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Escrito por Neo Mondo | 25 de agosto de 2018
Estudo mostra por que jararacas de grande porte são mais frequentes no Parque do Estado do que em outras e maiores áreas verdes na capital (foto: Otavio A. V. Marques / Instituto Butantan)
Para entender o fenômeno, Siqueira utilizou dados morfológicos sobre jararacas existentes em pesquisas publicadas, em serpentes preservadas na coleção do Instituto Butantan que eram provenientes desses dois lugares e foi a campo para coletar dados originais.
“Também colocamos armadilhas para analisar a disponibilidade de recurso alimentar nas duas áreas. As jararacas adultas se alimentam de pequenos roedores”, disse Siqueira.
Os autores do estudo se basearam em duas hipóteses. A primeira era de que as jararacas do Parque do Estado eram maiores porque lá provavelmente haveria maior oferta de recurso alimentar. Em estudos feitos por pesquisadores do Instituto Butantan em Alcatrazes, litoral norte de São Paulo, constatou-se que as jararacas que habitam o continente e se alimentam de roedores são maiores do que as presentes na ilha, que não têm este tipo de presa.
Em Alcatrazes, as jararacas se alimentam de pequenos sapos, lagartos e lacraias, animais de baixo valor calórico. São chamadas de anãs, por atingirem no máximo meio metro.
“Relacionamos o tamanho pequeno com uma alimentação calórica restrita, então, no caso do estudo em São Paulo, era natural pensar em uma grande oferta de recurso alimentar e fazia sentido pensar nos ratos urbanos, já que o Parque do Estado está em uma área urbana alterada”, disse Marques.
Segundo Siqueira, porém, não houve diferença na média do tamanho entre as duas populações de jararacas presentes em ambos os parques. “Mas observamos uma proporção maior de fêmeas gigantes no Parque do Estado em comparação com o Parque da Cantareira”, disse. As jararacas fêmeas alcançam porte maior do que os machos.
O biólogo montou armadilhas para capturar algumas das presas. “Também surpreendeu a disponibilidade de alimento, que não era maior do que na Cantareira. Capturamos menos ratinhos no Parque do Estado e não confirmamos a presença de ratos urbanos, só de ratos silvestres durante o tempo do estudo”, disse Siqueira.
Em cada um dos parques foram usadas 720 réplicas – 60 utilizadas mensalmente –, que ficaram por dois dias em cada localidade. As marcas dos ataques dos predadores ficaram impressas na massa de modelar.
“Saber o número absoluto de predadores de jararaca existentes iria requerer uma câmera em cada uma das réplicas, o que não era viável. Mas conseguimos quantificar a frequência de ataque e dizer se o predador era ave ou mamífero”, disse.
No Parque da Cantareira, aproximadamente 12% das massinhas foram atacadas, um valor alto se comparado com trabalhos relacionados a serpentes feitos anteriormente. No Parque do Estado, cerca de 5% dos modelos foram atacados. “Registramos mais do que o dobro de ataques na Cantareira”, disse Siqueira à Agência FAPESP.
Mas qual a relação entre ter menos predadores e o tamanho das cobras? Segundo Marques, as serpentes crescem a vida toda, apesar de a taxa de crescimento ser muito baixa nos indivíduos mais velhos.
“Para que possam crescer muito, precisam ter uma longevidade grande, viver muito tempo. Como há menos ataques de predadores no Parque do Estado do que no Cantareira, então temos uma explicação plausível para a existência mais frequente de serpentes gigantes por lá. A atenuação da predação permite que elas cresçam”, disse Marques.
Segundo o pesquisador, o estudo é mais uma contribuição na busca pela preservação de fragmentos florestais como o do Parque do Estado. “Estudos como esse possibilitam entender melhor a dinâmica desses fragmentos florestais, o que pode auxiliar – por exemplo – em ações de manejo para sua conservação”, afirma.
Como consequência do mestrado, Siqueira agora está estudando no doutorado métodos e formas para estimar a idade de jararacas e cascavéis. O procedimento comum é fazer cortes nos ossos da cobra, onde existem marcas de crescimento, à semelhança do que ocorre com os anéis dos troncos das árvores.
“Temos uma população senil de jararacas e precisamos saber suas idades, conhecer melhor as taxas de crescimento”, concluem os autores do estudo.