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O degelo do Ártico parou de desacelerar — e o que parecia trégua era só um intervalo

Escrito por Neo Mondo | 10 de agosto de 2026

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Degelo expõe a fragilidade do gelo marinho no Ártico, onde períodos de aparente estabilidade podem esconder a persistência de uma transformação de longo prazo - Foto: Ilustrativa/Freepik

Dois invernos recordes desmontam a aparente estabilidade do gelo marinho e deixam uma lição que ultrapassa o Ártico: em sistemas climáticos, alguns anos de calmaria podem esconder a direção real do risco

Durante alguns anos, o Ártico pareceu contrariar a trajetória que a física do clima vinha desenhando havia décadas. O planeta continuava aquecendo. As concentrações de gases de efeito estufa seguiam elevadas. Mas a perda do gelo marinho durante o inverno havia desacelerado a ponto de tendências calculadas em janelas de 20 anos deixarem de ser estatisticamente significativas no início desta década.

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Era um dado verdadeiro. A interpretação que poderia ser extraída dele, não necessariamente.

Dois invernos bastaram para alterar profundamente essa leitura.

Um estudo de Duo Chan, Alessandro Silvano e Simon A. Josey, da University of Southampton e do National Oceanography Centre, publicado online em 20 de julho de 2026 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), incorporou as observações mais recentes ao registro de satélite do gelo marinho ártico. O resultado recolocou a série histórica em perspectiva: os níveis excepcionalmente baixos de 2025 e 2026 fizeram com que a tendência de declínio nas últimas duas décadas voltasse a ser estatisticamente significativa.

A mudança mais abrupta ocorreu entre 2024 e 2025. Na fase de pico do inverno, entre fevereiro e março, a extensão média do gelo marinho caiu 5,8% em apenas um ano. Foi a maior redução interanual de inverno desde o início do registro por satélite, em 1978. Em 2026 houve uma pequena recuperação, mas a cobertura permaneceu no segundo menor nível registrado para essa fase.

A dimensão mais reveladora do trabalho, porém, talvez não esteja no recorde.

Está no que aconteceu antes dele.

A ciência trabalha com sinais imersos em ruído. Temperatura, correntes oceânicas, circulação atmosférica, ventos, cobertura de nuvens e outras formas de variabilidade natural podem reforçar ou atenuar temporariamente uma tendência de fundo. Em séries climáticas relativamente curtas, alguns anos anômalos têm força suficiente para alterar a significância estatística de uma trajetória sem necessariamente alterar a física que a produz.

É exatamente por isso que a aparente trégua do Ártico merece atenção para além da criosfera.

Chan e seus colegas dividiram o ciclo anual do gelo em quatro fases: pré-condicionamento, de agosto a outubro; crescimento, de novembro a janeiro; pico, entre fevereiro e março; e declínio, de abril a julho. Ao acrescentar os dois invernos mais recentes, observaram que as fases de crescimento e pico voltaram a apresentar valores recordes ou próximos dos recordes mínimos e que as tendências móveis de 20 anos retomaram significância estatística.

“O que parecia uma pausa no início da década de 2020 agora parece ter sido uma desaceleração temporária dentro de um declínio de longo prazo associado ao aquecimento global”, afirmou Chan ao divulgar os resultados.

É uma frase sobre gelo. Mas também sobre a maneira como sociedades interpretam risco.

Há uma diferença entre ausência temporária de evidência estatística e evidência de que um processo físico terminou. Quando essa distinção desaparece do debate público, períodos relativamente estáveis podem adquirir um significado que os dados não sustentam. A pausa vira reversão. A desaceleração vira recuperação. A variabilidade passa a ser confundida com mudança estrutural.

O próprio Ártico oferece evidências de por que essa cautela é necessária.

Em março de 2025, o gelo marinho alcançou sua menor extensão máxima em 47 anos de observações por satélite: 14,33 milhões de quilômetros quadrados, segundo o National Snow and Ice Data Center, nos Estados Unidos. Em 2026, dados provisórios indicaram um pico de aproximadamente 14,29 milhões de quilômetros quadrados, estatisticamente empatado com o recorde do ano anterior.

O gelo também mudou por dentro.

O Arctic Report Card 2025, da NOAA, mostra que o gelo com mais de quatro anos — mais espesso e resistente ao derretimento — diminuiu mais de 95% desde os anos 1980. Em setembro de 2025 restavam cerca de 95 mil quilômetros quadrados desse gelo antigo, concentrados sobretudo ao norte da Groenlândia e no Arquipélago Ártico Canadense.

Extensão, portanto, é apenas uma dimensão de um sistema que também está se tornando mais jovem, mais fino e mais vulnerável.

Há ainda outra escala temporal a considerar. Um estudo liderado por Mika Rantanen, do Finnish Meteorological Institute, publicado em 2022 na Communications Earth & Environment, calculou que o Ártico aqueceu 3,8 vezes mais rapidamente do que a média global entre 1979 e 2021. Em partes do setor eurasiano do Oceano Ártico, o aquecimento observado chegou a ser sete vezes superior à média planetária.

Nesse contexto, alguns anos de estabilidade relativa do gelo não significavam que a energia acumulada no sistema climático tivesse desaparecido.

Os pesquisadores de Southampton foram além das observações e buscaram episódios comparáveis nas simulações do CMIP6, a geração de modelos climáticos usada internacionalmente para estudar a evolução do clima. A queda registrada em 2025 apareceu como um acontecimento incomum, mas fisicamente plausível sob o nível atual de aquecimento do Ártico.

A comparação também oferece uma pista sobre os próximos anos.

Segundo Simon Josey, do National Oceanography Centre, os episódios análogos encontrados nos modelos sugerem que o gelo marinho de inverno tende mais a oscilar em torno de um patamar inferior do que retornar rapidamente às condições observadas no começo da década de 2020.

Essa conclusão muda a natureza da pergunta.

Já não basta perguntar se haverá anos em que o gelo crescerá novamente. Haverá. A variabilidade climática não desapareceu. Pode produzir recuperações sazonais, invernos mais frios em determinadas regiões e períodos capazes de interromper momentaneamente uma tendência estatística.

A pergunta mais útil é outra: em torno de qual linha de base essas oscilações estarão acontecendo?

O gelo marinho de inverno funciona como uma cobertura entre um oceano relativamente quente e uma atmosfera polar muito mais fria. Quando essa camada diminui, mais calor e umidade podem escapar do oceano para a atmosfera, interferindo em padrões de pressão, formação de tempestades e circulação atmosférica em grandes escalas.

Há ainda uma distinção física que frequentemente se perde no debate público. O derretimento do gelo marinho flutuante não eleva diretamente o nível dos oceanos da mesma maneira que a perda de gelo continental da Groenlândia ou da Antártida. Seu papel climático está em outras conexões: albedo, trocas de energia entre oceano e atmosfera, ecossistemas polares e circulação.

O estudo de Chan, Silvano e Josey chega, assim, a uma questão que interessa tanto à climatologia quanto às salas onde se administram riscos financeiros, infraestruturais e públicos.

Séries históricas não caminham em linhas retas.

Uma tendência estrutural pode conter anos de reversão. Uma aceleração pode ser seguida por estabilidade. Um recorde pode ser sucedido por recuperação. Nenhum desses movimentos isolados determina, sozinho, a direção do sistema.

É justamente aí que reside o perigo das tréguas aparentes.

Políticas públicas, infraestrutura, seguros, agricultura, energia e cadeias produtivas trabalham com horizontes nos quais dez anos parecem muito tempo. Para o sistema climático, podem ser apenas uma oscilação dentro de uma transformação que atravessa muitas décadas.

Confundir essas escalas cria uma forma particularmente traiçoeira de risco: a falsa sensação de segurança produzida por dados que são reais, mas incompletos.

A ciência não errou ao registrar a desaceleração do gelo. Ao contrário. Registrou exatamente o que estava acontecendo naquele intervalo. O que os novos dados demonstram é por que a interpretação científica precisa permanecer aberta à série que ainda não foi observada.

O Ártico de 2025 e 2026 não apagou a década anterior. Deu a ela outro significado.

Talvez seja essa a mensagem mais desconfortável que emerge do gelo.

Em um planeta submetido a uma tendência persistente de aquecimento, uma pausa não precisa ser o começo de uma recuperação.

Pode ser apenas o espaço entre duas quedas.

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