“Esses resultados permitem aumentar a proteção de espécies ameaçadas e habitats críticos de uma forma ótima, maximizando os benefícios com a proteção da menor área possível”, avalia Francini Filho. Ele é co-autor do trabalho, ao lado do professor Paulo Sumida, do Instituto de Oceanografia da USP, e outros oito pesquisadores de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Austrália.
O Brasil recentemente aumentou sua cobertura de áreas protegidas marinhas na ZEE de 1,5% para 25%, graças à criação de duas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) gigantescas em alto-mar, no entorno dos arquipélagos de São Pedro e São Paulo, e Trindade e Martin Vaz. Muitos ecossistemas da plataforma continental e de águas mais rasas, no entanto, permanecem desprotegidos. Considerando-se apenas as áreas de proteção integral (“no take”, em inglês), fechadas à pesca e outras atividades impactantes, a cobertura ainda é de apenas 2,5%.
Há várias propostas de criação de áreas protegidas marinhas em análise no Ministério do Meio Ambiente, que tem como meta a ampliação dessa cobertura de proteção integral para além de 10% nos próximos 15 anos. Segundo os pesquisadores, é essencial que esse processo seja guiado por critérios técnicos — como os preconizados pelo planejamento sistemático de conservação —, e não apenas pelo oportunismo político ou por interesses particulares.
“Não adianta preservar uma área apenas por conveniência, mas é preciso saber se a preservação de uma determinada área será efetiva para a preservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos que essa biodiversidade presta para a manutenção da vida no planeta”, afirma Sumida, do IO. “O blueprint apresentado nesse estudo leva em consideração isso. É claro que os interesses da sociedade também são legítimos, mas é necessário um balanço entre essas necessidades.”
“Esse tipo de abordagem é essencial para a efetividade dos objetivos das áreas de conservação”, diz o professor Antonio Carlos Marques, do Instituto de Biociências da USP, especialista em biologia e conservação marinha, que não participou do estudo. “A criação de áreas protegidas deve ter grande fundamentação científica, levando em conta também as realidades socioeconômicas das regiões em questão. É importante que o estado brasileiro reconheça essas contribuições e volte a ser um protagonista na área de conservação ambiental, inclusive a marinha.”