O professor Marcos Bastos, diretor da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apresenta nesta entrevista ao ((o))eco as principais expectativas em relação à proposta de criação da Universidade do Mar e conta os antecedentes dessa parceria que tem conquistado cada vez mais adesões na academia, na gestão pública e nos movimentos sociais. Dentre outros atributos para liderar a iniciativa, foi considerada a experiência da Faculdade, tanto na gestão como na condução de atividades acadêmicas realizadas no
campus da Ilha Grande, onde se localiza o Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável (CEADS). E como parte dos diferenciais, ele destaca como a proposta científica conseguiu atender aos anseios de organizações da sociedade civil preocupadas com a problemática socioambiental da Baía de Guanabara e com a falta de uso de patrimônio arquitetônico tombado na Ilha de Paquetá.
((o))eco – Como a Uerj se inseriu na proposta de criação da Universidade do Mar, assumindo a sua liderança acadêmica?
O professor Marcos Bastos foi designado pelo reitor da UERJ para responder pela Universidade do Mar na instituição. Crédito: Acervo pessoal
Marcos Bastos – Em 2019, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) solicitou à Direção da Faculdade de Oceanografia apoio para a destinação e uso do Palácio de Brocoió, em Paquetá, Baía de Guanabara. Nesse ambiente insular se encontra, desativada, uma residência oficial do Governo do Estado. Houve inclusive tentativas de leiloar esse espaço, mas foram fracassadas.
A partir do pedido de apoio que soluções foram pensadas pela direção da Faculdade?
Considerando este cenário, a Direção da Faculdade de Oceanografia sugeriu a instalação de um centro de pesquisa voltado para o monitoramento da saúde ambiental da Baía de Guanabara, onde inclusive serviria de base de apoio ao navio oceanográfico da UERJ. O objetivo geral é desenvolver ações de caráter de pesquisa e de educação com foco na mitigação das vulnerabilidades ambientais e sociais do espaço.
E como se deu a aproximação da UERJ com os movimentos sociais?
Paralelamente, o Movimento Baía Viva e a Associação de Moradores de Paquetá (Morena) já externavam preocupação com o abandono e potenciais usos que poderiam ser dados para a ilha, mesmo sendo o Palácio tombado pelo Iphan. Considerando o contexto, a Faculdade de Oceanografia encaminhou uma sugestão para a criação de um centro de monitoramento ambiental na ilha, visto o cenário de degradação ambiental, vulnerabilidades, mas também de usos potenciais.
A proposta da Universidade do Mar foi construída em torno desse objetivo comum?
A convergência entre a Faculdade de Oceanografia, o Movimento Baía Viva e a Associação de Moradores sobre os potenciais usos para este espaço insular e Solar del Rey, na Ilha de Paquetá, levou à construção de uma proposta conjunta que agregou diversas instituições e atores na busca da implantação deste centro, posteriormente, denominado de Universidade do Mar.
Que diferenciais poderiam ser destacados sobre a Universidade do Mar em relação a outras ações acadêmicas que já são dirigidas à Baía de Guanabara?
Não tenho dúvida de que dispor de um centro, localizado em uma área sob várias pressões, que dê suporte às ações de várias instituições é muito importante para mitigar os diversos problemas locais. Lembro que a Baía de Guanabara foi e é alvo de elevados recursos financeiros e a história fala por si só o quanto foram inócuas diversas ações. No que tange às ações acadêmicas efetivadas por diversas instituições entendo que a presença do centro só tem a somar. Um indicador disso é que praticamente todas as instituições que atuam na região são signatárias desta ação, formalizando seu apoio à iniciativa. Destaco, ainda, outras instituições não acadêmicas que também formalizaram apoio.
Que outras ações já desenvolvidas pela UERJ motivam essa parceria?
Aponto, inicialmente, as ações desenvolvidas pela instituição, como por exemplo, o monitoramento dos botos da Baía de Guanabara, conduzido pelo projeto MAQUA. Há trabalhos ligados à circulação e à poluição, entre outros, que não são apenas conduzidos pela Oceanografia, mas, também, por outras unidades acadêmicas da UERJ, além do
campus localizado em São Gonçalo. Destaco ainda, que a UERJ tem um papel histórico e relevante de ações neste espaço e estarmos inseridos neste desafio abrange uma das várias missões institucionais.
Patrimônio arquitetônico da Ilha de Brocoió, onde será criada unidade da Universidade do Mar. Crédito: Movimento Baía Viva
Que desafios preocupam em relação à implementação desta iniciativa?
Seria irresponsável a UERJ embarcar nesse desafio sem que a sustentabilidade de se implantar e operacionalizar uma iniciativa deste porte esteja garantida e consolidada. Portanto, essa é uma coerente preocupação da reitoria da UERJ, que já luta para manter a excelência de seus vários
campus. Considerando o exposto, um ponto chave é a construção e efetivação de uma rede de apoio que garanta o êxito da iniciativa através de aporte de recursos. Neste sentido, várias discussões têm sido efetivadas com o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, secretarias e outros segmentos para se construir a sustentabilidade operacional.
A proposta ganha força nesta Década dos Oceanos?
Sem dúvida. A Década dos Oceanos apresenta uma motivação muito importante com o centro. Essa agenda global, em prol da preservação dos oceanos e seus usos compatíveis com a manutenção de sua saúde está diretamente conectada à iniciativa, não só pelo ODS 14, mas praticamente com vários outros ODS.
Quanto aos principais problemas existentes na Baía de Guanabara, como enfrentá-los?
Diante dos incontestáveis sinais de deterioração ambiental, entendo que já há uma boa base de dados realizada por várias instituições e que será fortalecida com a iniciativa desta ação. Outro aspecto relevante da iniciativa será sua capacidade de atuar como um observatório sobre a continuidade de políticas de Estado com foco no saneamento, nos usos, nas vulnerabilidades socioambientais locais e outros aspectos.
Que soluções tendem a ser possíveis a partir desta ação em rede?
A rede a ser formada pela iniciativa terá um papel chave na aferição dos resultados das ações, na realização de investigações técnicas e científicas de qualidade e na efetivação de iniciativas educacionais, gerando conhecimento e propiciando consciência sobre o papel de todos na busca pela manutenção dos serviços ecossistêmicos, diretamente associados à saúde desta Baía.
Que outras soluções poderiam ser resultantes dessa proposta?
As soluções que serão buscadas, a partir dessa iniciativa de união entre ciência e sociedade que se insere na proposta da Universidade do Mar, vão desde o estabelecimento de inovação, adequação e continuidade nos protocolos de monitoramento, às ações educacionais e de fomento em consonância com as vulnerabilidades encontradas no âmbito deste território. Assim estará contribuindo para a geração de oportunidades e de uma mentalidade social conectada à preservação dos ambientes costeiros e oceânicos, no caso a Baía de Guanabara.