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Grupo L’Oréal amplia fundo climático em €20 milhões — uma fração do faturamento que ainda não chegou ao Brasil

Escrito por Neo Mondo | 11 de julho de 2026

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Grupo L'Oréal apoia trabalhadoras informais na Índia que separam fibras têxteis a céu aberto, população diretamente beneficiada pelo programa de seguro contra calor extremo do Fundo de Emergência Climática - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Cinquenta mil mulheres que vendem frutas, costuram roupas ou vendem chá nas ruas da Índia passaram a contar, desde este ano, com algo raro para trabalhadoras informais em qualquer parte do mundo: um seguro que paga em dinheiro quando o calor extremo as impede de trabalhar. A cobertura nasceu de uma parceria entre o Grupo L'Oréal, a organização HERA e a Self-Employed Women's Association, e é hoje o símbolo mais concreto de um movimento que a companhia francesa decidiu aprofundar. Nesta semana, o grupo anunciou um aporte adicional de vinte milhões de euros ao seu Fundo de Emergência Climática, com recursos programados até 2030.

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O fundo nasceu em 2023, com uma doação inicial de quinze milhões de euros apresentada durante a Climate Week de Nova York. Três anos depois, já soma mais de trinta projetos em trinta e dois países, concentrados em saúde, água potável e segurança alimentar. A ampliação anunciada agora marca o que a própria empresa descreve como uma nova etapa — não mais de testes, mas de expansão de modelos já validados em campo.

Os números que justificam essa expansão são do próprio ano passado. Em 2025, foram registrados 358 desastres naturais em todo o mundo, atingindo mais de 110 milhões de pessoas. Oitenta e cinco por cento desses eventos têm origem climática: tempestades, enchentes, secas, incêndios florestais e ondas de calor. Postos lado a lado com o faturamento do próprio grupo — 44,05 bilhões de euros em 2025 —, os vinte milhões anunciados representam menos de 0,05% do que a companhia movimenta em um único ano. É uma fração que não diminui o mérito dos projetos, mas ajuda a dimensionar o gesto dentro da escala real do negócio.

Na Amazônia peruana e equatoriana, o dinheiro do fundo sustenta, em parceria com a World Vision França, um sistema de inteligência artificial que cruza dados científicos com o saber acumulado por povos indígenas para antecipar enchentes. No Quênia, a lógica se desloca da infraestrutura física para a saúde mental: em parceria com a Slum Dwellers International, o fundo forma 1.300 jovens de assentamentos informais em Nairóbi para liderar redes comunitárias de apoio emocional — reconhecimento de que a mudança do clima também adoece psiquicamente, e que comunidades pobres raramente têm acesso a qualquer estrutura de cuidado quando isso acontece.

O Brasil ainda não integra essa lista de projetos-âncora — o que chama atenção, dado o peso que o país tem para o próprio grupo. É o quarto maior mercado de beleza do mundo e sedia, no Rio de Janeiro, o único centro de Pesquisa e Inovação da L'Oréal na América Latina, entre sete existentes globalmente. Em 2023, a operação brasileira gerou R$19,5 bilhões em vendas diretas e indiretas, segundo estudo da consultoria Asterès encomendado pela própria companhia. Isso não significa ausência de resposta a emergências climáticas em território nacional: em março deste ano, diante das chuvas que atingiram o Sudeste, o Grupo L'Oréal no Brasil doou mais de 60 mil produtos de higiene a famílias atingidas em Juiz de Fora e São João de Meriti, em parceria com a CUFA, entregando os kits em até 72 horas. "Em momentos de emergência climática, fortalecer redes de solidariedade e apoio às comunidades é fundamental", afirmou à época Helen Pedroso, diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos da operação brasileira. É um modelo de resposta ágil e territorializado — e um candidato natural a ganhar, no futuro, a mesma arquitetura e visibilidade dos projetos que hoje representam o fundo global.

"A beleza, em sua melhor expressão, representa dignidade e confiança. Mas isso perde o significado sem saúde, segurança e as condições básicas para uma vida melhor. Esse novo compromisso com nosso Fundo de Emergência Climática reflete a forma como colocamos em prática nossa missão de criar a beleza que move o mundo", afirma Nicolas Hieronimus, principal executivo do Grupo L'Oréal.

Para Ezgi Barcenas, diretora global de responsabilidade corporativa do grupo, a mudança do clima produz efeitos profundos sobre o meio ambiente, a saúde das pessoas, seus meios de subsistência e sua sensação de segurança — por isso fortalecer a resiliência das comunidades se tornou parte estrutural da estratégia. "Estamos ampliando nossa capacidade de apoiar comunidades na preparação e na recuperação diante de crises climáticas, promovendo melhores condições de acesso à saúde, à água potável e à segurança alimentar", afirma a executiva. Em um painel do FT Climate and Impact Summit, em Londres, Barcenas detalhou como esse capital se divide: cerca de 70% do novo aporte será direcionado a medidas preventivas, e os 30% restantes alimentarão respostas emergenciais quando o desastre já estiver em curso.

O Fundo de Emergência Climática integra um conjunto maior de instrumentos financeiros do grupo — o Fundo para Mulheres, o Fundo para Regeneração da Natureza, o Circular Innovation Fund, o fundo de dívida Solstice e a aceleradora L'AcceleratOR — que juntos somam 415 milhões de euros comprometidos dentro do programa L'Oréal for the Future. É um ecossistema que trata filantropia, investimento de impacto e financiamento de dívida como partes de uma única engrenagem, e não como gavetas separadas de relações públicas.

Se o modelo indiano do seguro contra calor e o sistema amazônico de alerta de enchentes nasceram de três anos de testes até ganhar escala global, a resposta brasileira à crise das chuvas no Sudeste sugere que o país já tem, em campo, os elementos de um projeto equivalente — talvez seja só uma questão de tempo até essa experiência entrar no mapa internacional do fundo.

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