COLUNISTAS Cultura Destaques Saúde
Escrito por Daniel Medeiros | 14 de setembro de 2026
Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
A questão humana é que estamos no mundo mas não somos o mundo. A Realidade é algo que nos escapa constantemente. Construímos a linguagem para designa-la; os conceitos para domá-la; os afetos para traduzir o que sentimos diante dela. E as artes, para suportá-la.
Leia também:O fim da incerteza
Leia também: Sala de aula: interesse, respeito e autoridade
Mas nem sempre esse arranjo dá certo. Inevitavelmente, algo da Realidade escapa a nossa rede de pesca. Não conseguimos colocar todos os alimentos na mesa. Algo cai no chão, algo foge pelos desvãos. E esse resto, que é a realidade inapreensível, assombra-nos diariamente.
Nossa individualidade depende da memória que temos e que compartilhamos. Somos o que dizem de nós e o que lembramos do que fizemos e fazemos. É comum, quando pedem que falemos de nós, que comecemos por: ”sou filho de, nasci em”. Duas coisas que não testemunhamos mas que confiamos no que disseram. E que são muito importantes para a imagem que fazemos de nós. Nunca começamos uma resposta a uma pergunta dessas com: "não faço ideia". Ou : "dizem que…”. Somos alguém, e é com base nessa crença que enfrentamos o mundo. Duas coisas fugidias: nós e o mundo. Por isso, às vezes, não damos conta desse jogo e pedimos para sair.
Viver é representar. Os gregos já ensinavam isso, com seus atores usando “personas”, máscaras de madeira que representavam os personagens em cena. Qual o primeiro grego que colocou a máscara e foi Antígona? Ou Medéia? Quem ele foi, o que fazia quando não estava sobre o palco? Era pai, irmão, cidadão ilibado? Não importa. Era Antígona. Era Medéia. Assim somos nós , diante dos olhos dos outros, com nossas máscaras cotidianas. Poucos conseguem ver além delas. Arrisco dizer que, bem no fundo de nós, ninguém consegue ver. Nem nós mesmos. Daí a angústia.
A angústia é o que resta do Real intraduzível por nós. Ele está lá, o tempo todo, lembrando que estamos no mundo mas não somos o mundo. Repetindo essa frase diariamente. É uma sombra, uma luz, um galho que bate na janela de madrugada, uma pedra que cai no telhado, uma madeira da casa que range inadvertidamente, um som sem tradução que nos assalta durante o sono, uma mudança de temperatura no quarto, uma presença sem sentido durante o banho. É, para usar a feliz expressão do escritor Lourenço Mutarelli, “o cheiro de ralo”.
E o que fazer com a presença imperiosa dessa realidade que não alcançamos e não somos capazes de decifrar? Como a esfinge de Tebas, deixamos que nos devore? Sim, é o que acontece a alguns. Mas não é necessário que isso aconteça. Embora não exista propriamente uma saída fácil para contornar a questão.
O Setembro Amarelo começou nos EUA, quando o jovem Mike Emme, de 17 anos, cometeu suicídio, em 1994. Mike havia restaurado um automóvel Mustang 68, pintando-o de amarelo, que ficou conhecido como "Mustang Mike". No seu velório, os amigos fizeram uma cesta com muitos cartões decorados com fitas amarelas. Dentro deles tinha a mensagem "Se você precisar, peça ajuda.". A iniciativa acabou alimentando um movimento importante para chamar a atenção para o suicídio de jovens nos EUA. No Brasil, o movimento começou em 2015. A OMS escolheu o dia 10 de setembro como o dia mundial de prevenção do suicídio. Entre jovens brasileiros de 15 a 29 anos, o suicídio foi a terceira causa de morte, depois de acidentes no trânsito e violência interpessoal. Segundo dados da Secretaria de Vigilância em Saúde divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2022, entre 2016 e 2021 houve um aumento de 49,3% nas taxas de mortalidade de adolescentes de 15 a 19 anos, chegando a 6,6 por 100 mil, e de 45% entre adolescentes de 10 a 14 anos, chegando a 1,33 por 100 mil.
São fatos da luta diária para estar aqui e estar aqui fazer sentido suficiente para querer continuar ficando.
Como disse Guimarães Rosa: "o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Para vê-lo, senti-lo, precisamos estar na lida. Não temê-lo a ponto da paralisia e do sufocamento. Ele, o Real, é o mundo. Nós estamos no mundo. De olhos bem fechados, de braços bem abertos, arrisquemo-nos.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

Cosmético natural é mesmo melhor para a pele e para o planeta?
A beleza que viaja quilômetros antes de chegar à sua pele