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Escrito por Neo Mondo | 20 de maio de 2026
Abelhas como esta sustentam cadeias alimentares inteiras — e nunca aparecem no balanço de nenhuma empresa - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Nos Estados Unidos, apicultores que preparavam colmeias para a polinização das amêndoas no início de 2025 começaram a encontrar caixas vazias. Não era uma perda pontual. Entre abril de 2024 e abril de 2025, 55,6% das colônias de abelhas manejadas foram perdidas no país — a taxa mais alta desde que o levantamento anual começou a ser conduzido, em 2010. Dados analisados por grupos do setor confirmaram 1,6 milhão de colônias destruídas, com apicultores comerciais registrando perdas médias de 62% entre junho de 2024 e março de 2025. Danielle Downey, diretora-executiva do Project Apis m., foi direta: "Isso é sem precedentes. Perdas definitivamente maiores do que qualquer coisa que já vimos, incluindo o período do colapso de colônias."
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O que acontece nos apiários americanos não é uma anomalia geográfica. É um sinal de uma arquitetura produtiva que o mundo construiu sobre um serviço ecossistêmico que nunca pagou, nunca contabilizou direito e segue destruindo com eficiência.
No Brasil, a conversa é mais antiga do que parece. Em 2019, a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP) publicaram o primeiro Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil — o documento que este portal leu com atenção e que permanece, sete anos depois, como a referência mais completa disponível sobre o tema no país. O serviço ecossistêmico prestado por abelhas, moscas, morcegos e outros polinizadores à agricultura brasileira foi estimado em R$ 43 bilhões em 2018. Desse montante, 80% se concentra em quatro cultivos de grande importância agrícola: soja, café, laranja e maçã. São a espinha dorsal do agronegócio nacional. E elas dependem de um trabalhador que não recebe salário, não está no balanço das empresas e não aparece em nenhum plano de continuidade de negócios.
O relatório da BPBES-REBIPP é um documento denso. Das 289 plantas cultivadas ou silvestres ligadas à produção de alimentos no Brasil, existe conhecimento sobre a polinização de 191 delas. Dessas, as abelhas participam da polinização de 91 cultivos — 80% de todas as culturas que dependem de polinizadores animais. Não se trata apenas de mel. Maracujá, castanha-do-brasil, acerola, caju, maçã e tangerina têm dependência classificada como essencial: sem polinizadores, a produção cai entre 90% e 100%. A abóbora, o cupuaçu, a melancia e o melão entram na mesma categoria. A soja, o café e a laranja, culturas com maior participação no PIB agrícola, têm dependência modesta — mas mesmo um incremento de 20% a 30% na produção, garantido pela presença das abelhas, representa dezenas de bilhões de reais no acumulado.
A castanha-do-brasil é o caso mais radical. Ela depende exclusivamente de abelhas de grande porte — principalmente espécies dos gêneros Eulaema e Centris — para a formação de frutos. Sem essas abelhas, a Bertholletia excelsa não produz. A floresta Amazônica que abriga a castanha sobrevive em parte porque as abelhas que a polinizam sobrevivem. Tira-se a abelha, compromete-se a árvore; compromete-se a árvore, fragiliza-se a floresta.
O problema é que essa cadeia se parte em vários pontos simultaneamente.
A redução acelerada das populações de polinizadores no Brasil já compromete a regeneração de florestas, a reprodução de plantas e o equilíbrio dos ecossistemas. O país acumula conhecimento científico sobre o tema, mas falha em transformá-lo em políticas públicas eficazes, segundo estudo publicado na revista Neotropical Entomology em abril de 2026. A pesquisadora Juliana Hipólito, do Instituto Nacional do Meio Ambiente (INMA) e primeira autora do estudo, é direta: "O Brasil depende dos serviços ecossistêmicos prestados pelos polinizadores, mas figura entre os maiores consumidores globais de pesticidas."
O paradoxo é estrutural. O país que mais precisa das abelhas para garantir sua produção agrícola é o mesmo que mais as envenena. Cerca de 6.300 toneladas de agrotóxicos que comprovadamente matam abelhas foram enviados pela Europa ao Brasil em apenas um ano — substâncias banidas ou fortemente restringidas no continente de origem por seus efeitos letais sobre polinizadores. Neonicotinoides como tiametoxam, clotianidina e imidacloprido afetam o sistema nervoso central das abelhas, desorientando-as a ponto de não conseguirem retornar às colmeias. O tiametoxam passou por reavaliação ambiental no Ibama e teve sua aplicação por trator ou avião agrícola proibida em 2024 — uma restrição importante, mas parcial, que não elimina o produto do mercado.
A situação se agrava quando se considera que as espécies-modelo usadas nos testes de toxicidade oficiais do Brasil são, quase sempre, a Apis mellifera africanizada. As abelhas nativas sem ferrão, porém, podem ser mais sensíveis a agrotóxicos do que as espécies usadas como referência nos testes oficiais, e mesmo doses baixas já comprometem sua sobrevivência. O Brasil tem mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão descritas, com papéis ecológicos que vão muito além dos cultivos comerciais. Elas polinizam espécies nativas que não figuram em nenhuma lista de commodities, mas que sustentam ecossistemas inteiros e a alimentação de populações tradicionais.
O relatório da BPBES-REBIPP documenta um número que precisa ser lido com atenção: em 90% dos municípios brasileiros, as projeções climáticas para 2100 indicam declínio de polinizadores agrícolas, segundo modelagem conduzida por Giannini e colaboradores, publicada na PLOS ONE em 2017. As mudanças climáticas não são um fator independente — elas se somam à perda de habitat, ao uso de agrotóxicos, às espécies invasoras e à fragmentação da paisagem. Municípios das regiões Centro e Sul do Brasil têm maior probabilidade de sofrer esse declínio, enquanto porções do Noroeste da Amazônia poderão registrar incremento temporário — um alívio que não deve obscurecer a tendência geral.
Há também a questão do que o relatório chama de "impedimento taxonômico": a insuficiência de informações taxonômicas sobre a biodiversidade de polinizadores no Brasil. Muitas das 609 espécies identificadas como visitantes florais de cultivos ainda não têm identificação em nível de espécie. Não se protege o que não se conhece, e não se conhece o que não se nomeia.
O dia 20 de maio de 2026 — Dia Mundial das Abelhas, celebrado pela ONU desde 2018 em homenagem ao apicultor esloveno Anton Janša, nascido nessa data em 1734 — chega em um momento em que a FAO adotou o tema "Bee Together for People and the Planet" como chamado à cooperação. A formulação é precisa. Mas cooperação, no caso das abelhas, tem um preço regulatório concreto: significa proibir o que se sabe que mata, exigir protocolos de teste específicos para abelhas nativas, criar corredores de habitat e incorporar o serviço de polinização nos instrumentos econômicos que hoje não o reconhecem.
O Brasil abriga uma das maiores biodiversidades de polinizadores do planeta. Tem ciência de ponta sobre o tema — o relatório BPBES-REBIPP foi o primeiro no mundo a cumprir a recomendação da plataforma intergovernamental IPBES nessa área. Tem apicultores, meliponicultores, pesquisadores e comunidades indígenas com conhecimento acumulado de séculos sobre esses insetos. O que falta não é conhecimento. É a decisão política de tratar o declínio das abelhas como o risco sistêmico que ele é — não como pauta ambiental, mas como ameaça direta à segurança alimentar, à estabilidade dos ecossistemas e à viabilidade econômica de cadeias produtivas inteiras.
Nos apiários americanos esvaziados no inverno de 2025, havia amêndoas que não seriam colhidas, frutas que não seriam formadas, agricultores que não teriam como honrar contratos. O vazio das colmeias se transfere, com precisão, para as prateleiras, os balanços e os estômagos. O Brasil ainda tem abelhas em quantidade suficiente para adiar essa conta. Mas adiar não é o mesmo que evitar.
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