Tecnologias de gaseificação e de biodigestores são as mais promissoras para implantação em larga escala na região, apontam os resultados do levantamento - Foto: Wikimedia Commons
POR - AGÊNCIA FAPESP / NEO MONDO
Todos os anos milhões de toneladas de resíduos agrícolas, florestais e orgânicos urbanos são gerados na América Latina e Caribe, mas a região não tem explorado totalmente as tecnologias bioquímicas e termoquímicas que podem transformar esses detritos em fontes de energia alternativa, fertilizantes e outros subprodutos
A complexidade técnica das tecnologias aliada ao alto custo de investimento para implantá-las, somados à falta de pesquisa e de políticas públicas voltadas ao setor, impedem que as soluções avancem nesses países, aponta o
artigo “The state-of-the-art of organic waste to energy in Latin America and the Caribbean: Challenges and opportunities”, publicado na revista
Renewable Energy.
O estudo foi realizado durante a pesquisa de doutorado desenvolvida pelo engenheiro civil mexicano Rodolfo Daniel Silva Martínez, no Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), no âmbito do
Centro de Pesquisa para Inovação em Gás (
RCGI), um Centro de Pesquisa em Engenharia (
CPE) constituído com apoio da FAPESP e da Shell, com sede na Escola Politécnica da USP.
Orientado pelo pesquisador
Alessandro Sanches Pereira, do IEE, Martínez investiga a viabilidade da implementação de tecnologia de digestão anaeróbica realizada por meio de biodigestores de pequeno a grande porte na América Latina e Caribe. “O primeiro passo da pesquisa foi exatamente tentar entender a atual situação das tecnologias bioquímicas e termoquímicas para o tratamento de resíduos orgânicos na região”, explica o pesquisador, em entrevista à Assessoria de Comunicação do RCGI.
Para traçar esse cenário, Martínez, seu orientador e outros pesquisadores de instituições da Colômbia, Suécia e Alemanha levantaram mais de 21 mil estudos acadêmicos sobre o tema publicados entre 2000 e 2019.
“Essas tecnologias vêm sendo implantadas na América Latina e Caribe a partir, sobretudo, das últimas quatro décadas, mas as experiências variam bastante entre os países dada a complexidade e desigualdade socioeconômica da região”, disse Martínez. “Argentina, Brasil, Chile e México estão na frente: a legislação tem mudado e o poder público já entende as vantagens do tratamento adequado dos resíduos orgânicos, que está alinhado à lógica da economia circular e reúne benefícios econômicos, sociais e ambientais. Mesmo assim há ainda muito para avançar em toda a região, inclusive nesses quatro países.”
No artigo, o pesquisador argumenta que a gaseificação pode ser uma tecnologia de implantação promissora na América Latina e Caribe. “Porém, antes dessa implementação em larga escala na região é preciso resolver o problema dos possíveis impactos no meio ambiente de poluentes como óxidos de nitrogênio ou halogênios”, disse Martínez.
A opção mais viável, defende o pesquisador, seriam os digestores anaeróbicos, tipo de tratamento bioquímico pelo qual a matéria orgânica é decomposta pela ação microbiana e gera o biogás.
O pesquisador lembra que as tecnologias bioquímicas, como é o caso dos biodigestores, da fermentação e da captura de gás de aterro sanitário, são mais naturais e consomem pouca energia elétrica, entretanto não se adequam a todos os casos. “Os tratamentos bioquímicos levariam anos para processar resíduos de madeira, por exemplo. Nesse caso, é melhor lançar mão das tecnologias termoquímicas”, diz. “É preciso escolher as tecnologias levando em conta as características de cada lugar”, disse Martínez.
Segundo Martínez, o interesse por biodigestores em larga escala vem ganhando espaço em países da região nos últimos anos, apesar do alto custo de implantação e manutenção, além da complexidade técnica.
Imagem - Divulgação