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Escrito por Neo Mondo | 23 de maio de 2026
Dos Mares, o Melhor, de Alexander Turra, lançado esta semana no Portal de Livros Abertos da USP em sintonia com a SP Ocean Week 2026 - Foto: Recifes em Tamandaré (Pernambuco), por Enrico Marone
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em maio de 2026, enquanto o Memorial da América Latina recebia milhares de pessoas para a SP Ocean Week — o maior festival de cultura oceânica do mundo —, uma obra chegava ao Portal de Livros Abertos da USP com a silenciosa potência de quem não precisa de palco para ser ouvida. "Dos Mares, o Melhor: caminhos para a sustentabilidade do Oceano", do oceanógrafo Alexander Turra, titular da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano no Instituto Oceanográfico da USP, não é apenas um livro sobre o mar. É o registro de uma aposta intelectual que durou cinco anos, atravessou uma pandemia, sobreviveu ao fim de uma das mais importantes revistas científicas do país e resultou, afinal, num convite amplo à sociedade brasileira: parar de aceitar o menor e começar a exigir o melhor.
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O título é uma torção deliberada. "Dos males, o menor" — essa fórmula de resignação que a língua portuguesa herdou do latim e incorporou como sabedoria popular — é, para Turra, o símbolo exato da postura que a humanidade não pode mais se dar ao luxo de adotar diante do oceano. A inversão não é retórica. É filosófica. É um programa. Ao reescrever o ditado, Turra recusa a ideia de que, diante das agressões ao ambiente marinho — a poluição plástica, a exaustão dos recursos vivos, a degradação costeira, a acidificação, o aquecimento —, o melhor que se pode fazer é escolher o mal menor. A obra inteira é construída sobre a recusa dessa lógica.
Os 59 artigos que compõem o livro foram escritos entre novembro de 2017 e dezembro de 2022 para a coluna "Oceanos", publicada mensalmente na Scientific American Brasil. Quando a edição brasileira da revista encerrou suas atividades, em dezembro daquele ano, levou consigo uma das raras plataformas de divulgação científica de grande circulação que havia acolhido o tema oceânico com regularidade e profundidade. O gesto de reunir esses textos num volume — disponibilizado gratuitamente, sob licença Creative Commons — é também o gesto de recusar que esse acervo se perca. E de reconhecer que o que foi escrito para o leitor de 2017 ou de 2020 não perdeu pertinência. Ganhou, em muitos casos, ainda mais peso.
Lidos em sequência, os artigos revelam algo que a publicação mensal, por sua natureza fragmentada, não permitia perceber com clareza: a coerência de um projeto intelectual. Turra não escreve sobre o oceano como quem cataloga fenômenos. Escreve como quem habita uma questão. A cada texto, o tom oscila entre a indignação e o entusiasmo — não por instabilidade, mas por método. A indignação diante dos fatos preocupantes e o entusiasmo pelos avanços alcançados nas agendas nacional e internacional são, para ele, as duas faces inseparáveis de quem leva a sério tanto o diagnóstico quanto a possibilidade de mudança. É uma postura rara na divulgação científica brasileira, que tende a oscilar entre o alarme e a celebração sem habitar o espaço tenso entre os dois.
O livro chega ao público num momento em que essa tensão está no centro do debate global. O oceano cobre cerca de 75% da superfície do planeta. Produz mais oxigênio e captura mais CO2 do que todas as florestas tropicais somadas. Abriga uma biodiversidade ainda em grande parte desconhecida pela ciência, que sustenta cadeias alimentares responsáveis por alimentar bilhões de pessoas. Regula o clima. Gera energia. Inspira cultura. E está, simultaneamente, sob pressão em praticamente todas as suas dimensões — pela poluição, pela sobrepesca, pelas mudanças climáticas, pela ocupação desordenada das zonas costeiras. O Brasil, com sua costa de mais de 7.400 quilômetros e uma Zona Econômica Exclusiva equivalente a uma Amazônia submersa, é um dos países com mais a perder — e mais a contribuir — nesse equilíbrio.
É precisamente essa contradição que "Dos Mares, o Melhor" habita. O Brasil é um país marítimo que ainda não se reconhece como tal. Tem uma das maiores biodiversidades oceânicas do planeta e uma das mais frágeis culturas de proteção marinha. Possui instituições científicas de excelência dedicadas ao tema — o próprio Instituto Oceanográfico da USP, onde Turra atua há décadas, é referência internacional — e um déficit persistente de alfabetização oceânica na educação básica, na mídia e no debate público. É nessa lacuna que o livro opera: não como denúncia solitária, mas como tentativa sistemática de construir pontes entre o conhecimento científico e a consciência cidadã.
A trajetória que o livro documenta é inseparável de um ecossistema mais amplo que Turra foi construindo em paralelo à coluna. A Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, vinculada ao IO-USP e ao Instituto de Estudos Avançados da USP, teve início formal em 2019 e tornou-se o centro de uma rede de iniciativas que inclui desde a OceanoTeca e os cadernos pedagógicos "Entenda o Oceano" até a história em quadrinhos "Oceanos da Turma da Mônica" e uma Galeria de Arte, Cultura e Ciência Oceânica. A premissa que atravessa todas essas ações é a mesma que organiza o livro: a de que a relação entre sociedade e oceano não se transforma apenas pelo acúmulo de informação científica, mas pela reconstrução de vínculos culturais, afetivos e estéticos com o mar.

Nesse sentido, a coincidência entre o lançamento do livro e a realização da SP Ocean Week 2026 — cujo evento central ocorre de 20 a 24 de maio no Memorial da América Latina, em São Paulo — não é circunstancial. É estrutural. A SP Ocean Week nasceu em 2019 como embrião do que Turra e o jornalista Alfredo Nastari, ex-editor-chefe da Scientific American Brasil, chamaram de Movimento Ocean Week. O que começou como uma conversa entre um cientista e um editor que compartilhavam a convicção de que o oceano merecia mais espaço na agenda pública tornou-se, em poucos anos, o principal canal de promoção da Cultura Oceânica no mundo — com edições anuais em São Paulo e no Rio de Janeiro, alcance presencial e virtual de escala superlativa e entrada gratuita tanto para expositores quanto para visitantes. O livro é, de certa forma, o documento fundador desse movimento: a evidência de que tudo o que veio depois começou numa coluna mensal e numa aposta de que a linguagem certa poderia fazer o oceano caber na vida das pessoas.
O que torna "Dos Mares, o Melhor" uma leitura necessária para além dos círculos já convertidos — pesquisadores, ativistas, formuladores de política pública que já conhecem a importância do tema — é precisamente a qualidade literária dos textos. Turra não escreve como acadêmico que condescende a simplificar. Escreve como comunicador que respeita a inteligência do leitor não especializado e sabe que a complexidade não precisa ser sacrificada para se tornar acessível. Ao longo dos cinco anos de coluna, transitou da ironia à inspiração, do dado científico à citação literária, do relato histórico à convocação à ação. Dialogou com autores brasileiros e estrangeiros, impregnando os textos, como ele mesmo diz, de tons de azul.
Há, nesse gesto, uma aposta que vai além da divulgação científica convencional. A Ocean Literacy — a alfabetização oceânica, como o campo é conhecido internacionalmente — não se resume à transmissão de conhecimento sobre o funcionamento dos ecossistemas marinhos. Implica a formação de uma consciência oceânica que reconheça o mar como dimensão central da vida, da democracia, da justiça social e da sustentabilidade. É essa dimensão que o IEA-USP sublinha em sua apresentação do livro: a obra não apenas informa, mas convoca; não apenas esclarece, mas sensibiliza; não apenas amplia repertórios, mas fortalece o debate público.
Para o Brasil, esse papel formativo tem uma especificidade própria. O país que sediou a COP30, em Belém, em novembro de 2025, e que carrega o peso simbólico e político de ser a nação com a maior biodiversidade terrestre do planeta ainda está construindo sua identidade marítima. A Amazônia Azul — a Zona Econômica Exclusiva brasileira, com seus 4,5 milhões de quilômetros quadrados — permanece, para a maior parte da população, uma abstração geográfica sem correspondência cultural ou afetiva. Livros como o de Turra são instrumentos pelos quais essa abstração pode começar a se converter em pertencimento.
O lançamento em acesso aberto, pelo Portal de Livros Abertos da USP, é também uma declaração de princípios. Numa época em que o conhecimento científico é crescentemente apropriado por plataformas privadas e seu acesso é distribuído de forma profundamente desigual, disponibilizar 59 artigos de alta qualidade a qualquer pessoa com conexão à internet é um gesto político além de editorial. É coerente com a trajetória de Turra como comunicador — alguém que escolheu, ao longo de toda a sua carreira acadêmica, não se limitar à bancada do laboratório, mas ocupar também os espaços onde o debate público acontece: as revistas de divulgação, os festivais culturais, os podcasts, as histórias em quadrinhos, as galerias de arte, os portais de jornalismo socioambiental.
"Dos Mares, o Melhor" chega, portanto, carregado de mais de uma história. É o registro de uma coluna que sobreviveu ao veículo que a abrigou. É a genealogia de um movimento que transformou a forma como o oceano aparece na cultura brasileira. É o argumento — construído texto a texto ao longo de cinco anos — de que a resignação não é a única resposta disponível diante da crise ambiental marinha. E é, talvez acima de tudo, um convite para entrar no mar, feito por alguém que passou décadas aprendendo que a ciência, quando encontra a linguagem certa, não apenas explica o mundo: muda a relação das pessoas com ele.
O oceano que o livro descreve não é apenas o ecossistema sob pressão que os dados científicos documentam. É também o lugar de inspiração, de lazer, de bem-estar, de cultura, de identidade — aquilo que, nas palavras do prefaciador, "nos torna humanos". Defender esse oceano, para Turra, não é tarefa exclusiva de oceanógrafos ou ativistas. É tarefa de qualquer pessoa disposta a recusar o menor e exigir o melhor. O livro está disponível. O convite está feito.
Baixe o PDF gratuitamente AQUI.
O empresariado brasileiro ainda não aprendeu a nadar