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Santos sufoca sob lixo e esgoto o manguezal que poderia protegê-la do mar

Escrito por Neo Mondo | 20 de outubro de 2026

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Santos guarda sob essas palafitas o Rio dos Bugres, que tem a segunda maior concentração de microplástico já medida no mundo - Foto: Felipe Beltrame/Acervo do Fotógrafo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Sedimento do Rio dos Bugres tem 93 mil partículas de microplástico por quilo, recorde no litoral latino-americano; ambientalistas contestam que os apartamentos erguidos pela prefeitura sobre o mangue tenham ajudado a vegetação a se recuperar

O sedimento do Rio dos Bugres, que corre sob as palafitas do Dique da Vila Gilda, na zona noroeste de Santos (SP), tem mais de 93 mil partículas de microplástico por quilo. É a maior concentração já registrada no litoral da América Latina, segundo estudo do Instituto EcoFaxina com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), publicado na revista Marine Pollution Bulletin. Na comparação internacional feita pelo artigo, o rio santista só fica atrás do rio Pasur, em Bangladesh.

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O recorde está num manguezal que pesquisadores ouvidos pelo Neo Mondo apontam como a defesa natural mais eficiente da cidade contra a subida do mar. A mesma área recebe esgoto sem tratamento, acumula toneladas de lixo e sustenta a maior favela sobre palafitas do Brasil, com cerca de 10 mil moradores.

Em julho, a prefeitura entregou as primeiras 60 moradias do Parque Palafitas, conjunto de apartamentos erguidos sobre estacas construído no próprio manguezal, com saneamento, para substituir os barracos sem tirar as famílias do lugar. O município já garantiu R$ 116 milhões da União para a área e afirma que a obra abriu espaço para o mangue se regenerar. Especialistas contestam.

Uma barreira que acompanha o mar

Segundo Aline Sbizera Martinez, ecóloga marinha do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cem metros de mangue reduzem até 70% da energia das ondas. Mas a maior vantagem sobre o concreto é outra. Muros e enrocamentos são dimensionados para um nível do mar que está mudando e perdem função com o tempo. O manguezal acompanha a água: quando o mar avança, a vegetação migra terra adentro e se reinstala no novo limite.

foto de Aline Sbizera Martinez, entrevistada na matéria Santos sufoca sob lixo e esgoto o manguezal que poderia protegê-la do mar
Aline Sbizera Martinez - Foto: Divulgação

Essa migração não é nova. Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP e curador científico desta série, lembra que o mangue já recuou e avançou muitas vezes na história da Terra, conforme o planeta esquentava ou esfriava. A diferença agora está na causa e no ritmo: o mar sobe por efeito das emissões humanas, e mais rápido do que nas mudanças naturais.

Para acompanhar essa subida, o manguezal depende de espaço livre. “A ocupação humana precisa considerar essas tendências futuras e não edificar, não construir, não colocar estradas, não colocar loteamentos, cidades atrás dos manguezais, assim como das praias”, destaca Turra.

André Pardal - Foto: Divulgação

Na Baixada Santista, esse espaço vem sendo ocupado por concreto. Cerca de 150 quilômetros da costa da região já viraram muro, píer ou enrocamento, mais de 60% de todo o litoral endurecido do estado, segundo levantamento de 2024 assinado por Aline Martinez, pelo ecólogo André Pardal e por Ronaldo Christofoletti, da Unifesp.

Pardal defende proteger os manguezais e as restingas que restam, que chama de primeira linha de defesa contra ondas e ressacas. Em Santos, quem mais depende dessa barreira é a zona noroeste, que margeia o manguezal do estuário. Ali, o risco é a inundação. Um estudo coordenado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostra que a região tem 83 mil moradores em terreno quase plano, a menos de 3 metros de altitude. Somados os eventos extremos, o mar pode subir até 90 centímetros já em 2050.

De onde vem o lixo da praia

Todas as manhãs, tratores, caminhões e garis limpam a areia das praias de Santos e das cidades vizinhas. Boa parte do que recolhem não veio do mar nem foi deixada por banhistas. Saiu de dentro do estuário, de comunidades de palafita sem coleta de lixo nem rede de esgoto, e a maré o levou até ali.

O EcoFaxina mediu esse caminho. Entre 2018 e 2019, o instituto fez para a Prefeitura de Santos um diagnóstico das fontes de poluição da parte insular da cidade, com patrocínio da Agência Sueca de Proteção Ambiental e apoio da Abrelpe (atual Abrema). A equipe comparou o resíduo encontrado dentro do manguezal com o recolhido na areia nas praias, e a composição era semelhante. O trabalho virou artigo em 2023 na revista Regional Studies in Marine Science, com modelagem hidrodinâmica que mostra o trajeto: as correntes de maré levam o lixo do manguezal até a orla pelos canais de Santos e de São Vicente.

O fluxo fica mais forte nas marés de lua cheia e de lua nova, quando a amplitude é maior. Parte do material para na areia, nos costões e nas ilhas. Outra parte entra nas correntes costeiras e se espalha pelo litoral paulista.

O instituto começou a atuar em 2008, justamente no Dique da Vila Gilda. Até 7 de outubro de 2026, fez 214 ações, mobilizou 6.513 voluntários e retirou quase 95 toneladas de resíduo. Só das áreas de mangue saíram mais de 60 toneladas, dois terços delas de plástico.

William Rodriguez Schepis - Foto: Divulgação

Como o lixo mata o mangue

Segundo William Rodriguez Schepis, biólogo marinho e diretor-presidente do EcoFaxina, o lixo leve e o pesado causam danos diferentes. Sacolas e plásticos cobrem a lama e sufocam as raízes que o mangue-preto usa para respirar. Colchões, sofás e tábuas de palafita, levados pela maré, arrastam as sementes e as plantas jovens antes que elas se fixem.

O plástico que fica se quebra em partículas. No rio do Dique, a maré é fraca demais para levar esse material embora, e ele se acumula no fundo. É isso que explica o recorde do Rio dos Bugres entre os dez pontos do estuário analisados no estudo com o Ipen.

O esgoto age mais devagar. O mangue continua freando as ondas, mas perde a capacidade de subir junto com o mar, que depende de reter sedimento e produzir raiz sob a lama. Com o fundo sem oxigênio e excesso de nutrientes, a árvore investe na copa, e não na raiz. “A poluição não derruba a defesa de um dia para o outro. Ela ataca justamente o mecanismo que permitiria ao manguezal acompanhar o nível do mar”, diz Schepis.

Dez mil pessoas sobre a lama

A ocupação do Dique da Vila Gilda começou por volta de 1960, depois que o extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento abriu ali um dique e um canal de drenagem e destruiu boa parte da vegetação nativa. Hoje são aproximadamente 4.600 domicílios ao longo de mais de 4 quilômetros às margens do Rio dos Bugres, até a divisa com São Vicente. O terreno é área de preservação permanente e pertence à União.

Pelo Plano Municipal de Habitação de 2026, 3.616 domicílios estão em área de risco. Dados do Censo 2022 apresentados pelo município mostram água encanada em 99% das casas e falta de ligação à rede de esgoto em 60%. Questionada sobre saneamento, a prefeitura orientou a reportagem a procurar a Cetesb, órgão ambiental do estado que não responde pelo serviço.

David Souza Ribeiro Dias viveu 40 anos numa palafita do trecho que os moradores chamam de Última Ponte. Hoje mora perto dali, com a mulher, mas diz que as raízes ficaram. A casa de madeira ficava sobre estacas, com a maré passando por baixo. “Não enchia minha casa quando a maré estava alta”, conta. O esgoto ia direto para o rio. Em quatro décadas, ele viu o mangue encolher com novos aterros, que avançavam do lado de São Vicente em direção a Santos, e o rio ficar cada vez mais poluído.

foto de David Souza Ribeiro Dias, entrevistado da matéria Santos sufoca sob lixo e esgoto o manguezal que poderia protegê-la do mar
David Souza Ribeiro Dias - Foto: Divulgação

Saiu por iniciativa própria, quando se casou. Perguntado se viveria lá de novo, responde: “Olha, eu voltaria sim.” Mas ressalva que as condições de moradia teriam que melhorar para todos.

Moradia sobre o mangue

Depois de décadas transferindo famílias do Dique para outros bairros, a Prefeitura de Santos voltou à ideia de mantê-las no local. Assim nasceu o Parque Palafitas, mencionado no início deste texto. Os apartamentos do piloto têm 41,69 metros quadrados, as estacas chegam a 35 metros de profundidade e o conjunto inclui área de comércio e píer flutuante.

Na resposta enviada à reportagem em 2 de outubro, a administração municipal diz que a obra removeu as habitações mais vulneráveis junto à água e que os resultados da regeneração do mangue já são visíveis.

O pesquisador Schepis discorda. Segundo ele, o trecho do piloto já não tinha barracos quando as obras começaram, e bastaria impedir novas ocupações para a vegetação voltar sozinha.

Caroline Fassina, bióloga marinha que passou 15 anos no serviço público, boa parte na Secretaria de Meio Ambiente de Santos, acompanhou a concepção do projeto. Hoje ela coordena pesquisas no Parque Tecnológico da cidade. A proposta original, conta ela, tratava a palafita como arquitetura adequada ao manguezal, e a recuperação do mangue integrava o desenho desde o início. Muita coisa mudou até o piloto, admite.

Caroline Fassina - Foto: Divulgação

A ampliação ganhou dinheiro depois do incêndio de 1º de agosto de 2025, que destruiu 78 casas no Caminho São Sebastião. A prefeitura obteve R$ 116 milhões a fundo perdido da União: R$ 80 milhões para o Parque Palafitas e R$ 36 milhões para comprar imóveis, a R$ 168 mil por família. A segunda etapa, o Parque Palafitas II, prevê 350 moradias para 330 famílias, com convênio de R$ 77 milhões com o governo estadual e a Cohab Santista. A parte estadual está assinada; a federal ainda passa pela Caixa Econômica Federal. Outras 246 famílias, no setor C, seguem sem solução definida.

Para o EcoFaxina, nenhuma área de manguezal deveria receber moradia, nem as já degradadas ou aterradas, porque todas podem voltar a ser mangue. Schepis defende levar as famílias para moradias dignas em bairros já urbanizados, onde construir tende a sair mais barato do que sobre a maré.

Segundo Fassina, a cidade tem onde abrigá-las. O Plano Municipal de Habitação de 2009 estimava em cerca de 16 mil moradias o déficit habitacional de Santos. Já os imóveis desocupados somam aproximadamente 19 mil, e os de uso ocasional, outros 17 mil: juntos, mais que o dobro dessa carência.

Para a pesquisadora, o problema não é a falta de imóveis, mas de acesso a moradia bem localizada, com infraestrutura e transporte. Quem não consegue pagar aluguel procura onde ainda dá para morar. Numa região densa como a Baixada Santista, isso significa manguezal e área sujeita a inundação. Ela defende usar o parcelamento, edificação ou utilização compulsórios (PEUC), previsto no Estatuto da Cidade, para obrigar imóveis ociosos a cumprir sua função social.

A realocação também tem o apoio de outros estudiosos. Para Turra, planejar o uso do espaço costeiro muitas vezes significa levar a população para áreas já estruturadas. Pardal chama a medida de “recomendação impopular”, mas cada vez mais necessária onde o mar avança rápido demais para que se possa apenas proteger o que já está construído.

A proteção que o mangue não recebe

Para Schepis, a maior fragilidade do manguezal do estuário não é técnica. É a falta de fiscalização sobre a ocupação irregular, somada a uma visão antiga dessa vegetação como lama sem função, que estaria melhor aterrada. “O manguezal não recebe a mesma proteção que as praias recebem, e é um ecossistema tão importante quanto elas, e muito mais vulnerável”, diz.

Turra vê o mesmo desequilíbrio nas decisões de investimento. A adaptação ao clima, diz, exige escolhas feitas às claras, e a ordem certa costuma contrariar quem tem mais influência. “Essas priorizações muitas vezes vão considerar as populações mais vulneráveis, e não necessariamente as áreas com maior perda potencial de patrimônio ou onde você tem populações mais abastadas, embora estas sejam aquelas que têm maior poder de pressão sobre o poder público.” As medidas para esse público, acrescenta, tendem a custar menos e melhoram o ambiente junto com a vida de quem mora ali.

A ocupação da zona noroeste de Santos vista de cima, com o manguezal e a Serra do Mar ao fundo - Foto: Felipe Beltrame/Acervo do Fotógrafo

Na prática, ele observa o inverso. Iniciativas como a engorda de praia atendem banhistas, moradores da orla e o turismo, “e não necessariamente essas outras realidades que estão escondidas e que acabam não tendo poder de pressão tão grande quanto o apelo que se tem nessas zonas mais visíveis dos municípios”. Em Santos, a orla recebe desde 2018 obras contra a erosão na Ponta da Praia, como mostrou a reportagem anterior desta série.

No estuário, a prefeitura criou em 2024 o Parque Municipal Manguezais de Santos, com cerca de 260 mil metros quadrados de mangue e Mata Atlântica na zona noroeste, em área antes usada para descarte irregular de lixo.

Restaurar, sanear e pagar

Até dezembro, o EcoFaxina começa o Mangue no Clima, projeto de reflorestamento com uma primeira fase de cerca de 3 mil metros quadrados perto do canal do porto. A parceria com a prefeitura, por termo de fomento, usa recursos de três emendas impositivas da Câmara Municipal de Santos e envolve o Ipen, a Unisanta e o Instituto Leão do Mar, ligado ao Santos Futebol Clube. O plantio vai usar plantas jovens resgatadas do próprio manguezal.

Schepis faz uma ressalva: as mudas pegam mesmo com esgoto, mas o filtro natural do mangue tem limite. “Restaurar sem sanear recupera a estrutura e deixa o ecossistema pela metade”, diz. Ele defende amarrar cada trecho replantado a um prazo para a chegada do saneamento.

Manter o mangue de pé também depende de quem vive dele. O pagamento por serviços ambientais, previsto em lei, remunera comunidades por conservar uma área. A pesquisadora Fassina propõe abastecer esse mecanismo com a compensação cobrada no licenciamento ambiental municipal: a cada renovação de licença, empreendimentos que afetam a pesca pagariam pelo impacto, e o dinheiro iria para pescadores artesanais, marisqueiras e iniciativas de turismo de base comunitária.

Quem vive do estuário de Santos (Dique da Vila Gilda) se desloca de barco entre as palafitas, e é essa população que o pagamento por serviços ambientais pretende remunerar - Foto: Felipe Beltrame/Acervo do Fotógrafo

O EcoFaxina tem uma proposta que junta limpeza e renda. O Sistema Ambiental de Coleta de Resíduos prevê ecobarreiras em pontos do estuário para segurar o lixo flutuante antes que ele se espalhe pelo manguezal e chegue às praias. Barcos levam o material até uma base na margem, onde o reciclável é beneficiado e vira renda para moradores de palafita e pescadores artesanais organizados em cooperativa. Todo o investimento seria privado. Para tirar a iniciativa do papel, a entidade pede às prefeituras de Santos e de São Vicente apenas a cessão de um terreno à beira d’água para o galpão.

As fontes ouvidas pela reportagem apontam três condições para o mangue voltar a proteger a cidade: saneamento, moradia digna fora da área alagável e controle do lixo. Nenhuma delas está resolvida no Dique da Vila Gilda. Seis em cada dez casas seguem sem ligação de esgoto. O Parque Palafitas II depende da liberação de recursos pela Caixa Econômica Federal, e 246 famílias ainda não sabem qual será a solução. As ecobarreiras que reteriam o lixo no estuário esperam um terreno desde 2011.

Alexander turra - Foto: Arquivo pessoal

Para Turra, o que falta é planejar o uso do espaço. “A ciência já tem todas as informações do que vai acontecer.”

Esta reportagem integra a série “A cidade que aprendeu a ceder ao mar”, produzida no âmbito do Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental, promovido pela Fundação Grupo Boticário em cooperação com a UNESCO. A série tem curadoria científica de Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP, coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. O professor integra o conselho editorial do Neo Mondo.

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