Amazônia Biodiversidade CLIMA Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 10 de abril de 2026
Marina Silva, Ministra e João Paulo Ribeiro Capobianco, dir. executivo do Ministério do Meio Ambiente — Foto: Rogério Cassimiro/MMA - Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Com a saída de Marina Silva para as eleições e a posse de João Paulo Capobianco, o Brasil troca de piloto num momento em que o vento começa a virar — e o fogo, a ameaçar
Havia algo de ritual naquele 1º de abril no Auditório Ipê Amarelo da Esplanada dos Ministérios. Marina Silva leu por mais de cinquenta minutos um discurso que era, ao mesmo tempo, prestação de contas, declaração de amor e testamento político. Falou de reconstrução, de servidores reincorporados, de orçamento duplicado, de florestas que voltaram a ficar de pé. Quando terminou, havia lágrimas e havia silêncio — o tipo de silêncio que vem depois de algo que dificilmente se repete. Em seguida, João Paulo Capobianco tomou posse como ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A cerimônia durou uma tarde. A herança vai durar muito mais.
Leia também: A natureza não conhece fronteiras
Leia também: COP15 da CMS traz avanços para espécies migratórias, incluindo onças, tubarões, tartarugas marinhas e aves
Capobianco não é um desconhecido chegando de fora para ocupar uma cadeira quente. É, talvez, o nome mais orgânico possível para essa transição. Biólogo, doutor pela USP, professor visitante na Universidade de Columbia entre 2008 e 2009, ele esteve presente na gestação da política ambiental brasileira moderna como secretário nacional de Biodiversidade no primeiro governo Lula, quando Marina já era ministra. Coordenou a primeira campanha presidencial dela, em 2010. Foi secretário-executivo do ministério nos últimos três anos — a chamada sala de máquinas da agenda, o lugar onde as decisões tomam forma antes de virar manchete. E chegou ao cargo saindo diretamente do Pantanal: na semana anterior à posse, presidiu a COP15 das Espécies Migratórias em Campo Grande, conferência que terminou com a maior expansão de proteção da história da Convenção — 40 espécies incluídas, 39 resoluções aprovadas, 132 países signatários. O novo ministro não estreou no ministério. Estreou no mundo.
Essa trajetória importa porque define o que Capobianco não é: não é um gestor de transição, não é um nome de conveniência para preencher um cargo enquanto Marina faz campanha para o Senado por São Paulo. É um cientista com vocabulário diplomático e histórico de execução. O mercado financeiro, os fundos internacionais e os parceiros multilaterais sabem disso. A mensagem enviada pela nomeação é de continuidade técnica sem ruptura ideológica — e isso, num momento em que a agenda ambiental brasileira é ativo de política externa e de atração de capital, tem peso concreto. O Brasil mobilizou R$ 179 bilhões para ações climáticas nos últimos três anos. Esse número precisa de um endereço ministerial que inspire confiança. Capobianco é esse endereço.
Mas a herança não é só gloriosa. Marina deixou conquistas mensuráveis — queda de 50% no desmatamento da Amazônia em relação a 2022, redução de 33% nos alertas mais recentes, reconstrução institucional do Ibama e do ICMBio. Deixou também agendas abertas que pesam. O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, o SBCE, tem lei desde dezembro de 2024, mas ainda carece da regulamentação infralegal que vai definir quem entra, como se mede, quanto custa e quem fiscaliza. Sem esse arcabouço, o mercado de carbono brasileiro continua sendo promessa antes de ser instrumento. A criação de uma autoridade climática nacional, discutida ao longo de toda a gestão anterior, também não foi concluída. São dois vazios institucionais que Capobianco precisará preencher num país que se apresenta ao mundo como potência da transição ecológica — e que, portanto, não pode se dar ao luxo de parecer improvisado.
Há ainda um terceiro desafio, mais imediato e mais físico do que qualquer regulamentação: o fogo. Os institutos de meteorologia indicam o fim do La Niña entre fevereiro e abril e a intensificação do El Niño a partir de julho, com redução de chuvas no Norte e no Nordeste e irregularidade no Centro do país. A temporada de seca que se aproxima pode ser a mais crítica em anos. O governo já declarou emergência ambiental preventiva, mobilizou quase 4.700 brigadistas, 18 helicópteros e 12 aviões para lançamento de água. Mas estrutura operacional não é suficiente quando o clima está fora dos padrões históricos. A questão não é se haverá incêndios — é o quanto o novo ministro conseguirá conter antes que as imagens voltem a circular no noticiário internacional e a fragilizar o discurso do Brasil como guardião da floresta.
É precisamente aí que a troca de Marina por Capobianco revela sua tensão mais sutil. Marina tinha um capital simbólico quase único — era reconhecida no mundo não apenas como gestora, mas como força moral. Sua presença em negociações climáticas internacionais carregava um peso que vai além do cargo. Capobianco é rigoroso, experiente e politicamente habilidoso, mas ainda constrói a dimensão pública que Marina levou décadas para sedimentar. Num ano em que o Brasil precisará defender sua narrativa ambiental sem ela na Esplanada — e com as eleições consumindo atenção política doméstica —, essa diferença não é trivial.
O que está em jogo ultrapassa a gestão de uma pasta. O Brasil chegou à COP30, em Belém, com autoridade climática reconstituída e desmatamento em queda. Saiu de lá com a responsabilidade de ser exemplo. Capobianco herda esse exemplo no momento em que ele mais precisa ser sustentado — quando as florestas estão com sede, quando o mercado de carbono ainda não tem regras claras e quando a principal arquiteta da política ambiental dos últimos três anos acaba de trocar o ministério pela campanha. Guardião não é quem herda o calmo. É quem herda a tempestade — e não deixa apagar a luz.
Fontes:
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Balanço de Gestão 2023–2026, 2026. Agência Brasil, Cobertura da COP15 das Espécies Migratórias, 2026. CartaCapital, Perfil de João Paulo Capobianco, 2026. Poder360, Marina Silva deixa Ministério do Meio Ambiente, 2026. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Ações de prevenção e controle de incêndios florestais em 2026, 2026. CNN Brasil, Para 2026, a regulação do mercado de carbono é um grande desafio, 2026.
Dia da Terra: o que precisa mudar para que continuemos aqui
Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas
Quando o crédito passa a vigiar a floresta