Cultura Destaques Educação

Levando animais brasileiros às nossas crianças

Escrito por Neo Mondo | 11 de junho de 2020

Compartilhe:

Em O Tiê da Mata Atlântica é apresentada a questão dos atropelamentos de animais silvestres em rodovias

POR - CRISTINA RAPPA* , PARA FAUNA NEWS

  Uma queixa comum e pertinente de biólogos e amantes da natureza é que, até pouco tempo atrás, as crianças brasileiras tinham a Chita, ou seja, os chimpanzés, espécie de primata exótico no Brasil, como referência de macacos. Sem falar em leões, elefantes, rinocerontes, animais de continentes como África e Ásia. Minha geração – formada por pessoas acima dos cinquenta – aprendeu a gostar de animais assistindo a séries e filmes como Daktari (que criança não se encantava com o leão vesgo do protagonista?) e Tarzan. Tudo bem, cumpriam sua função de divertir, mas não tinham nada a ver com a nossa realidade e acabavam sendo nada educativos, se é que arte e literatura devam educar. Mas isso é uma outra discussão. De qualquer forma, não devem confundir e desinformar, não é? De uns anos para cá, começou um movimento para levar os animais do nosso país às nossas crianças, para que elas, os conhecendo, passassem a ter uma referência da nossa realidade e a valorizar o nosso ambiente. Escolher como personagem a onça-pintada, ao invés de leopardo ou leão; sagui e bugio no lugar de chimpanzé; antas e por aí vai. Mas ainda são poucos os casos. Sobre aves, contam-se nos dedos as obras que mostram as nossas. No cinema, a animação Rio promove para o mundo a ararinha-azul, em produção norte-americana de 2012, contendo alguns vieses e incorreções; mas, mesmo assim, bem positiva. Na literatura, há poucos livros infantis que trazem aves do Brasil e uma lista deles pode ser conferida no blog A Passarinhóloga, a bióloga Nathália Allenspach. Tudo bem: em 1948, Jorge Amado escreveu em Paris O gato malhado e a andorinha sinhá, mas o gato mal humorado é o personagem principal e a história não tem brasilidade. Pode se passar em qualquer lugar. De qualquer forma, o texto de Amado, que escreveu o livro para o filho, e as ilustrações lindas de Carybé valem muito à pena. Nossas aves como personagens Apresentar as aves brasileiras às crianças, brasileiras ou não, foi uma das minhas preocupações com os meus livros, inaugurados com o Topetinho Magnífico, lançado em 2012 pela Editora Melhoramentos. E, especialmente, na coleção Aves & Biomas, lançada em 2018 com O Soldadinho da Caatinga, que tem como herói o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), o passarinho lindo, endêmico e ameaçado da Chapada do Araripe, no sul do Ceará, lugar que tive o privilégio de conhecer em 2015. Encantada, voltei duas outras vezes: em 2018, já com a ideia do livro na cabeça, para conhecer melhor a inspiradora região, sua fauna e flora ricas; e, na última vez, em 2019, para lançar o livro para a comunidade local.
Ilustração do soldadinho-d0-araripeO soldadinho-do-araripe, protagonista de O Soldadinho da Caatinga – Ilustração: Maurício Veneza
No livro, o soldadinho viaja pelo interior do Nordeste brasileiro, conhece outros representantes da fauna local, como as aves piu-piu (Myrmorchilus strigilatus) e periquito-da-caatinga (Eupsittula cactorum), o tatu e o jegue, aborda temas regionais, como o desmatamento, a falta d´água e o abandono dos jegues pelas estradas, as pinturas rupestres (paleontologia) no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, e a cultura, com o Reisado de Caretas, festa típica da Chapada do Araripe. A ideia com essa coleção é justamente esta: por meio de uma ave emblemática – por ser linda e/ou ameaçada – de um bioma brasileiro, levar às crianças temas regionais e conhecimento sobre esses locais e suas questões. Como no Topetinho, com linguagem leve, ação, muito diálogo e humor. Nada que lembre – pelo menos, foi essa a minha intenção – alguma enfadonha aula de geografia do passado. Pelo contrário, o objetivo é distrair o leitor-mirim e fazer com que ele se interesse e se encante pelas belezas do seu país e, com isso, passe a ser seu defensor. No segundo livro dessa série, lançado em 2019, elegi como cenário a Mata Atlântica, bioma do qual restam cerca de 12% da vegetação original e onde a maior parte da população brasileira vive. O Tiê da Mata Atlântica – que tem como protagonista o lindo e bastante comum no litoral do Sudeste tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) – aborda questões que preocupam nesse bioma, como desmatamento, poluição de praias, mangues e rios, e atropelamento de fauna. Entre os personagens, outras aves da Mata Atlântica, como o tucano-de-bico-preto, o gavião-bombachinha, a saíra-de-sete-cores, mamíferos como a anta e a onça pintada, crustáceos etc. Também em O Tiê, a abordagem dos temas é feita sem panfletagem ou sisudez. Mas com ação e buscando soluções pelo bem comum. Para facilitar o trabalho com os livros nas escolas, são desenvolvidos roteiros com sugestões para os professores o usarem em aula. Para concluir, uma boa notícia: enquanto escrevia este artigo, sou informada que Nathália, a passarinhóloga, acaba de lançar seu primeiro livro infantil, O Sabiá e os Pássaros de Fogo, que tem como personagem o sabiá-poca (Turdus amaurochalinus), ave-símbolo do Brasil e bastante comum nas cidades do Sudeste. Por sinal, um dos personagens principais do meu mais recente livro infantil, A Gata Pérola, o Sabiá e o Mistério do Sumiço do Cachorro, que se passa em uma cidade grande, como São Paulo. Ao reconhecer o sabiá nas ruas e árvores do seu bairro, as crianças podem se identificar mais, não acreditar que passarinho é algo distante, privilégio de quem mora na mata, e lutar para a manutenção de praças e jardins na cidade. Além do mais, criança é sempre multiplicadora de mensagens em casa e a família toda acaba envolvida. *Cristina Rappa - Jornalista com MBA Executivo de Administração e especialização em Comunicação Corporativa Internacional. Observadora de aves e escritora de livros infantojuvenis com temática voltada à conservação da fauna. Artigo originalmente publicado no FAUNA NEWS.
Ilustração de casal de tiê-sangeu conversando em galho de árvoreCasal de tiê-sangue olhando, assustado e preocupado, a derrubada de árvores para construção de um condomínio – Ilustração: Maurício Veneza
     

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Setembro amarelo

Heloisa Schurmann apresenta série infantil sobre preservação marinha na Bienal do Livro de São Paulo

Rio Ocean Week 2026 discute poluição marinha na margem de uma baía que despeja 216 mil toneladas de plástico por ano


Artigos relacionados