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Escrito por Neo Mondo | 27 de março de 2026
Índia: entre o crescimento acelerado e os limites invisíveis de um futuro climático em disputa
- Foto: Ilustraiva/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Meta apresentada com mais de um ano de atraso promete reduzir intensidade de emissões em 47% até 2035, mas especialistas alertam que o compromisso pode não frear o volume absoluto de gases liberados na atmosfera
Em 25 de março de 2026, o gabinete do primeiro-ministro Narendra Modi aprovou a terceira Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês)da Índia — o documento que, no jargão da diplomacia climática, traduz em números a ambição de um país frente ao Acordo de Paris. O anúncio chegou com mais de treze meses de atraso em relação ao prazo fixado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas para o Clima: fevereiro de 2025. A demora foi contornada com vocabulário burocrático, mas o atraso não é detalhe. A Índia é o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, precedida por China e Estados Unidos — duas economias que historicamente moldaram a trajetória global das emissões. Quando ela hesita, o relógio climático global não para.
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A meta estabelecida cobre o período 2031–2035 e tem três pilares: reduzir a intensidade de emissões do PIB em 47% em relação aos níveis de 2005, alcançar 60% de capacidade instalada de energia elétrica proveniente de fontes não fósseis e criar um sumidouro de carbono equivalente a 3,5 a 4 bilhões de toneladas de CO₂ por meio de cobertura florestal e arbórea. Mongabay No comunicado oficial, o governo indiano enquadrou esses compromissos como evidência de uma "trajetória de ação climática consistente e ambiciosa". O problema está no que esse enquadramento escolhe não dizer.
A métrica adotada — intensidade de emissões por unidade de PIB — é uma medida relativa. Ela permite que as emissões absolutas continuem crescendo, desde que o ritmo de crescimento econômico seja mais rápido do que o das emissões. Numa economia que cresce entre 6% e 7% ao ano, como a indiana, essa equação pode ser matematicamente favorável nos relatórios e climaticamente desastrosa na atmosfera. O Climate Action Tracker calculou que, com base nas projeções do Banco de Reserva da Índia e do FMI, a nova meta de intensidade não implicará nenhuma redução real das emissões absolutas. O ar não lê relatórios de PIB.
O governo Modi argumenta que seus compromissos anteriores foram cumpridos antes do prazo. Entre 2005 e 2020, a intensidade de emissões caiu 36%. A capacidade instalada de energia não fóssil atingiu 52,57% em fevereiro de 2026 — cinco anos antes do prazo estipulado na NDC de 2022. São números reais e expressivos, construídos sobre um dos maiores programas de expansão de energia solar e eólica do mundo. Mas o próprio sucesso expõe a timidez da nova meta: analistas do Centre for Research on Energy and Clean Air estimam que a participação de 60% de energia não fóssil será atingida antes de 2030, não em 2035. Uma meta que o país já está prestes a alcançar dificilmente pode ser chamada de ambição.
Vibhuti Garg, diretora para o Sul da Ásia no Instituto de Economia e Análise Financeira de Energia (IEEFA), foi direta: "As NDCs revisadas são um passo na direção certa, mas ficam aquém da ambição necessária neste estágio da transição energética." A crítica ressoa no contexto mais amplo da governança climática global. O Climate Action Tracker classificou a meta de capacidade não fóssil da Índia como "altamente insuficiente" e a meta de intensidade de emissões como "insuficiente" para limitar o aquecimento a 1,5°C.
O argumento indiano de fundo — e ele é mais sólido do que seus críticos ocidentais costumam reconhecer — está ancorado no princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. A Índia responde por apenas 3,5% das emissões históricas globais, enquanto as economias que construíram sua riqueza queimando carvão por dois séculos recuam em seus compromissos ou os abandonam. Avantika Goswami, do Centre for Science and Environment de Nova Delhi, afirmou que as novas metas demonstram que "a liderança do Sul Global sobre ambição climática é concreta e real", num momento em que países desenvolvidos aprofundam seu enraizamento nos combustíveis fósseis. Há algo de verdadeiro nisso. Há também o risco de que a retórica da equidade sirva de escudo para uma ambição calibrada abaixo do potencial real do país.
Porque o potencial existe, e é imenso. O carvão ainda responde por quase três quartos da geração de energia indiana, mesmo enquanto a demanda por ar-condicionado e centros de dados empurra o consumo de eletricidade para cima. A Índia é, simultaneamente, um dos países que mais investem em energias renováveis e um dos que mais expandem a produção de carvão. Essa contradição não é hipócrita — é estrutural, e reflete a tensão entre uma população cuja renda per capita ainda é uma fração da média global e um sistema energético que não pode ser transformado em tempo hábil sem financiamento externo de escala. A Índia esteve entre os países mais insatisfeitos com o resultado da COP29, onde a promessa de US$ 300 bilhões anuais em financiamento climático ficou muito abaixo dos US$ 1,3 trilhão reivindicados pelas nações em desenvolvimento.
O atraso na entrega da NDC também não é exclusividade indiana. Dos 195 signatários do Acordo de Paris, apenas 13 cumpriram o prazo de fevereiro de 2025. A mora generalizada compõe um quadro em que as promessas climáticas coletivas permanecem dramaticamente abaixo do necessário. Segundo relatório divulgado pela ONU na abertura da COP30, caso as metas dos países que já as apresentaram sejam integralmente cumpridas, as emissões de carbono cairiam cerca de 12% até 2035 em relação a 2019 — muito aquém do corte de 60% considerado necessário para conter o aquecimento a 1,5°C.
Melanie Robinson, diretora global de Clima, Economia e Finanças do World Resources Institute, destacou que a Índia tem agora uma janela para transformar seu setor industrial, que em 2025 ultrapassou o setor elétrico como maior fonte de emissões do país.

É nessa fronteira — o aço, o cimento, o hidrogênio verde, os veículos elétricos — que se joga a próxima rodada da transição indiana. Uma NDC construída sobre métricas de intensidade e metas já quase alcançadas não pavimenta esse caminho. Sinaliza, no máximo, que o país não quer ser o problema — sem ainda decidir se quer ser a solução.
Fontes: Down to Earth; Mongabay India; The Wire; Climate Action Tracker; World Resources Institute; Bloomberg/Energy Connects; Business Standard; Jornal de Brasília; Observatório do Clima; Público (Portugal).
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