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Escrito por Neo Mondo | 4 de junho de 2019
Alguns dados deste relatório informam que:
Os sistemas naturais globais estão sofrendo desestabilização em uma escala sem precedentes:
Em 2017, em todo o Brasil, 872 cidades tiveram reconhecimento federal de situação de emergência causada por um longo período de estiagem. A região mais afetada foi a do Nordeste e o estado da Paraíba, que concentrou o maior número de municípios, com 198 que comunicaram o problema à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec).
Cada vez mais temos fatos que cruzam a questão ambiental, a economia e a questão social.
A crise hídrica na Região Sudeste, em especial no Estado de São Paulo, onde a hidrovia do Tietê fechou por seis meses e isso representou a perda de 5 mil empregos diretos que trabalhavam na hidrovia e outros indiretos e na mobilização de 10 mil caminhões para transportar o que a hidrovia transportava.
As tragédias ambientais da SAMARCO e da VALE também reforçam a importância do debate para um novo modelo de desenvolvimento.
Os Relatórios do Fórum Econômica Mundial, desde 2015, reconhecem como elementos de grandes riscos para negócios, a crise da água, eventos extremos, mudança climática, crise na produção de alimentos e outras crises como a da migração que tem uma grande relação com as já mencionadas.
Novamente cruzando a questão ambiental com a questão social temos a ocupação da maior parte dos leitos hospitalares com doenças que tem origem na má qualidade da água e esses leitos são ocupados por pessoas de baixa renda.
Situação que se explica, pela ausência de saneamento, onde no Brasil cerca de 35 milhões de brasileiros não tem acesso à rede de água potável; 95 milhões de brasileiros não tem coleta de esgotos e 54% dos esgotos não são tratados.
Estudos recentes comprovam que moradores de locais sem saneamento básico ganham salários menores do que a população com acesso a água, coleta e tratamento de esgoto, por isso, também estão mais vulneráveis a doenças comuns em áreas em que essa infraestrutura inexiste ou é precária – e o efeito disso é uma elevação nas despesas com saúde pública, que na realidade são despesas com doenças, não de fato com saúde.
A figura abaixo demonstra como estava a distribuição da riqueza em 2013.
A riqueza da humanidade adulta (cerca de 4,7 bilhões de pessoas) é de 240,8 trilhões de dólares (2013). Mais de dois terços (68,7%) dos indivíduos adultos situados na base da pirâmide da riqueza, possuem 3% (7,3 trilhões de dólares) da riqueza global, com ativos de no máximo 10 mil dólares. No topo da pirâmide, 0,7% de adultos possui 41% da riqueza mundial (98,7% trilhões de dólares). Somados os dois estratos superiores da pirâmide – 393 milhões de indivíduos ou 8,4% da população adulta – detêm 83,3% da riqueza mundial.
Figura – Pirâmide global da riqueza em 2013. Baseado em The Crédit Suisse Global Weath Report 2013 (em rede). Observação: Riqueza é aqui entendida como o conjunto dos ativos de um indivíduo adulto. (livro Capitalismo e Colapso Ambiental – 2ª edição)
Este é um dos desafios para a questão ambiental, pois a distribuição da riqueza está associada à satisfação de suas necessidades.
Para satisfazer a avidez de 393 milhões de indivíduos – os 8,4% da população mundial adulta detentora de 83,3% da riqueza mundial –, move-se a economia do planeta, máquina produtora de crises ambientais, a começar pelas mudanças climáticas: “os 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo produzem metade das emissões de CO2, enquanto os 3 bilhões mais pobres emitem apenas 7%”.
Com a rápida degradação ambiental, a maioria esmagadora da humanidade, nem mesmo os mais ricos, poderão não ter mais acesso na melhora da qualidade de vida, pois isto não é possível num meio ambiente em rápida degradação.
De outro lado, pelo aspecto positivo, o Brasil tem excelentes oportunidades de refletir sobre um novo modelo de desenvolvimento que pode colocar a questão ambiental como central para integrar e articular um desenvolvimento baseado nas suas riquezas naturais, na sua diversidade e na existência de diferentes biomas (Amazônico, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Pampa, Caatinga).
O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta. Esta abundante variedade de vida – que se traduz em mais de 20% do número total de espécies da Terra – eleva o Brasil ao posto de principal nação entre os 17 países megadiversos (ou de maior biodiversidade).
Além disso, pelo fato do Brasil ter cerca de 13% da água do mundo, quantidade que aumenta para 18% considerando ainda as vazões oriundas de território estrangeiro que ingressam no país da Região Amazônica, Uruguai e Paraguai (RAUBER; CELLA, 2008).
O Brasil ainda possui Unidades de Conservação que contribuem para regulação da quantidade e qualidade de água para consumo; fertilidade dos solos e estabilidade das encostas (relevo); equilíbrio climático e manutenção da qualidade do ar; alimentos saudáveis e diversificados; base para produção de medicamentos para doenças atuais e futuras; áreas verdes para lazer, educação, cultura e religião; fornecer matéria-prima para tudo o que se possa imaginar, ou seja, elas oferecem oportunidades para novos tipos de negócios.
Portanto, o Brasil com tanta riqueza natural, apresenta uma excelente oportunidade para todos nós que trabalhamos na área ambiental e também para a sociedade brasileira de fazer a reflexão mais profunda e urgente do momento:
- Repensar o Modelo de Desenvolvimento para o país, de forma que ele incorpore no centro do debate a questão ambiental articulando a economia e melhorando a qualidade de vida para toda a sociedade.
Os fatos acima e outros que são inumeráveis, demonstram esta urgência. Tenho esperança que tenhamos a sabedoria dos “loucos” para fazer este debate.
REFERÊNCIAS
Capitalismo e Colapso Ambiental. Marques Filho, Luiz César. 2.ed.rev. e ampl – Campinas SP: Editora da Unicamp, 2016.
Secas no Brasil – Política e gestão proativas. Organizadores. De Nys, Erwin e outros. CGEE. 2016.
Um século de secas: PORQUE AS POLÍTICAS HÍDRICAS NÃO TRANSFORMARAM O SEMIÁRIDO BRASILEIRO. Catarina de Oliveira Buriti e Humberto Alves Barbosa. Chiado Books, 2018.
UNIDADES DE CONSERVAÇÃO: CONSERVANDO A VIDA, OS BENS E OS SERVIÇOS AMBIENTAIS. São Paulo - 2008
https://www.marsh.com/br/insights/research/global-risks-report-2019.html
https://gramaticadomundo.blogspot.com/2016/02/
http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-03/mais-de-850-municipios-brasileiros-enfrentam-problemas-por-falta-de-agua-em
https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/04/23/falta-de-acesso-a-saneamento-basico-resulta-em-baixa-renda-e-gasto-com-internacoes-diz-estudo.ghtml
https://www.infomoney.com.br/sabesp/noticia/3886050/temos-que-nos-adaptar-realidade-escassez-agua-diz-especialista
* Por Angelo José Rodrigues Lima –Biólogo (UFRRJ), Mestre em Planejamento Ambiental (UFRJ), Doutor em Geografia em Análise Ambiental e Dinâmica Territorial (UNICAMP)INSIDER transforma borra de café em material alternativo ao couro
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