafio Azul das NDCs, liderado por Brasil e França. Isso mostra que algo está se movendo.
Mas, como bem disse Marinez, não basta estar no papel:
“Precisamos transformar esse reconhecimento em ação concreta. O oceano não pode esperar discursos — ele precisa de compromisso real.”
E ela está certa. O futuro azul que sonhamos só será possível se governos, empresas, cientistas e comunidades locais agirem juntos. A proteção dos mares é uma tarefa coletiva — e urgente.

Quando olho para o mapa da COP30 e vejo Belém como palco dessa revolução azul, sinto um orgulho imenso. Um país tropical, com uma das maiores zonas costeiras do planeta e uma biodiversidade marinha impressionante, assumindo a liderança de uma nova era de responsabilidade oceânica.
O Brasil está dizendo ao mundo que não há equilíbrio climático sem oceanos saudáveis — e que chegou a hora de reparar o que negligenciamos por tanto tempo.
Talvez essa seja a COP mais simbólica da nossa história recente. Não apenas por ser no coração da Amazônia, mas porque, pela primeira vez, o som das ondas vai ecoar dentro das negociações globais.
O oceano — esse imenso espelho de esperança — volta a ser visto não como um recurso, mas como um ser vivo que respira, sente e nos conecta.
E eu, confesso, não consigo conter o otimismo. Porque se há algo mais poderoso que a força das marés, é a capacidade humana de mudar de rumo quando percebe que o caminho antigo já não faz sentido.
*Com base nas reflexões de Marinez Scherer, Enviada Especial para o Oceano da COP30 e professora da UFSC.
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