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Produtos demais: quando o cuidado vira agressão

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 27 de abril de 2026

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Produtos demais, pele em dúvida: quando a mesa cheia vira o problema, não a solução - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - DRA. MARCELA BARALDI

Existe uma crença silenciosa que governa o comportamento de consumo em skincare: a de que mais produtos significam mais cuidado. Essa crença não veio do nada — foi construída ao longo de décadas por uma indústria que lucra com a ansiedade de quem olha no espelho e não vê o que esperava. O resultado é uma geração de pessoas com prateleiras lotadas e pele em colapso. E, cada vez mais, é o que chega ao consultório.

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O que estamos chamando de skinimalism — a tendência global de reduzir rotinas de cuidado a um número menor de produtos com funções mais precisas — não é moda. É uma resposta biológica a um erro coletivo. A pele não foi desenhada para receber dez ativos diferentes em sequência. Ela foi desenhada para se regular. Quando interferimos demais, interrompemos esse processo — e o que parece cuidado vira agressão.

O mecanismo é direto. A barreira cutânea — o estrato córneo — funciona como uma estrutura de tijolo e argamassa: queratinócitos compactados, cimentados por ceramidas, ácidos graxos livres e colesterol. Quando essa arquitetura é preservada, a pele retém água, bloqueia alérgenos e mantém o pH ácido que inibe o crescimento bacteriano patogênico. Quando ela é comprometida — por ácidos usados com frequência excessiva, por tensoativos agressivos em limpezas repetidas, por combinações incompatíveis de ativos — a perda de água transepidérmica aumenta, a inflamação se instala e a pele entra em um estado que a literatura chama de sensibilização crônica. Essa pele arde com qualquer coisa. Não porque é "sensível por natureza". É porque foi treinada a reagir.

O problema diagnóstico que isso cria é considerável. Uma paciente usando oito produtos não consegue identificar o que está funcionando. Nenhum dermatologista consegue, tampouco. A polissemia de ativos torna o rastreio impossível. A primeira conduta, em muitos casos, não é prescrever — é retirar.

Reduzir não é abrir mão de eficácia. É o contrário. Uma rotina enxuta — limpeza com pH compatível com a pele, hidratação que fortalece barreira (não apenas repõe água), proteção solar de amplo espectro — já resolve a maioria das queixas que chegam a consultório sem diagnóstico de doença cutânea estabelecida. A partir daí, quando há indicação real, um ativo direcionado: retinoides para fotoenvelhecimento, ácido azelaico para rosácea leve, niacinamida para hiperpigmentação pós-inflamatória. Com propósito, com intervalo, com critério de resposta.

O que mudou não é a ciência — a dermatologia sempre soube disso. O que mudou é a pressão externa sobre o paciente. Redes sociais transformaram rotina de skincare em performance. Quanto mais complexa, mais credível parece. Isso tem um custo real, que aparece na pele e aparece na consulta.

Simplificar, nesse contexto, é um ato clínico. E, para muitas pessoas, é o tratamento.

Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto de dra marcela baraldi, autora do artigo Menos produtos, mais saúde
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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