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Escrito por Neo Mondo | 26 de fevereiro de 2026
ArcelorMittal avança na descarbonização ao integrar reciclagem, eficiência e inovação na produção de aço - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
A maior siderúrgica do Brasil quer chegar ao net zero em 2050. O caminho passa por um material que a indústria sempre tratou como sobra
Há uma inversão em curso na maior siderúrgica do Brasil — e ela começa num depósito de ferro velho.
A ArcelorMittal está ampliando, de forma sistemática, o uso de sucata metálica em sua produção. Não é exatamente novidade no setor, mas a escala e a intenção por trás do movimento são. A empresa quer zerar suas emissões líquidas de CO₂ até 2050 e identificou na sucata um dos caminhos mais rápidos e baratos para chegar lá.
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Hoje, 54% da produção de aços longos da companhia no Brasil já passa pela chamada rota sucata — em vez de partir do minério de ferro virgem e do carvão, o processo usa metal reciclado como matéria-prima principal. A diferença em termos de emissões é significativa: produzir aço a partir de sucata gera, em média, quatro vezes menos CO₂ do que a rota convencional via alto-forno.
Em fevereiro, a empresa deu um passo concreto nessa direção ao fechar parceria com a IGAR, braço de reciclagem do Grupo Sada, para gerir um entreposto de processamento de sucata em Igarapé, na Grande BH. A logística importa aqui: sucata é volumosa, pesada e cara de transportar. Quem controla a cadeia de coleta e processamento sai na frente.
"A sucata vive um momento histórico, assumindo o papel de recurso estratégico na indústria do aço global", disse Bernardo Rosenthal, diretor de Compras de Metálicos e BioFlorestas da ArcelorMittal. A frase tem mais peso do que parece.
O contexto global ajuda a entender por quê. A World Steel Association estima que a demanda por sucata ferrosa deve crescer cerca de 75% até 2050, impulsionada pelas metas climáticas de grandes produtores na Europa, China e América do Norte. A União Europeia, por exemplo, já sinalizou que o Carbon Border Adjustment Mechanism — o imposto de carbono na fronteira — vai encarecer aço produzido com alta intensidade de emissões. Quem não se adaptar perde mercado.
No Brasil, a disputa pela sucata ainda é incipiente, mas deve se intensificar. O país descarta por ano volumes expressivos de metal que poderiam retornar ao ciclo produtivo — de carros velhos a eletrodomésticos, passando por estruturas industriais. Capturar esse fluxo exige infraestrutura, rastreabilidade e, cada vez mais, tecnologia.
É aí que entra outro componente da estratégia da ArcelorMittal: o uso de inteligência artificial para gerenciar a cadeia de sucata. Algoritmos mapeiam fornecedores, antecipam variações de custo e otimizam a seleção de material. Não é automação pela automação — é uma tentativa de transformar uma cadeia historicamente informal e fragmentada em algo mais previsível e escalável.
O lado social da equação também está na conta. A Fundação ArcelorMittal lançou iniciativas de capacitação voltadas a trabalhadores da cadeia de reciclagem, num reconhecimento de que a transição industrial tem custos humanos que precisam ser gerenciados. A empresa também participa das discussões do Programa Mover, do governo federal, que trata da mobilidade verde e tem implicações diretas sobre o descarte de veículos — uma das principais fontes de sucata de obsolescência no país.

O que a ArcelorMittal está fazendo, em essência, é apostar que o próximo ciclo competitivo da siderurgia vai ser ganho não por quem extrai mais, mas por quem recicla melhor. É uma mudança de lógica que levou décadas para começar a acontecer. E que, ao que tudo indica, não tem volta.
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