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Escrito por Neo Mondo | 20 de agosto de 2026
Protocolo de calamidades ganha inteligência preditiva para antecipar os extremos de um El Niño que ameaça levar enchentes, secas e queimadas a novos patamares no Brasil. - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
A Natura acionou seu Protocolo de Calamidades mais de trinta vezes desde 2020. Agora tenta acioná-lo antes. A companhia incorporou à sua gestão de riscos o Radar de Riscos Sócio-climáticos, ferramenta construída com a startup brasileira MeteoIA que usa inteligência artificial para estimar como eventos climáticos podem atingir operações, territórios e pessoas. A mudança de método chega no pior momento possível, ou no mais oportuno, dependendo de quem faz a leitura.
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Em 13 de agosto, o Centro de Previsão Climática da NOAA manteve o alerta de El Niño e foi além do vocabulário habitual dos boletins. As anomalias de temperatura da superfície do mar já superam 2 °C no Pacífico equatorial leste, o índice Niño-3.4 fechou julho em +1,4 °C, o Niño-1+2 em +2,9 °C, e as anomalias subsuperficiais chegaram a +10 °C em profundidade. Para o trimestre de outubro a dezembro, o órgão americano estima 69% de chance de um evento histórico, com valor RONI trimestral igual ou superior a +2,5 °C, algo que superaria todos os El Niños registrados desde 1950. A probabilidade de um evento muito forte no segundo semestre passa de 90%.
No Brasil, o Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em 31 de julho pelo INMET em conjunto com INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e Censipam, projeta a manutenção e a intensificação do fenômeno ao longo do segundo semestre, com alta probabilidade de intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão. O documento aponta 100% de probabilidade de o El Niño seguir ativo até o início de 2027 e desenha efeitos opostos dentro do mesmo país: chuva e risco de enchente no Sul, seca prolongada no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, com situação crítica na Bacia do Paraguai e atraso da estação chuvosa na Amazônia Legal.
Essa geografia dupla explica por que a antecipação virou questão operacional para a Natura. A empresa tem 2 milhões de consultoras de beleza no Brasil, distribuídas justamente pelos dois polos do fenômeno, e compra insumos de comunidades agroextrativistas na Amazônia, onde a seca chega primeiro. O mesmo El Niño alaga o estoque guardado na sala de uma consultora gaúcha e reduz a safra de um bioativo no Pará.
Não é hipótese. Em 2024, a companhia acionou o protocolo duas vezes no mesmo ano. Primeiro em maio, durante as enchentes do Rio Grande do Sul, que mataram 181 pessoas e cujas perdas e danos foram avaliados em R$ 88,9 bilhões por Banco Interamericano de Desenvolvimento, Cepal e Banco Mundial. A Natura contabilizava então cerca de 80 mil pessoas no estado, entre consultoras, líderes e funcionários diretos e indiretos. Depois em outubro, com as queimadas no Norte: R$ 10 milhões mobilizados, prorrogação de prazo de mais de 18 mil boletos de cerca de 11 mil consultoras nos estados que decretaram emergência, entre eles Acre, Amazonas e Rondônia, num total de R$ 7,74 milhões.
Do lado do fornecimento, a companhia opera a Natura-GIS, plataforma de informação geográfica que rastreia cada ativo da sociobiodiversidade e acompanha safras. O que está sob esse mapa é um arranjo de escala considerável. São 46 bioingredientes amazônicos, 94 cadeias de fornecimento e mais de 10,5 mil famílias envolvidas, em um modelo que ajuda a conservar 2,2 milhões de hectares de floresta.
Há um dado científico que complica qualquer estratégia baseada apenas em prever o Pacífico. Em janeiro de 2024, o World Weather Attribution analisou a seca excepcional que secou os rios amazônicos no ano anterior e chegou a uma conclusão contraintuitiva. A mudança climática tornou aquela seca 30 vezes mais provável, e o El Niño teve papel bem menor do que se supunha. Sem o aquecimento global, a seca teria sido classificada como severa; a elevação das temperaturas a empurrou duas categorias acima, até a categoria excepcional, a pior já registrada. O gatilho oceânico continua relevante, mas a linha de base sobre a qual ele age se deslocou.
É nessa lacuna que a inteligência artificial preditiva entra. A MeteoIA desenvolveu o sistema MIA a partir de um núcleo de IA refinado ao longo de oito anos, integrando satélites, sensores, modelos atmosféricos e séries históricas para gerar previsões localizadas. Gabriel Perez, cofundador da empresa, resume a lógica do produto: "A IA consegue dizer qual é a probabilidade de um evento acontecer", e como essa distribuição se altera mês a mês.
A frente social segue outra linha. A Natura estimula suas consultoras a contratarem proteções oferecidas pela plataforma financeira Emana Pay. O Seguro Estoque+Casa, lançado em setembro de 2025 em parceria com a Kovr Seguradora, custa R$ 13,90 por mês e cobre incêndio, inundação, alagamento, danos elétricos, roubo e furto, além do estoque de cosméticos mantido em casa. Outro produto da mesma plataforma, o Saúde Protegida, oferece telemedicina, exames com condições diferenciadas e desconto em medicamentos. Para as comunidades fornecedoras, a companhia mapeia doações financeiras preventivas, destinadas à compra antecipada de mantimentos e água potável em regiões sujeitas a seca severa.
A terceira frente é institucional. Em abril, a Natura anunciou parceria com a Defesa Civil de São Paulo para estruturar Núcleos de Proteção e Defesa Civil liderados por consultoras, capacitadas como agentes voluntárias nos próprios bairros. Os NUPDECs têm amparo na Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, instituída pela Lei nº 12.608/2012. Com o Corpo de Bombeiros, a empresa forma brigadistas voluntários em comunidades agroextrativistas do Norte. O modelo já havia sido testado sem planejamento prévio: em 2024, consultoras atuaram como voluntárias ao lado da Defesa Civil em 489 cidades gaúchas.

Ana Costa, vice-presidente de Sustentabilidade, Jurídico e Reputação Corporativa da Natura, delimita o alcance da aposta. "Embora a inteligência preditiva e as parcerias estratégicas fortaleçam nossa preparação, a natureza sem precedentes das mudanças climáticas impõe incertezas que ultrapassam a capacidade de previsão absoluta", afirma. A executiva convida empresas, governos e sociedade civil a construírem modelos conjuntos de regeneração social e climática.
A próxima discussão diagnóstica do Centro de Previsão Climática da NOAA está marcada para 10 de setembro.
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