Amazônia Destaques Emergência Climática ENERGIA Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 27 de fevereiro de 2026
Terras raras no centro do tabuleiro: quem controla o processamento define o poder na nova geopolítica da transição energética - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
O país tem 23% das reservas mundiais de terras raras e 94% do niobio do planeta. Produz menos de 1% do que poderia. E enquanto EUA e China disputam esse tesouro no silencio dos contratos, o Brasil ainda nao decidiu o que quer ser nessa corrida
Há três semanas, Washington reuniu 54 países e 43 ministros para discutir minerais críticos. O secretário de Estado Marco Rubio estava lá. O vice-presidente JD Vance também. O secretário do Tesouro, o secretário de Energia, o representante de Comércio. Uma delegação de peso que os Estados Unidos raramente mobilizam para reuniões de commodities. Não é uma reunião de commodities. É uma reunião de poder. E o Brasil estava na sala.
Leia também: Minerais críticos redesenham o mapa de poder da transição energética
Leia também: Transição Elétrica ou Novo Colonialismo Verde?
O que está em jogo nessa corrida não é apenas insumo industrial ou matéria-prima estratégica. Lítio, nióbio, grafita, cobalto, níquel e terras raras são a base física da transição energética e da revolução digital ao mesmo tempo. Estão nos motores de veículos elétricos, nas turbinas eólicas, nos chips de semicondutores, nos sistemas de defesa de precisão, nas baterias que armazenam energia. O petróleo movia motores e exércitos. Os minerais críticos movem sistemas inteiros de produção, comunicação e defesa. E diferente do petróleo, cujo controle se dava pela posse dos campos, aqui o poder se concentra no processamento — na química, no refino, na transformação de minério bruto em componente de alta tecnologia.
A China entendeu isso antes de todo mundo. Ao longo de décadas, construiu dominância não apenas na extração, mas em todas as etapas seguintes. Hoje controla cerca de 80% da produção e do processamento mundial de terras raras. Em abril de 2025, o Ministério do Comércio chinês anunciou controles de exportação imediatos sobre sete elementos críticos — samário, gadolínio, térbio, disprosio, lutécio, escândio e ítrio. Não foram restrições anunciadas com meses de antecedência. Foram decisões imediatas, sem aviso prévio, que interromperam cadeias de suprimento globais da noite para o dia. Foi um recado. E o mundo ouviu.
Os Estados Unidos ouviram com urgência. Desde o primeiro governo Trump, em 2018, minerais críticos entraram explicitamente na agenda de segurança nacional americana. Mas o que se vê agora é qualitativamente diferente. Não são apenas tarifas ou restrições pontuais. São participações acionárias diretas em empresas do setor, reservas estratégicas nacionais de minerais, acordos bilaterais com dezenas de países simultaneamente e financiamento público de projetos de extração em territórios aliados. O Eximbank americano destinou US$ 565 milhões especificamente para a Serra Verde, em Goiás — a única mina de terras raras em produção comercial fora da Ásia. Em troca, garantiu direito de participação acionária na empresa. Não é investimento. É posicionamento estratégico.
O Brasil tem 23% das reservas mundiais de terras raras — a segunda maior do mundo, atrás apenas da China. Tem 94% do nióbio do planeta. Tem 8% do lítio global. Tem a segunda maior reserva de grafita. E produz menos de 1% do que poderia em terras raras — cerca de 20 toneladas em 2024, num mercado que movimenta bilhões. Uma tonelada de espodumênio — lítio bruto — sai do Brasil por cerca de US$ 800. A mesma tonelada, transformada em hidróxido de lítio grau bateria, vale US$ 8.000. O Brasil exporta o minério. Outro país faz a química. Outro país fabrica a bateria. Outro país coloca no carro elétrico. E captura dez vezes mais valor em cada etapa que o Brasil não realiza.
Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia anunciou o início da formulação de uma Estratégia Nacional de Terras Raras. Foi recebida com otimismo pelos setores que acompanham o tema. Mas há uma frieza necessária nessa leitura: o Brasil está anunciando sua estratégia no momento em que os outros jogadores já estão no quinto turno da partida. A China dominou o tabuleiro. Os EUA estão comprando assentos. A União Europeia aprovou seu regulamento de matérias-primas críticas em 2024 e está construindo acordos de diversificação em ritmo acelerado. O Brasil, com algumas das maiores reservas do mundo, acaba de começar a escrever a regra do jogo que os outros já jogam há anos.
O que agrava esse atraso não é só o tempo perdido — é o território que vem junto. Grande parte das jazidas brasileiras de minerais críticos está em áreas de floresta, em terras indígenas, em regiões do Cerrado e da Amazônia que já estão sob pressão de outros vetores de ocupação. O Instituto Brasileiro de Mineração estima R$ 100 bilhões em investimentos no setor entre 2025 e 2029. São projetos que quadruplicarão a produção em Minas Gerais, que avançam no Vale do Jequitinhonha, que mapeiam o subsolo de Goiás e do Pará. Mas mineração em áreas sensíveis, sem política pública estruturada, sem capacidade de refino e sem poder de barganha na negociação com investidores externos, não é soberania. É repetição. O mesmo ciclo do século XIX — a matéria-prima sai, o valor agregado fica fora, o dano ambiental fica aqui.
Há uma ironia geográfica nessa história. Os rios voadores que irrigam o Sudeste partem da Amazônia. O lítio que alimenta a transição energética global está no subsolo do mesmo bioma. O nióbio que entra em ligas de alta resistência para a indústria aeroespacial sai de Araxá, em Minas Gerais — uma única mina que responde pela maior parte da produção mundial. O Brasil é um país de concentrações extraordinárias. E historicamente não sabe o que fazer com elas além de exportá-las na forma mais bruta possível.
O paralelo histórico que incomoda já foi feito: nas décadas de 1950 e 1960, os Estados Unidos importaram quantidades expressivas de areia monazítica brasileira, rica em tório, no contexto da corrida armamentista da Guerra Fria. O debate interno da época era entre nacionalistas e os chamados entregistas. O Brasil acabou cedendo. A discussão hoje é estruturalmente a mesma — mas com lítio e terras raras no lugar do tório, e com a China e os Estados Unidos no lugar das duas superpotências da Guerra Fria. A diferença é que o mundo está mais rápido, as cadeias são mais complexas e o Brasil tem menos tempo para decidir de que lado quer jogar — ou se quer jogar de forma autônoma.
Jogar de forma autônoma significa construir capacidade de processamento. Significa ter plantas de refino. Significa negociar com participação acionária própria, não apenas como território de extração. Significa que, quando os EUA investem US$ 565 milhões na Serra Verde, o Brasil precisa saber exatamente o que está dando em troca — e se o que está recebendo compensa o que está cedendo. Significa que a Estratégia Nacional de Terras Raras não pode ser um documento de intenções. Precisa ser política industrial com dentes, com prazos, com contrapartidas ambientais claras e com capacidade de dizer não quando a proposta não serve aos interesses do país.

O século XX foi do petróleo. O XXI é dos minerais críticos. Essa frase já virou lugar-comum nos relatórios de geopolítica, nas apresentações de bancos de investimento, nos discursos de ministros de energia. O que raramente acompanha essa frase é a pergunta consequente: o Brasil — que tem mais minerais críticos do que quase qualquer outro país do mundo — vai ser protagonista ou fornecedor? Vai agregar valor ou exportar minério bruto? Vai negociar como potência ou repetir o papel histórico de território estratégico que não controla sua própria estratégia? A resposta ainda não existe. Mas o tempo para construí-la diminui a cada acordo assinado em Washington, em Bruxelas e em Pequim.
Data centers: a nova ameaça climática que a Big Tech não quer calcular
As infraestruturas invisíveis da IA: como resfriar data centers sem comprometer o planeta
Conflito no Irã testa a blindagem energética do Brasil