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O berço que sangra em silêncio: 88% das bacias do Cerrado perderam vazão enquanto o país comemorava a safra recorde

Escrito por Neo Mondo | 23 de junho de 2026

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Berço das águas do Brasil, o Cerrado perde vazão enquanto sustenta a produção que alimenta o mundo - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Brasília analisou 81 bacias hidrográficas distribuídas pelo Cerrado entre 1985 e 2022 e identificou redução de vazão em 88% delas. Não é uma tendência localizada em um estado ou em uma bacia específica. É um padrão que atravessa o bioma inteiro — e que raramente aparece nas páginas que celebram o Brasil como celeiro do mundo.

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O Cerrado é, ao mesmo tempo, o bioma mais subestimado e o mais decisivo da arquitetura hídrica brasileira. Suas raízes, que chegam a quinze metros de profundidade em espécies típicas como o pequizeiro e o ipê-do-cerrado, fazem do solo uma esponja continental: as chuvas são absorvidas, retidas e devolvidas lentamente às nascentes. Oito das doze principais bacias hidrográficas do país nascem ali, incluindo o São Francisco, o Tocantins-Araguaia e o Prata. O bioma abastece cerca de 70% do volume do São Francisco e 47% do Rio Paraná, que alimenta a maior hidrelétrica do hemisfério sul. Seus aquíferos, o Guarani e o Urucuia, formam o segundo maior reservatório subterrâneo de água do mundo. Suas águas atravessam fronteiras e chegam à Bolívia, ao Paraguai, à Argentina e ao Uruguai.

Esse sistema está sendo desfeito em câmera lenta, com autorização dos poderes públicos e à plena luz do dia.

A combinação que a campanha Cerrado Coração das Águas chama de tríade destrutiva é conhecida: desmatamento da vegetação nativa, uso intensivo de agroquímicos e demanda hídrica da agricultura irrigada. Cerca de 63% dos pesticidas utilizados no bioma destinam-se às lavouras de soja, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento. A agropecuária responde por 58,6% do consumo hídrico do país, segundo a Agência Nacional de Águas. Esses números não descrevem um desvio do modelo produtivo brasileiro. Eles descrevem o modelo.

A vazão mínima de segurança do São Francisco, por décadas fixada em 823 metros cúbicos por segundo, caiu para 414 metros cúbicos por segundo nas últimas décadas. Quase a metade. Esse não é um dado ambiental abstrato. É a medida concreta da quantidade de água que o rio consegue garantir para o abastecimento humano, a geração de energia e a navegação nos períodos de estiagem. Quando ela cai pela metade, tudo que depende dela encolhe junto.

O paradoxo que poucos instrumentos de comunicação têm enfrentado com honestidade é que o Cerrado produz simultaneamente a safra e a seca. O bioma concentra o Matopiba, a fronteira agrícola mais dinâmica do país, responsável por 60% de toda a produção agrícola brasileira, por 14% da soja mundial e por 16% da carne que o planeta consome. O que raramente aparece junto nessa conta é o que o modelo consome para existir. A agropecuária intensiva no Cerrado não apenas usa a água do bioma. Ela remove a vegetação que a repõe.

As raízes profundas das plantas nativas do Cerrado não são um detalhe paisagístico. São a infraestrutura de recarga. Quando uma área de cerrado típico é convertida em pastagem ou lavoura, as raízes superficiais que substituem as nativas não alcançam os lençóis freáticos. A água das chuvas, em vez de infiltrar, escoa. Os rios recebem um pico de volume nos períodos chuvosos e secam mais depressa no período seco. Esse comportamento, que hidrólogos chamam de flashiness, já é perceptível em bacias que há trinta anos tinham regime estável.

A situação é agravada por um desequilíbrio regulatório que raramente é nomeado com clareza: enquanto a Amazônia acumulou décadas de atenção política, científica e internacional, o Cerrado permanece sob proteção insuficiente. O Código Florestal exige a preservação de apenas 20% da vegetação nativa em propriedades rurais no Cerrado, contra 80% na Amazônia Legal. A diferença não é ecológica. É política. O Cerrado não tem a mesma iconografia global que a floresta tropical. Não mobiliza a mesma cobertura internacional. Não tem o mesmo poder de pressão sobre negociadores de acordos comerciais.

A Campanha Cerrado Coração das Águas, articulada por entidades como o ISPN, o Instituto Cerrados, a Rede Cerrado, o IPAM e o WWF-Brasil, aponta que a combinação entre expansão agrícola, desmatamento e uso intensivo de insumos químicos já compromete a capacidade do bioma de regular seus próprios ciclos hídricos. Esse diagnóstico não é conjectural. Está materializado nos dados de 88% das bacias monitoradas. Está na vazão do São Francisco. Está no comportamento crescentemente errático dos rios que nascem no planalto central e abastecem metade do continente.

A questão que os números impõem não é se o Cerrado pode sustentar simultaneamente a produção que já sustenta e a água que o país precisa. A questão é quanto tempo o modelo tem antes que o colapso de um inviabilize o outro. Aquíferos se recarregam em escalas de décadas a séculos. Bacias com vazão comprometida não recuperam seu regime por decreto. O berço das águas não sangra em silêncio porque ninguém sabe. Sangra em silêncio porque saber, até agora, não foi suficiente para mudar o curso.

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