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Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Biodiversidade: a riqueza que sustenta a vida, a economia e o futuro do Brasil - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
EDITORIAL
POR - ALEXANDER TURRA*, CONSELHEIRO E COLUNISTA DO NEO MONDO E CURADOR DESTE ESPECIAL
Não é curioso que o país mais biodiverso do mundo comemore o Dia da Biodiversidade? Essa megadiversidade está presente no nosso dia a dia como algo tão natural que sequer percebemos sua existência, beleza e importância. O dia 22 de maio nos ajuda a refletir sobre o que isso significa para as pessoas e para o país.
Mas do que estamos falando de fato? Segundo o Catálogo Taxonômico da Fauna Brasileira, atualizado em 2024 como resultado de um esforço coletivo de centenas de pesquisadores, o país possui 125.138 espécies marinhas e terrestres com registros válidos, ou seja, confirmados pela ciência. Em complemento, o levantamento capitaneado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro reconhece ainda 53.849 espécies nativas, naturalizadas e cultivadas de plantas, algas e fungos no Brasil. Se somarmos os microrganismos terrestres e marinhos, os números tornam-se ainda mais superlativos. Isso sem contar as milhares de espécies que sequer foram descobertas.
Além das espécies, a biodiversidade se traduz em aquilo que a biologia chama de níveis de organização da vida. Desde moléculas, como o DNA e as proteínas nele codificadas, até ecossistemas e biomas. Todo esse imenso sistema de componentes e processos é a base da sustentação do sistema terrestre e das atividades humanas nele realizadas. Mas maior do que esses números é o desconhecimento que ainda temos sobre essa imensa biodiversidade e o funcionamento dos sistemas naturais, incluindo a relação deles com a sociedade.
De fato, a biodiversidade proporciona benefícios diretos e indiretos às pessoas. Segundo o 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos e o Diagnóstico Brasileiro Marinho-Costeiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, ambos publicados pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos em 2019 e 2025, respectivamente, a biodiversidade é o principal ativo estratégico do país.
A biodiversidade é nossa maior aliada na promoção da segurança hídrica, alimentar, energética e climática, além de influenciar diretamente a saúde humana e a atividade econômica do país. É na biodiversidade que encontramos oportunidades para a geração de emprego e renda, a redução da pobreza e das desigualdades e o desenvolvimento econômico e social.
Diferentes atividades econômicas dependem de um ambiente saudável para serem realizadas, como o turismo. O turismo de sol e praia, que dinamiza as economias dos 279 municípios costeiros defrontantes com o mar, depende essencialmente de que os ecossistemas praiais existam e possam ser utilizados. Segundo o Panorama da Erosão Costeira no Brasil, publicado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2018, cerca de 40% das praias brasileiras estão em estágio avançado de erosão. Isso não só significa a perda de oportunidades de lazer, esporte e recreação para a sociedade, mas também revela impactos diretos na economia da praia e no grande contingente de pessoas que ela sustenta. Nos locais onde ainda há praias, a falta de balneabilidade surge como um fator adicional que ameaça a economia local e a saúde das pessoas.
A proteção dos ecossistemas naturais também alicerça a prosperidade do país. O relatório "Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação para a Economia Brasileira”, elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), indica que as 175 Unidades de Conservação Federais monitoradas geraram, em 2025, R$ 40,7 bilhões em vendas de ingressos. Isso gerou R$ 20,3 bilhões em contribuição ao Produto Interno Bruto (PIB) e R$ 9,8 bilhões em renda para as famílias, além de sustentar mais de 332,5 mil postos de trabalho em todo o país.
De forma semelhante, um dos maiores ativos econômicos brasileiros, a agricultura, depende diretamente da biodiversidade. Essa dependência está associada à previsibilidade climática e hídrica, à diversidade genética, aos processos naturais de fertilização do solo, ao controle biológico de pragas e, em especial, à polinização. Segundo o 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, 85 das 141 culturas agrícolas brasileiras dependem de polinização, a grande maioria por polinizadores animais. O Relatório de Avaliação sobre Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos da Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos estima essa contribuição em US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões, em escala mundial. Para o país, o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil reúne estimativas anuais da ordem de US$ 12 bilhões.
Somam-se a esses exemplos inúmeros outros, como o papel dos manguezais na sustentação da pesca - 70 % dos recursos pesqueiros brasileiros dependem dos manguezais em pelo menos uma fase de seus ciclos de vida -, o potencial da biotecnologia na fabricação de remédios, cosméticos e alimentos, além de não podermos esquecer que o oxigênio que nos permite viver provém de seres vivos fotossintetizantes, boa parte dos quais é unicelular e vive no oceano.
Algo tão estratégico para o país deveria ser tratado de forma proporcional e prioritária. Isso significa ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade, identificando novas espécies, compreendendo o funcionamento dos sistemas naturais para que possamos viver em harmonia com a natureza e para que ela continue nos ajudando a prosperar, compreendendo os processos de degradação e criando mecanismos para combater os fenômenos que a ameaçam, especialmente aqueles decorrentes das atividades humanas.
Para isso, é necessário um investimento relevante, estratégico e contínuo na ciência e na formação de recursos humanos, que dê condições para que as instituições e o capital científico já semeado no país floresçam e frutifiquem. Apesar de diversas dificuldades, o Brasil é igualmente superlativo nesse aspecto. Por exemplo, o Programa Ecológico de Longa Duração (PELD), coordenado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), está completando 28 anos, com 55 sítios oficiais que cobrem todos os biomas brasileiros e mobilizam cerca de 2.500 pesquisadores. Com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), mais de 1.500 bolsas de estudo já foram concedidas para formação de mestres e doutores em biodiversidade. Mas isso ainda é pouco, especialmente pela relevância que esta ciência tem para o futuro do país.
Estes são os especialistas que farão diagnósticos e prescreverão caminhos para resolvermos os problemas que a degradação da biodiversidade nos tem causado. Imaginem não sabermos como nossos sistemas naturais funcionam nem como estão. Imaginem ter de depender de especialistas de outros países para reconhecer nossa biodiversidade e resolver nossos problemas. Que custo isso teria? Imaginem isso em um contexto geopolítico conflituoso. É como o senso do IBGE. Sem informação não conseguimos planejar e gerenciar.
No especial para o Dia Internacional da Biodiversidade, o portal Neo Mondo elencou temas e personalidades importantes para aprofundar essa discussão sobre como a biodiversidade é um ativo estratégico nacional e sobre como a sociedade brasileira pode superar barreiras ideológicas infundadas para promover um movimento sinérgico com benefícios coletivos mútuos. As matérias, colunas e entrevistas foram cuidadosamente concebidas para trazer luz a essa discussão e fortalecer o papel da ciência.
Desconhecer nossa biodiversidade e não ajudá-la a nos ajudar é um erro estratégico. É como ter uma máquina do tempo que pode nos levar ao futuro, mas, sem sabermos operá-la e consertá-la, certamente não chegaremos lá. De fato, o soft power do Brasil está associado ao país do samba, do futebol (será ainda?) e do futuro. Sem a biodiversidade e a ciência que a estuda, podemos até continuar tendo samba e futebol, mas o futuro ficará cada vez mais distante...

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.
Biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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