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Escrito por Neo Mondo | 28 de julho de 2026
Três centavos por dólar é o que o mundo destinou à natureza em 2023 — este filhote de arara-azul-grande, aos 123 dias no ninho 2274, é o que essa proporção financia. Foto: Fernanda Fontoura/Instituto Arara Azul
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
O Dia Mundial da Conservação da Natureza cai entre a nova Lista Vermelha, que já soma 49.505 espécies ameaçadas, e a COP17 de outubro. No meio, um fundo global da ONU com US$ 1.000 em caixa
Para cada dólar que circulou no mundo destruindo a natureza em 2023, três centavos foram para protegê-la. A conta é do IPBES, aprovada em 9 de fevereiro deste ano em Manchester por representantes de mais de 150 governos: US$ 7,3 trilhões em fluxos financeiros com efeito direto negativo sobre a natureza, contra US$ 220 bilhões destinados à conservação e à restauração. No Pantanal, essa proporção tem nome, ninho e data. Em 18 de junho, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima devolveu a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) à Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, doze anos depois de ela ter saído. O programa que a tirou de lá em 2014 nunca foi interrompido — monitora ninhos desde 1990. O que mudou foi o fogo.
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Neiva Guedes, que fundou o Instituto Arara Azul e conduz esse monitoramento há mais de três décadas, descreve um animal de margem estreita: dieta especializada, dependência de poucas espécies arbóreas para nidificar, território concentrado. Quando o Pantanal queima, o fogo consome ninho, ovo, filhote e habitat na mesma passagem, e os filhotes sobreviventes aparecem com lesões de pele e desenvolvimento comprometido. Depois dos incêndios de 2024, o número de casais em reprodução caiu nas áreas monitoradas. "Os incêndios frequentes a deixam bastante fragilizada", diz. A conservação entregou exatamente o que prometia. Uma variável que ela não governa desfez o resultado.
A data não nasceu de resolução da ONU nem de proclamação institucional identificável: cresceu por adesão de entidades, escolas e organizações ao longo das últimas décadas. O que lhe dá densidade neste ano é a posição no calendário, num intervalo estreito entre a atualização da Lista Vermelha e a revisão global do Marco de Biodiversidade Kunming-Montreal, na Armênia. Entre um marco e outro, o que a efeméride encontra é um paradoxo bem documentado.
Uma metanálise publicada na Science em 2024, coordenada por Penny Langhammer, reuniu 186 estudos e 665 ensaios que compararam áreas com intervenção e áreas equivalentes sem intervenção. Em dois terços dos casos, a ação de conservação melhorou o estado da biodiversidade ou reduziu a velocidade do declínio. Áreas protegidas, controle de espécies invasoras, restauração de habitat: os efeitos são grandes e mensuráveis. A técnica funciona. O que não escala é o dinheiro que a sustenta, nem a regulação daquilo que a cerca.
A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, divulgada em 9 de julho, mostra as duas coisas na mesma página. São 175.909 espécies avaliadas e 49.505 ameaçadas de extinção. A mineração em mar profundo já coloca em risco mais da metade dos moluscos que dependem de fontes hidrotermais — organismos que a indústria pretende extrair antes de a ciência terminar de descrevê-los. Na Namíbia e na África do Sul, a extração de diamantes empurrou o sapo-da-chuva-do-deserto para a beira do desaparecimento. Quinze espécies animais entraram na categoria de extintas nesta versão. E o numbat australiano subiu de Em Perigo para Quase Ameaçado: décadas de controle de gatos e raposas levaram a população de cerca de 300 indivíduos, no fim dos anos 1970, para algo entre 2 mil e 3 mil. O animal ocupa hoje 0,04% de sua distribuição original. É uma vitória de conservação medida dentro de uma derrota territorial consumada.
A avaliação do IPBES, primeira do painel dedicada à relação entre negócios e biodiversidade, foi construída em três anos por 79 especialistas de 35 países sobre mais de 5 mil referências. Ela desmonta a hipótese confortável de que a perda de natureza seja externalidade de alguns setores. Dos US$ 7,3 trilhões que degradam, US$ 4,9 trilhões vêm de capital privado e US$ 2,4 trilhões de subsídios públicos ambientalmente danosos — dinheiro estatal pagando para destruir aquilo que outro orçamento estatal tenta proteger. Menos de 1% das empresas que publicam relatórios menciona seus efeitos sobre a biodiversidade. Mais da metade do PIB global depende de sistemas naturais em funcionamento. A assimetria de três centavos por dólar não descreve um mercado que ignora a natureza; descreve um mercado que a consome com subsídio.
O Fundo Cali é a prova documental disso. Criado na COP16 e lançado em Roma em fevereiro de 2025, o mecanismo deveria captar cerca de US$ 1 bilhão por ano de empresas que exploram comercialmente informação genética digitalizada — farmacêuticas, cosméticas, biotecnologia agrícola, serviços de inteligência artificial aplicados a recursos genéticos. A contribuição sugerida é modesta: 1% do lucro ou 0,1% da receita. Metade do que entrar vai para povos indígenas e comunidades locais. Nove meses após o lançamento, em 19 de novembro, uma startup britânica chamada TierraViva AI depositou US$ 1.000, valor que seu executivo-chefe descreveu como gesto para destravar a fila. Em fevereiro de 2026, o fundo seguia com exatamente esse saldo. Nenhuma grande companhia pagou. A palavra que os países aprovaram no texto da decisão foi "deveriam", e ela se revelou precisa. A meta paralela, de mobilizar US$ 20 bilhões anuais em financiamento internacional para biodiversidade até 2025, também passou sem cumprimento.
A arquitetura jurídica, essa sim, avançou. O Acordo sobre a Conservação e o Uso Sustentável da Diversidade Biológica Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional entrou em vigor em 17 de janeiro, dois anos e meio depois de adotado, criando pela primeira vez uma moldura vinculante para quase metade do planeta. A cobertura territorial não acompanhou o ritmo dos tratados. Em maio de 2026, 17,3% das áreas terrestres e de águas continentais e 9,8% das áreas marinhas estavam protegidas; somadas outras medidas efetivas de conservação, 18,4% e 10%. A meta 3 do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal exige 30% em cada domínio até 2030. Faltam quatro anos e mais da metade do caminho.
Ierevan vai medir essa distância entre 19 e 30 de outubro. A revisão global terá como base um relatório do Secretariado da Convenção cuja versão preliminar circulou em junho, construída sobre 129 relatórios nacionais, mais de 160 conjuntos de metas nacionais e mais de 80 planos nacionais atualizados. O diagnóstico já apareceu em fevereiro, na reunião do órgão subsidiário de implementação em Roma: uma análise de 130 conjuntos de metas e 51 planos nacionais mostrou que a soma das ambições nacionais não alcança a ambição global pactuada. Astrid Schomaker, secretária-executiva da Convenção, tratou o achado como chance de correção de rota. Também é possível lê-lo como o que é — a diferença entre o que 196 países assinaram juntos e o que cada um deles pretende fazer sozinho.
O Brasil reproduz a assimetria em escala nacional, com sinais melhores no agregado e no vetor. Desde 2023, 2,46 milhões de hectares entraram no rol de unidades de conservação federais, estaduais e municipais, o equivalente a 57% da meta oficial de 4,3 milhões de hectares para o período 2023-2027, segundo levantamento do Política por Inteiro. O desmatamento caiu 20,6% e ficou em 984.794 hectares em 2025, primeiro registro abaixo de um milhão desde 2019. A distribuição, porém, obedece à economia, não à biologia. Estudo da Fundação SOS Mata Atlântica identificou que apenas 12,86 milhões de hectares do bioma têm unidade de conservação sobreposta — 9,8% da área de aplicação da Lei da Mata Atlântica — e que quase 2 milhões de hectares dentro dessas unidades são pastagem. Protege-se onde a terra vale menos e conserva-se, em parte, no papel.
A lista publicada em junho carrega a mesma leitura em outro registro. São 790 espécies e subespécies ameaçadas, nove reconhecidas como extintas, cerca de 180 inclusões e 150 saídas — algumas por melhora real do estado de conservação, outras por avanço do conhecimento científico e revisão taxonômica. Em abril, a Portaria nº 1.667 atualizou a relação de peixes e invertebrados aquáticos, parada desde 2014. Pela primeira vez, o país publicou uma lista oficial de fungos ameaçados, com 24 espécies. A avaliação brasileira cobre cerca de 15 mil espécies e está entre as mais amplas já conduzidas por qualquer país — o que significa que o Brasil sabe, com precisão incomum, o tamanho daquilo que está perdendo.
O Pantanal ainda concentra a maior população de araras-azuis-grandes do planeta. Foi ali que os incêndios de 2024 reduziram o número de casais em reprodução e o sucesso reprodutivo em áreas monitoradas ninho a ninho desde 1990, e é de lá que sai o dado que o Fundo Cali, com seus US$ 1.000 em caixa, não financiou.
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