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Escrito por Neo Mondo | 9 de janeiro de 2026
Transparência ambiental deixou de ser discurso e virou estratégia de sobrevivência - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Duas empresas brasileiras entram no seleto grupo global do Triple A do CDP — e o feito revela uma mudança silenciosa, porém profunda, na lógica dos mercados, dos investimentos e da própria ideia de sucesso corporativo
Há notícias que brilham como troféus. E há aquelas que, à primeira vista, parecem técnicas, quase frias — mas carregam uma mensagem poderosa sobre o tempo em que vivemos. O anúncio de que duas empresas brasileiras conquistaram a nota máxima na cobiçada A List do CDP pertence claramente ao segundo grupo.
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Porque, no fundo, não se trata apenas de um ranking. Trata-se de uma mudança de mentalidade.
Entre mais de 22 mil companhias avaliadas no mundo, apenas 23 alcançaram o chamado Triple A — desempenho máximo simultâneo em Clima, Florestas e Água. Um número tão pequeno que quase constrange. E, ao mesmo tempo, tão revelador.
Nesse grupo ultrasseleto, aparecem duas brasileiras: Klabin, do setor de papel e celulose, e Marfrig, gigante da proteína animal.
À primeira vista, pode soar contraditório. Papel? Carne? Setores historicamente associados à pressão sobre florestas, água e clima? Pois é exatamente aí que mora o ângulo mais interessante dessa história.
A A List do CDP — frequentemente chamada de “Oscar da Sustentabilidade Empresarial” — não premia boas intenções nem campanhas publicitárias bem-feitas. O que está em jogo ali é transparência radical, dados auditáveis, metas claras e governança ambiental integrada ao negócio.
Não basta dizer que se preocupa com o clima. É preciso provar.
Não basta prometer proteger florestas. É preciso mostrar como.
Não basta falar em gestão da água. É preciso medir, reportar e agir.
E só 4% das empresas globais conseguiram nota A em pelo menos um desses pilares. Menos ainda chegaram ao Triple A.
O feito da Klabin e da Marfrig não sinaliza perfeição — sinaliza maturidade. Mostra que empresas brasileiras estão aprendendo a jogar um jogo novo, mais exigente, onde dados ambientais viram moeda de confiança.
Há um detalhe que costuma passar batido, mas é crucial:
os dados reportados ao CDP hoje movem capital.
Em 2025, 640 investidores, responsáveis por US$ 127 trilhões em ativos, exigiram informações ambientais via CDP. Ao mesmo tempo, mais de 270 grandes compradores globais passaram a cobrar dados de cerca de 45 mil fornecedores.
Ou seja: não responder — ou responder mal — deixou de ser opção.
No Brasil, isso é ainda mais concreto. O formulário do CDP é usado como critério para compor o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3). Quem não atinge o mínimo de transparência simplesmente fica de fora.
Sustentabilidade, aqui, não é causa. É condição de acesso.
Quando a CEO do CDP, Sherry Madera, afirma que “dados ambientais claros e consistentes tornaram-se indispensáveis para decisões sólidas”, ela não está fazendo retórica climática. Está descrevendo uma engrenagem que já está girando.
Empresas que entendem isso cedo:
As que ignoram… ficam para trás. Sem muito drama. Apenas ficam.
Talvez o aspecto mais inspirador dessa notícia seja silencioso:
ela mostra que existe um Brasil corporativo que está fazendo a lição de casa, mesmo em meio a instabilidades políticas, pressões globais e desafios estruturais gigantes.
Não é um Brasil perfeito.
Mas é um Brasil que aprende, ajusta, mede, reporta e melhora.
E isso vale não só para as empresas. Em 2025, quatro cidades brasileiras — Salvador, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro — também receberam nota A em Clima pelo CDP. Um lembrete de que governança ambiental não é privilégio do setor privado.
É escolha.
Não é a empresa mais verde.
Nem a mais simpática.
Nem a mais barulhenta.
O CDP premia quem entende que o futuro será transparente ou não será.
E talvez essa seja a maior lição dessa história:
num mundo em crise climática, hídrica e de biodiversidade, mostrar dados virou um ato de coragem. E, cada vez mais, de sobrevivência.
Duas empresas brasileiras entenderam isso.
Outras estão a caminho.
E o mercado — que não costuma ser paciente — já começou a recompensar quem decidiu sair da sombra e entrar, de vez, na luz dos fatos.
“Em um mundo cada vez mais guiado por dados, a transparência ambiental não é um diferencial: é o novo passaporte para continuar existindo.”
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