Amazônia Biodiversidade Carbono Ciência e Tecnologia CLIMA Destaques Emergência Climática ENERGIA Meio Ambiente Oceano Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 22 de abril de 2026
Dia da Terra — Não basta segurar o planeta nas mãos. É preciso mudar as decisões que tomamos com elas - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Hoje, escolho falar sobre saídas — não sobre o abismo. Mas para chegar lá, preciso ser honesto sobre onde estamos
Toda vez que o Dia da Terra chega, me pego diante da mesma tensão: o quanto mostrar do que sei sem paralisar quem lê. Trabalho há quase vinte anos cobrindo meio ambiente, ciência e política climática. Entrevistei pesquisadores que passam a vida inteira monitorando sistemas que a maioria das pessoas nunca ouviu falar — o ciclo do nitrogênio, a saturação de aragonita nos oceanos, a integridade funcional da biosfera. E o que esses cientistas me dizem, de forma consistente, não é que o planeta vai acabar. É que estamos saindo da zona em que a civilização humana aprendeu a prosperar.
Leia também: Terra ultrapassa mais um limite: os oceanos entram na zona de risco
Leia também: Semana mundial da água 2026-Neo Mondo
Deixem-me explicar o que isso significa na prática. Em 2009, um grupo de pesquisadores liderado por Johan Rockström publicou na revista Nature um conceito que mudou a forma como a ciência pensa o planeta: as fronteiras planetárias. São nove processos biofísicos que regulam a estabilidade da Terra — o clima, os oceanos, as florestas, a biodiversidade, os ciclos químicos que alimentam a vida. Para cada um deles, existe uma zona segura de operação. Fora dela, os riscos de colapso sistêmico tornam-se sérios. Em 2009, três fronteiras já haviam sido ultrapassadas. No relatório mais recente, publicado pelo Instituto de Potsdam em setembro de 2025, esse número chegou a sete. E todas as sete continuam piorando.
A sétima foi a acidificação dos oceanos — confirmada pela primeira vez como fronteira violada no ano passado. O oceano absorve cerca de um quarto do CO₂ que emitimos. Essa absorção protege o clima de um aquecimento ainda mais brutal, mas tem um custo: o CO₂ dissolvido na água forma ácido carbônico, e o pH dos oceanos recuou cerca de 26% desde a Revolução Industrial. Para corais, crustáceos e moluscos, que constroem suas estruturas com minerais que se dissolvem em água ácida, isso não é uma abstração. É extinção progressiva.
Mas prometi falar sobre saídas. E é isso que farei — porque elas existem, são conhecidas e, em alguns casos, já funcionam.
A primeira coisa que precisa mudar é a matriz energética. Não é novidade, mas a escala do que está acontecendo merece ser dita com clareza: a transição para fontes renováveis está se acelerando em ritmo que há dez anos seria considerado improvável. A capacidade solar instalada no mundo mais do que dobrou nos últimos quatro anos. O custo da energia eólica e solar caiu mais de 80% na última década. O problema não é mais tecnológico — é de velocidade e de distribuição. Precisamos que essa transição alcance as economias em desenvolvimento antes que elas consolidem décadas de infraestrutura fóssil que depois terão de abandonar.
A segunda mudança diz respeito às florestas. Perco o sono com isso, porque o Brasil está no centro da questão. Somos guardiões da maior floresta tropical do planeta — um sistema que regula o clima continental, produz chuva para metade da América do Sul e armazena carbono em escala que nenhuma tecnologia humana consegue replicar. Desmatamento zero não é uma agenda radical. É a descrição do mínimo necessário para não destruirmos um ativo que mal sabemos precificar.
A terceira mudança é a alimentação. O sistema global de produção de alimentos responde por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa, pela maior parte do desmatamento e pelo principal vetor de contaminação de rios e oceanos com nitrogênio e fósforo sintéticos. Mudar o que comemos — menos carne bovina de produção industrial, mais proteínas de origem diversificada — é uma das alavancas de maior impacto por unidade de esforço individual. Não estou pregando veganismo compulsório. Estou dizendo que a dieta é um campo de ação concreto, imediato e sistematicamente subestimado.
A quarta mudança é política — e é a mais difícil. A única vez em que a humanidade reverteu uma trajetória de colapso planetário foi com o Protocolo de Montreal, assinado em 1987, que proibiu gradualmente as substâncias responsáveis pela destruição da camada de ozônio. Hoje, aquela fronteira está dentro da zona segura. Isso aconteceu porque houve ciência, pressão pública e um acordo internacional com mecanismos vinculantes e verificáveis. Não uma meta voluntária. Não um compromisso com brechas. Um acordo que funcionava porque tinha consequências para quem descumpria. Precisamos do mesmo modelo para o clima, para a biodiversidade e para os poluentes sintéticos. O precedente existe. O que falta é vontade política.
A quinta alavanca é a que menos aparece nos relatórios e mais surge nas minhas conversas com pesquisadores: a restauração ecológica em escala. Não plantar árvores para foto. Restaurar ecossistemas funcionais — manguezais, várzeas, cerrados, recifes de coral — que prestam serviços que nenhuma engenharia substitui: regulação de cheias, estoque de carbono, proteção costeira, recarga de aquíferos. A natureza já sabe fazer tudo isso. O que ela precisa é de espaço e de tempo — e de decisões humanas que parem de destruir o que ainda resta.
Cobri a COP30, em Belém, em novembro de 2025. Saí com uma sensação que ainda não sei classificar com precisão — não era esperança ingênua, tampouco desespero. Era algo mais próximo de urgência lúcida. Os números são ruins. As tendências são piores. Mas a trajetória não é irreversível no horizonte de uma ou duas gerações, se as decisões certas forem tomadas agora. O que me mantém nesse trabalho, depois de quase vinte anos, não é a certeza de que vamos acertar. É a convicção de que desistir não é uma opção que eu consiga defender.

O Dia da Terra não é um ritual de culpa coletiva. É — ou deveria ser — um momento de inventário honesto seguido de compromisso concreto. Faço o meu inventário aqui, todo ano, neste espaço. E o que peço a quem lê — seja gestor público, executivo de ESG, pesquisador ou cidadão — é que saia deste texto com pelo menos uma pergunta sobre o que, em sua esfera de influência, ainda pode mudar de direção. Porque as fronteiras que cruzamos não se fecharam para sempre. Mas o tempo para corrigi-las não é ilimitado.
Entre o Raso da Catarina e o tempo que a natureza exige
SPVS lança videocast sobre parceria internacional com a Fundação Loro Parque