Biodiversidade Cultura Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação Turismo
Escrito por Neo Mondo | 13 de março de 2026
Biodiversidade em detalhe: perereca arborícola revela a riqueza e a delicadeza dos ecossistemas tropicais - Foto: Divulgação
POR - REDAÇÃO NEO MONDO*
Entrevista exclusiva com Clóvis Borges, diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental)
Celebrado em 13 de março, o Dia do Conservacionismo convida a sociedade à reflexão sobre o papel da natureza no futuro da economia e das sociedades.
Leia também: Grande Reserva Mata Atlântica acumula reconhecimentos nacionais e internacionais em 2025
Leia também: SPVS: guardiã da biodiversidade e da Mata Atlântica
Instituída em homenagem ao engenheiro florestal norte-americano Gifford Pinchot, considerado um dos formuladores do conservacionismo moderno, a data também remete às origens do movimento impulsionado por figuras como o naturalista John Muir, conhecido como o “Pai dos Parques Nacionais”. Mais de um século depois, a conservação da biodiversidade deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ocupar lugar central nas discussões sobre economia, clima e desenvolvimento territorial.
Nesta entrevista, o diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), Clóvis Borges, analisa avanços, desafios e oportunidades dessa agenda no Brasil.
Como o conceito de conservacionismo evoluiu nas últimas décadas no Brasil e qual foi o papel de instituições como a SPVS nesse processo?
A conservação da biodiversidade deixou de ser vista apenas como uma agenda voltada à proteção de ambientes naturais ou espécies e passou a ser reconhecida como um fator crítico para garantir qualidade de vida e condições para a continuidade das atividades econômicas. Ainda existem resistências para incorporar essa agenda na escala necessária, mas instituições como a SPVS têm contribuído com iniciativas inovadoras e demonstrativas que ajudam a ampliar o entendimento sobre a urgência dessa pauta.
Durante muito tempo, a conservação foi tratada como algo que competia com o desenvolvimento econômico. Por que esse paradigma começa a mudar?
Essa dicotomia ainda está presente em muitas práticas econômicas e políticas públicas, influenciadas por modelos de desenvolvimento convencionais. No entanto, cresce a percepção de que não existe economia mais sustentável nem melhoria da qualidade de vida sem o enfrentamento de questões como mudanças climáticas e perda da biodiversidade. Os prejuízos econômicos e sociais provocados por eventos climáticos extremos têm contribuído para ampliar essa compreensão.
Quais você considera algumas das contribuições mais relevantes da SPVS para a conservação da Mata Atlântica?
Ao longo desse período, a SPVS acumulou aprendizado e consolidou parcerias que permitiram avançar em estratégias voltadas à conservação da natureza. A instituição atua especialmente na gestão qualificada de áreas naturais, na proteção de espécies ameaçadas e em iniciativas de gestão territorial que integrem a conservação como pressuposto de desenvolvimento.
Entre as contribuições importantes está a criação de mecanismos capazes de demonstrar o retorno econômico das ações de conservação e dos serviços ecossistêmicos.
O que iniciativas como a Grande Reserva Mata Atlântica trazem de inovação para o conservacionismo?
A proposta demonstra que a conservação pode ser organizada em escala territorial e integrada a estratégias de desenvolvimento regional. Conceitos como produção de natureza e economia restaurativa permitem fortalecer atividades econômicas compatíveis com áreas naturais bem conservadas, especialmente o turismo de natureza.
Na prática, como iniciativas desse tipo conseguem conciliar conservação da natureza com geração de oportunidades econômicas?
Grandes áreas naturais bem conservadas, com biodiversidade, cultura local e bons serviços, criam as bases para atividades econômicas promissoras, como o turismo de natureza. Esse tipo de atividade depende diretamente da conservação da paisagem e da biodiversidade, estimulando a formação de redes de atores interessados na manutenção dessas áreas.
Por que o caso de Antonina costuma ser citado como exemplo de como a conservação pode gerar benefícios econômicos?
Antonina é um caso emblemático. Duas Reservas Naturais mantidas pela SPVS – a Reserva Natural Guaricica e a Reserva Natural das Águas – garantem a água que abastece mais de 20 mil pessoas na cidade e geram cerca de R$ 7 milhões por ano em ICMS Ecológico. As reservas também mantêm empregos diretos e fortalecem o turismo na região.
Quais são hoje os principais desafios para ampliar a agenda da conservação no país?
Um dos principais obstáculos ainda é a negação de uma realidade evidente: áreas naturais são fundamentais para garantir resiliência frente a eventos climáticos extremos e para fornecer serviços ecossistêmicos essenciais para a sociedade e para os negócios.
Que oportunidades surgem com instrumentos como créditos de biodiversidade?
Existe um grande potencial na monetização dos serviços ecossistêmicos produzidos pelas áreas naturais. A SPVS recebeu certificação para geração de créditos de biodiversidade e a primeira aquisição desse tipo de crédito no Brasil foi realizada pelo Complexo Pequeno Príncipe, em Curitiba, em junho de 2025.
Qual pode ser o papel do Brasil no cenário internacional se a agenda da conservação ganhar mais centralidade?
O Brasil possui enorme relevância global tanto na proteção da biodiversidade quanto na mitigação das mudanças climáticas. O desafio está em transformar experiências demonstrativas em soluções implementadas em escala.
Qual será o papel da SPVS nos próximos anos nesse cenário?
A SPVS continuará buscando soluções capazes de gerar mudanças de cenário em escala, sempre em articulação com parceiros de diferentes setores da sociedade.

*Entrevista conduzida e editada pela jornalista Claudia Guadagnin, assessora de imprensa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e da Grande Reserva Mata Atlântica.
Cerrado: áreas úmidas armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia
Xingu, onde a vida encontra caminho