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Escrito por Neo Mondo | 1 de setembro de 2025
Eletrificação do transporte pesado no Brasil pode ser decisiva para o futuro do clima e da saúde pública - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Estudo inédito do Instituto Ar mostra que eletrificação é o caminho mais econômico
para a transição energética do transporte de carga pesada no país
A eletrificação do transporte de carga pesada no Brasil pode gerar reduções de 46% nas emissões de gases de efeito estufa e evitar R$ 5 bilhões em custos ambientais e de saúde até 2050. No caso dos modelos híbridos a diesel, a queda é bem inferior: apenas 8% de redução nas emissões até 2050 e R$ 298 milhões em custos evitados. Já caminhões movidos a gás natural e biodiesel aumentam as emissões líquidas e os custos econômicos ao longo do tempo. É o que mostra um estudo inédito que o Instituto Ar lança nesta segunda-feira (01/09).
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As pesquisadoras calcularam também o impacto da expansão do biodiesel sobre a área cultivada no país. A utilização integral de biodiesel (B100) até 2050 exigiria cerca de 215 milhões de hectares de terras agrícolas — o equivalente a mais de 25% do território nacional.
Para alcançar esses resultados, as pesquisadoras trabalharam com diferentes cenários de substituição da frota de caminhões pesados a diesel por tecnologias mais limpas em São Paulo, estimando reduções de poluentes até 2030 e 2050, prazos definidos pelo Brasil em acordos internacionais para reduzir e zerar suas emissões.
O foco em caminhões pesados é estratégico: em 2020, eles responderam por 60% do consumo total de energia para cargas, superando em muito os caminhões médios e leves, e representaram 49,9% das emissões de CO₂ do setor de transporte. Foram considerados cenários de transição para caminhões elétricos a bateria (BEV), movidos a célula de hidrogênio (FCEV), híbridos a diesel, a gás natural liquefeito (GNL), a gás natural comprimido (GNC) e a biodiesel puro (B100).
Além do baixo impacto em emissões e custos evitados, a opção pelo biodiesel poderá se tornar um vetor de desmatamento. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o óleo de soja representou aproximadamente 66% da produção brasileira de biodiesel em 2022.
Considerando um cenário de transição completa da frota para biodiesel, seriam necessários cerca de 215 milhões de hectares de terra para atender à demanda — aproximadamente 25% da área total do Brasil, de 850 milhões de hectares. Nesse processo, mudanças indiretas no uso da terra poderiam anular a economia de carbono, com o biodiesel de soja respondendo por 59% do desmatamento indireto projetado no país.
Patrícia Ferrini, especialista em avaliação dos impactos ambientais, econômicos e em saúde da poluição atmosférica em áreas urbanas, especialmente em fontes oriundas do transporte, foi a pesquisadora líder do estudo. Para ela, “as conclusões não deixam dúvidas sobre as consequências econômicas e para a saúde pública advindas da escolha que o país faz sobre a matriz energética do transporte de cargas. O enfrentamento das mudanças climáticas exigirá a transição energética do setor de transportes; portanto, este é o momento de conciliar a redução de emissões com ganhos para a saúde pública. Sem uma intervenção eficaz, as emissões de caminhões a diesel continuarão a sobrecarregar o sistema de saúde brasileiro, levando ao aumento de custos e à piora dos resultados de saúde, principalmente para populações vulneráveis”, alerta.
As pesquisadoras também conduziram uma avaliação atualizada das despesas com hospitalizações no Sistema Único de Saúde (SUS) para condições com associações comprovadas com a poluição do ar. A conclusão é que, entre 2013 e 2023, mais de R$ 24 bilhões foram gastos em internações relacionadas a doenças como câncer do sistema respiratório, doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e respiratórias, além de diabetes mellitus.
Essas enfermidades estão fortemente associadas à exposição a material particulado fino (PM2,5) e óxidos de nitrogênio (NOx) emitidos por caminhões a diesel. A análise também identificou diferenças por faixa etária: doenças cardiovasculares e oncológicas foram observadas em indivíduos com mais de 40 anos; gripe e pneumonia, em maiores de 60 anos; pneumonia, em menores de cinco anos; e asma, em menores de 15 anos.
A carga de poluição atmosférica causada por caminhões pesados no Brasil afeta desproporcionalmente comunidades próximas a corredores logísticos e rodovias, frequentemente de baixa renda, ampliando riscos já elevados de saúde e desigualdades sociais.
As emissões de caminhões pesados têm impactos bem documentados na saúde, principalmente em áreas urbanas e corredores de carga. A exposição a PM2,5 e NOx está associada a doenças respiratórias crônicas como asma, bronquite e redução da função pulmonar. Crianças e idosos são os mais vulneráveis devido à maior suscetibilidade.
Pesquisas relacionam emissões veiculares a concentrações urbanas de PM2,5 e aumento de doenças respiratórias em seis cidades brasileiras. Além disso, a exposição prolongada aos gases de escape de diesel eleva o risco de hipertensão, AVC e ataques cardíacos, pois o PM2,5 desencadeia inflamação sistêmica e disfunção vascular. Moradores próximos a rodovias e centros logísticos enfrentam exposição desproporcional a esses poluentes, aumentando a probabilidade de complicações graves de saúde.
Antes da implementação da norma P-8 (Euro VI), o Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) estimou que um atraso de apenas um ano resultaria em mais de seis mil mortes prematuras entre 2023 e 2050, além de um gasto adicional de quase US$ 11,5 bilhões com saúde até 2040.

Para calcular os impactos econômicos, o estudo utilizou uma avaliação abrangente das emissões de GEE e poluentes no transporte rodoviário de cargas em São Paulo, realizada por pesquisadores do Imperial College London e da USP.
Foi empregado também o modelo da Plataforma de Análise de Baixas Emissões (LEAP), do Instituto Ambiental de Estocolmo, para estimar emissões da queima de combustíveis (demanda), da produção e processamento (transformação) e de importações, especialmente em cenários dependentes de fontes externas.
O modelo considerou:
A análise comparou um Cenário Base, em que caminhões a diesel seguem dominantes até 2050 sem investimentos significativos, com Cenários de Tecnologia Alternativa, em que tecnologias mais limpas substituem progressivamente os veículos a diesel a partir de 2030.
Essas alternativas incluem GNL, GNC, biodiesel, híbridos, elétricos a bateria e elétricos a célula de combustível de hidrogênio, sempre considerando a expansão da infraestrutura de abastecimento. O estudo ainda projetou o crescimento da frota em linha com o PIB, enquanto a matriz elétrica paulista se mantém majoritariamente renovável (~60% hidrelétrica).
Também foram incluídos aumentos anuais de 3,9% na produção de biodiesel e expansão constante da geração renovável (hidrelétrica, eólica e solar). As estimativas de custo de dano foram derivadas de fontes como a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), o Banco Mundial e a OCDE.
O Brasil tem uma das maiores indústrias de biocombustíveis do mundo e há décadas aposta no biodiesel, biometano e etanol para reduzir sua dependência de fósseis. Entre 2003 e 2023, 77 bilhões de litros de biodiesel evitaram 240 milhões de toneladas de CO₂ e economizaram cerca de US$ 38 bilhões em importações de diesel.
O consumo anual de diesel é de 40 bilhões de litros, segundo o Ministério de Minas e Energia. Com a mistura obrigatória de 14%, são produzidos cerca de 5,6 bilhões de litros de biodiesel por ano — dos quais 65,8% derivados de soja, totalizando 3,92 bilhões de litros anuais.
Com rendimento médio de 400 litros por hectare, isso requer 9,8 milhões de hectares de soja, o equivalente a 26,5% da área total cultivada no Brasil (46 milhões de hectares, segundo a Embrapa). Para comparação: arroz, trigo e feijão ocupam juntos 6,1 milhões de hectares — ou seja, a área para biodiesel de soja já é 7,5 vezes maior que a usada para essas culturas básicas.
Apesar de programas como o RenovaBio e o Programa Combustíveis do Futuro, a pressão sobre terras agrícolas, riscos de desmatamento e de insegurança alimentar colocam em dúvida a sustentabilidade dessa escolha.
Se o Brasil migrar totalmente para B100 até 2050, o consumo de diesel deve subir de 40 bilhões para 86 bilhões de litros anuais, exigindo 215 milhões de hectares de cultivo — aumento de 205 milhões de hectares sobre a produção atual. Isso equivale a 25,3% de todo o território nacional (850 milhões de hectares), um número que expõe o tamanho do desafio.
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