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Escrito por Neo Mondo | 13 de agosto de 2025
Brasil: 111,7 milhões de hectares perdidos em 40 anos - Foto: Fernando Frazão
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Dados do MapBiomas mostram 111,7 milhões de hectares de vegetação perdidos desde 1985, avanço da agropecuária e novas fronteiras na Amazônia — entre oportunidades de restauração e riscos à segurança hídrica
Em apenas 40 anos, o Brasil redesenhou seu território de forma profunda e, muitas vezes, irreversível. Entre 1985 e 2024, desapareceram 111,7 milhões de hectares de áreas naturais — uma superfície maior que a Bolívia. Foram, em média, 2,9 milhões de hectares por ano que deixaram de ser floresta, savana ou campo nativo para dar lugar a pastagens, lavouras, cidades, infraestrutura e mineração.
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Hoje, 65% do país ainda guarda cobertura vegetal nativa. Parece muito, mas basta olhar o que se perdeu para entender que não é apenas área: é biodiversidade, água, solo fértil e estabilidade climática.
Como resume Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas:
“Até 1985 – ao longo de quase cinco séculos com diferentes ciclos da expansão da fronteira agrícola – o Brasil converteu 60% de toda área hoje ocupada pela agropecuária, mineração, cidades, infraestrutura e outras áreas antrópicas. Já os 40% restantes dessa conversão ocorreram em apenas quatro décadas, de 1985 a 2024.”
O Brasil começava com 80% de cobertura natural. Em apenas dez anos, perdeu 36,5 milhões de hectares. Pastagens avançaram velozmente, e o crescimento urbano teve um boom: 30% dos municípios viveram seu maior salto de urbanização.
Foi a década em que o “arco do desmatamento” se consolidou na Amazônia. Pastagens ocuparam 35,6 milhões de hectares antes cobertos por floresta. No total, foram 44,8 milhões de hectares de vegetação nativa convertidos.
Julia Shimbo, coordenadora científica do MapBiomas e pesquisadora do IPAM, lembra:
“O auge dessa transformação foi entre 1995 e 2004, quando o desmatamento atingiu os maiores picos. Mas entre 2005 e 2014, registrou-se a menor perda líquida de florestas desde 1985. Essa tendência se inverteu nessa última década, que foi marcada por degradação, impactos climáticos e avanço agrícola.”
A perda líquida caiu para 17,1 milhões de hectares — o menor valor desde 1985. Foi quando políticas públicas e fiscalização mostraram que podiam mudar o jogo. Áreas de pastagem começaram a ser convertidas para lavouras ou regeneração natural.
Laerte Ferreira, coordenador do mapeamento de pastagens no MapBiomas e do LAPIG/UFG, reforça:
“Nesta década, as novas áreas de pastagem sobre áreas naturais recém-desmatadas diminuíram, ao mesmo tempo em que a conversão de pastagens já estabelecidas para o uso agrícola ou para a regeneração de áreas naturais aumentou.”
A mineração cresceu 58%, com epicentro na Amazônia. A nova fronteira da Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia) reacendeu o desmate em larga escala. No clima, os sinais foram dramáticos: secas severas no Pantanal e na Amazônia, com 8 dos 10 anos mais secos da série histórica.
No Pampa, a situação é alarmante, como destaca Eduardo Vélez, da equipe do bioma:
“Ainda nesta década, o desmatamento em vegetação secundária superou o de vegetação primária na Mata Atlântica e no Pampa. Por outro lado, é preocupante o fato de que justamente nesses dois biomas, que são os mais antropizados, as perdas de vegetação nativa não florestal tenham sido as mais altas nessa última década.”
A degradação não foi uniforme. Cada bioma carrega uma marca própria — e todas sangram.
“A cobertura florestal da Mata Atlântica está praticamente estável nas duas últimas décadas, mas enquanto observamos o aumento das florestas secundárias em regeneração ainda persiste o desmatamento das florestas maduras, mais ricas em biodiversidade e em estoque de carbono.”
Esses números não são abstrações. Cada hectare derrubado significa menos carbono retido, menos chuva, mais calor e mais vulnerabilidade econômica.

Os dados mostram que é possível reduzir o desmatamento — o Brasil já fez isso. Mas também deixam claro que retrocessos podem ser rápidos e devastadores.
O problema é que o meio ambiente continua sendo tratado como custo, e não como infraestrutura vital para a economia, a saúde e a vida. Assim, seguimos presos a um modelo que consome a base que sustenta o próprio país.
O Brasil tem ciência, tecnologia e conhecimento para liderar uma transição para a bioeconomia, o reflorestamento e as energias renováveis. Já são 35,3 mil hectares de usinas fotovoltaicas mapeados, com destaque para Caatinga e Cerrado.
Mas isso só terá impacto real se houver uma mudança de paradigma econômico e político.
Não é só sobre proteger árvores — é sobre garantir água limpa, estabilidade climática, segurança alimentar e qualidade de vida.
Se as últimas quatro décadas foram escritas com pressa e voracidade, as próximas precisam ser guiadas por inteligência, coragem e compromisso. Cada decisão — no campo, na cidade ou no Congresso — vai definir se o Brasil se regenera ou continua a se desfazer diante dos nossos olhos.
Sobre MapBiomas
Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org.
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