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Escrito por Neo Mondo | 9 de abril de 2026
Pinguim-imperador com filhote na Antártida: cada ovo, cada inverno, cada plataforma de gelo que desaparece representa uma aposta reprodutiva perdida para sempre - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em abril, no auge do inverno antártico, os machos do Aptenodytes forsteri — o pinguim-imperador — iniciam uma das façanhas mais extravagantes da biologia: ficam de pé, imóveis, carregando um único ovo sobre os pés, por sessenta e cinco dias seguidos, sem comer, sem beber, resistindo a ventos de até 200 quilômetros por hora e temperaturas que chegam a -50°C. Toda a aposta reprodutiva da espécie concentrada num ovo, num inverno, sobre uma plataforma de gelo que, nas últimas décadas, simplesmente deixou de aparecer onde deveria estar.
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A cena não é metáfora. É a mecânica exata do declínio.
Na primeira semana de abril de 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) atualizou sua Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas e elevou o pinguim-imperador da categoria "quase ameaçado" para "em perigo" — dois degraus abaixo de "extinto na natureza". A decisão consolidou o que uma série de estudos vinha documentando com progressiva gravidade: a maior ave da família dos pinguins, que nunca sofreu com pesca predatória, caça, desmatamento ou poluição direta, está sendo empurrada à extinção por um único fator — o aquecimento global produzido por atividades humanas a milhares de quilômetros de seu único habitat.
A reclassificação foi divulgada semanas antes da Reunião Consultiva do Tratado da Antártida (ATCM) de maio de 2025, em Hiroshima — e o momento não foi casual. Philip Trathan, pesquisador do British Antarctic Survey (BAS) e membro do grupo de especialistas da IUCN que conduziu a avaliação, descreveu o pinguim-imperador como 'uma espécie sentinela' — um termômetro vivo que permite medir até onde a humanidade avançou no controle das emissões de gases de efeito estufa que alteram o clima planetário.
O que essa sentinela registra é alarmante. Um estudo do BAS publicado em junho de 2025 na revista Nature Communications: Earth & Environment mostrou que as populações de pinguins-imperadores encolheram cerca de 22% entre 2009 e 2024, a partir da análise de 16 colônias que concentram mais de um terço da população global da espécie, distribuídas pela Península Antártica, pelo Mar de Weddell e pelo Mar de Bellingshausen. Peter Fretwell, geógrafo do BAS e autor principal do estudo, classificou a queda como cerca de 50% pior do que as estimativas anteriores. "É um retrato realmente desolador das mudanças climáticas", disse Fretwell. "As populações caem ainda mais rápido do que pensávamos."
O mecanismo do colapso é direto. O pinguim-imperador depende do chamado fast ice — o gelo marinho fixo, ancorado à costa ou a icebergues encalhados — para incubar seus ovos durante o inverno, para proteger os filhotes até que desenvolvam penas impermeáveis e para realizar a muda anual de plumagem entre janeiro e março, quando ficam completamente vulneráveis à água. Sem gelo estável, os filhotes caem no oceano antes de estarem prontos para nadar. Morrem afogados ou de frio. A espécie coloca apenas um ovo por temporada reprodutiva, o que torna qualquer falha demograficamente catastrófica — ao contrário de outras aves marinhas, os pinguins-imperadores não interrompem a reprodução em anos desfavoráveis, mesmo quando o ambiente não oferece as condições mínimas de sobrevivência.
Em 2022, essa vulnerabilidade atingiu uma escala até então inédita. Um estudo publicado na Nature Communications: Earth & Environment documentou que quatro em cada cinco colônias monitoradas no Mar de Bellingshausen não registraram nenhum filhote sobrevivente naquele ano — a primeira "falha reprodutiva catastrófica" de amplitude continental já registrada para a espécie. O colapso aconteceu no mesmo ano em que o gelo marinho da região recuou a níveis sem precedente histórico.
Os anos seguintes não trouxeram alívio. Entre 2022 e 2024, três anos consecutivos registraram extensões mínimas de gelo marinho antártico abaixo de 2 milhões de quilômetros quadrados — os três menores valores em 46 anos de monitoramento por satélite. Em fevereiro de 2023, o gelo atingiu o menor valor já medido: 1,79 milhão de quilômetros quadrados, com uma redução de 2 milhões de km² em relação à média esperada para o inverno austral — área equivalente a cerca de dez vezes o estado de São Paulo. Pesquisadores do British Antarctic Survey, em estudo publicado na Geophysical Research Letters em maio de 2024, concluíram que esse evento seria "extremamente improvável" sem a influência das alterações climáticas — tão raro que, em condições pré-industriais, ocorreria uma vez a cada dois mil anos.
O que distingue o colapso em curso de qualquer outra crise de biodiversidade documentada na Antártida é precisamente essa ausência de um agressor local. O pinguim-imperador não é caçado. Seu habitat direto não é fragmentado por estradas ou cidades. Sua cadeia alimentar não foi destruída por fertilizantes agrícolas. A ameaça é estrutural, difusa, gerada nas refinarias, usinas e frotas de veículos de países que jamais avistaram o continente branco. Trathan sintetizou essa assimetria ao dizer que a espécie informa até que ponto a humanidade está "a controlar as emissões de gases com efeito de estufa que conduzem às alterações climáticas". A resposta que os dados oferecem é que o controle, até agora, é insuficiente.
A IUCN reclassificou também o lobo-marinho-antártico de "pouco preocupante" para "em perigo", após a espécie registrar uma queda populacional superior a 50% entre 1999 e 2025, passando de aproximadamente 2,19 milhões para 944 mil indivíduos adultos. O declínio está ligado ao aquecimento dos oceanos e à retração do gelo marinho, que fazem o krill antártico — pequeno crustáceo que constitui a base da cadeia alimentar do Oceano Austral — migrar para profundidades inacessíveis. A foca-leopardo foi igualmente elevada à categoria de ameaçada, com queda populacional superior a 50% desde 1999. A Antártida, o continente que não tem Estado, não tem governo e não tem povo, está sendo esvaziada de vida por decisões tomadas em outro hemisfério.
Os modelos de projeção publicados pelo Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), no estudo Living with Uncertainty, de 2024, na revista Biological Conservation, integram, pela primeira vez, a variabilidade natural dos processos físicos e biológicos para avaliar o risco de extinção da espécie sob múltiplos cenários climáticos. Stéphanie Jenouvrier, ecologista sênior de aves marinhas no WHOI e autora principal, concluiu que o pinguim-imperador já cumpre os critérios da IUCN para as categorias entre Vulnerável e Em Perigo. Sem reduções drásticas nas emissões de gases de efeito estufa, as projeções apontam que a população se reduzirá à metade até a década de 2080 e que quase todas as colônias desaparecerão antes do final do século. Se as emissões seguirem a trajetória atual de alta, até 2100, 98% das 61 colônias conhecidas terão desaparecido.
Há uma dimensão política nessa equação que os números sozinhos não capturam. A Reunião Consultiva do Tratado da Antártida e a Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos (CCAMLR) são os únicos mecanismos disponíveis para traduzir a evidência científica em proteção efetiva — por meio da criação de Áreas Marinhas Protegidas, de restrições à pesca do krill e de acordos de redução de emissões com efeito direto sobre o gelo marinho. Mas essas negociações ocorrem em tempo diplomático, enquanto o gelo se fragmenta em tempo climático.
Fretwell deixou aberta uma janela: "Provavelmente vamos perder muitos pinguins-imperadores ao longo do caminho, mas se as pessoas realmente mudarem e reduzirmos nossas emissões climáticas, salvaremos a espécie." É uma afirmação que contém, ao mesmo tempo, uma condicional e uma certeza. A certeza é que a perda já está em curso. A escolha — a única que resta — é sobre o que ainda não se perdeu. O imperador não aguarda no gelo por um gesto simbólico. Aguarda por uma política energética que o seu habitat nunca poderá votar.
Fontes:
IUCN, Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025
British Antarctic Survey, Nature Communications: Earth & Environment, 2025
British Antarctic Survey, Geophysical Research Letters, 2024
Woods Hole Oceanographic Institution, Biological Conservation, 2024
British Antarctic Survey, Nature Communications: Earth & Environment, 2023
National Snow and Ice Data Center, dados de extensão do gelo marinho antártico, 2022–2024
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