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Escrito por Neo Mondo | 10 de agosto de 2026
Oceano no centro do debate: reunidos na FGV, especialistas, gestores públicos, cientistas e lideranças de comunidades costeiras encerraram um dia inteiro de programação da São Paulo Climate Week discutindo como transformar compromisso climático em ação concreta pelo mar - Foto: Divulgação/IAR
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Ana Toni abriu o dia com uma frase que corrigiu, de saída, a premissa do próprio encontro. Diretora-executiva da COP30, ela subiu ao palco da FGV, na Bela Vista, e disse que ninguém ali precisava mais convencer o mundo de que o mar importa para o clima. Não estamos mais trazendo o oceano para a pauta climática, afirmou. O oceano já está nessa agenda. Agora é preciso trazer outros atores para a conversa. A tarefa, na leitura dela, deixou de ser científica e virou política: fazer com que energia, desenvolvimento econômico e sustentabilidade passem a incorporar a perspectiva oceânica, inclusive nos debates eleitorais dos próximos anos.
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Foi assim que começou "O Futuro é Azul: o Oceano no Centro da Ação Climática", encontro realizado em 3 de agosto na Fundação Getulio Vargas, como abertura da programação da São Paulo Climate Week 2026. Promoveram o dia o Instituto Ambientes em Rede e o Instituto Aprender Ecologia, com apoio do Instituto Clima e Sociedade e da Conservação Internacional Brasil, e parceria acadêmica da FGV EAESP. A sala reuniu quem raramente divide a mesma mesa: Ministério do Meio Ambiente, BNDES, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, Fundação Grupo Boticário, Oceana Brasil, oceanógrafos da USP, pesquisadores de universidades federais, investidores, marisqueiras e lideranças de comunidades costeiras. O Neo Mondo foi a mídia oficial.
A escolha de abrir a semana climática pelo mar tem lastro na física. O oceano absorveu mais de 90% do excesso de calor gerado pelas emissões humanas desde a década de 1970. O restante ficou na atmosfera, e é esse restante que já elevou a temperatura média do planeta em torno de 1,2°C. Sem o mar retendo o resto, viveríamos em outro planeta. Regina Rodrigues, professora de oceanografia física na UFSC, resume o tamanho do favor com franqueza incomum para uma cientista: a água tem uma capacidade extraordinária de reter calor, e é isso que está acontecendo; se o oceano não tivesse absorvido todo esse calor, estaríamos numa situação muito pior. A conta, porém, não é gratuita. O mar também absorve cerca de 25% do dióxido de carbono lançado na atmosfera a cada ano, e o CO2 dissolvido altera a química da água. A acidez média das águas superficiais subiu perto de 30% desde a era pré-industrial. O calor acumulado no oceano bateu novo recorde em 2025, mesmo com a superfície do mar esfriando levemente sob a La Niña. O calor não some. Desce, expande a água, eleva o nível do mar e prolonga as ondas de calor marinhas.

A programação não abriu por um painel técnico, mas por uma roda de conversa chamada "Mulheres do Mar — Oceano e Clima". Marinez Scherer, professora da UFSC, enviada especial para o oceano da COP30 e curadora do evento ao lado de Diego De Franceschi Alvarez, usou o espaço para fazer um ponto que atravessaria o dia. O protagonismo feminino na agenda oceânica já é uma realidade, disse. O que falta é ampliar o reconhecimento e garantir que essas vozes estejam cada vez mais presentes nos espaços de decisão. Scherer chega a esse debate carregando a experiência do Pacote Azul, o arranjo de financiamento e estruturação de ações oceânicas que ganhou institucionalização na COP30, em Belém, em novembro de 2025.
Leana Bernardi, presidente do Instituto Ambientes em Rede e coordenadora nacional do Programa Bandeira Azul Brasil, insistiu na costura entre setores. A conservação dos ambientes costeiros depende de uma atuação integrada, que envolva governos, comunidades, ciência e sociedade, afirmou, apresentando o Bandeira Azul como ferramenta de gestão, educação ambiental e mobilização em torno de qualidade da água, turismo sustentável e proteção dos ecossistemas. Heloísa Schurmann, velejadora e líder da Voz dos Oceanos, trouxe outra escala de tempo: décadas navegando trouxeram a ela a evidência empírica de que os padrões do mar mudaram, e que eventos extremos observados nas expedições reforçam o vínculo entre oceano e clima.
Do lado do governo, Ana Paula Prates, do Departamento de Oceano e Gestão Costeira do Ministério do Meio Ambiente, tratou as áreas marinhas protegidas como instrumento de adaptação e mitigação, e não como paisagem a conservar. Lembrou que a saúde do oceano está diretamente ligada ao bem-estar da sociedade, e apontou as Contribuições Nacionalmente Determinadas, o Planejamento Espacial Marinho e a Gestão Costeira Integrada como frentes onde essa proteção precisa avançar.

O dia se organizou em quatro painéis, cada um empurrando o debate um passo adiante do anterior. O primeiro, "Conhecimento e informação para a agenda oceano-clima", foi moderado por Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, e reuniu representantes do Instituto do Mar da Unifesp, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas, da Universidade Federal do Ceará e da FGV. A discussão girou em torno de uma tese: decisão eficiente precisa de ciência, mas também dos saberes de quem vive no território. A integração entre conhecimento acadêmico, técnico e local foi apontada como base para um planejamento espacial marinho que faça sentido na realidade da costa.

O segundo painel, sobre soluções baseadas no oceano, foi mediado por Oscar Lopes, CEO e publisher do Neo Mondo e vencedor do Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental 2026, e tratou dos ecossistemas como infraestrutura climática. Manguezais que estocam carbono em volume superior ao de florestas terrestres, recifes que amortecem a força das ondas, unidades de conservação que protegem a linha da costa. A Conservação Internacional Brasil, representada por Nátali Piccolo, diretora do Programa Marinho e Costeiro, levou ao painel um documento construído ao longo de 2024 e 2025 com comunidades extrativistas, pescadores artesanais, marisqueiras, quilombolas e povos indígenas. O texto fixa diretrizes de segurança jurídica, governança comunitária, repartição justa de benefícios e respeito ao Consentimento Livre, Prévio e Informado, para que projetos de carbono azul gerem retorno para o clima, para a natureza e para as pessoas, e não apenas para quem financia.

O terceiro painel, "Economia Azul: transformação econômica sustentável, equitativa e justa", foi moderado por Maurício Bianco, vice-presidente sênior da CI-Brasil, e reuniu Ademilson Zamboni, da Oceana Brasil; Diego Alvarez, do Instituto Aprender Ecologia; Julia Paletta, da Ocean Energy Pathway; Thauan Santos, da Escola de Guerra Naval; e Will McClintock, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Bianco resumiu a tensão do debate numa frase. O desenvolvimento econômico ligado ao oceano precisa gerar prosperidade sem comprometer os ecossistemas dos quais depende. A conversa passou por energia eólica offshore, proteção de áreas de relevância ambiental e a exigência, repetida por vários painelistas, de que a transição seja justa, com as comunidades costeiras dentro do planejamento e beneficiadas pelas novas atividades, não empurradas para fora delas.

O último painel foi onde o discurso do dia encontrou seu teste mais duro. "Do discurso ao investimento: financiando soluções baseadas no oceano" sentou à mesma mesa BNDES, Instituto Clima e Sociedade, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, Fundação Grupo Boticário, Instituto Linha d'Água e setor privado. A pergunta era prática: como transformar compromisso climático em recurso desembolsado para resiliência costeira e conservação marinha. Os participantes falaram em aproximar políticas públicas, investidores e projetos locais, em criar mecanismos financeiros capazes de chegar aos municípios costeiros, e no papel das instituições financeiras como articuladoras de uma lógica de investimento que conecte recurso, estratégia ambiental e retorno para as comunidades. É a mesma constatação que Alexander Turra registrou nos bastidores de Belém, e que fechou o encontro de São Paulo: sem dinheiro, nenhuma ação oceânica sai do papel.

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