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Guerra sem fronteiras: o preço que os EUA não calcularam

Escrito por Neo Mondo | 1 de abril de 2026

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Guerra que não aparece nos mapas, mas incendeia preços, corrói renda e redesenha o cotidiano das economias no mundo inteiro - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Cerca de 25 a 30% do petróleo comercializado no mundo passa pelo Estreito de Ormuz. Mais de 20% do gás natural liquefeito global segue o mesmo corredor. Com o bloqueio de facto desse gargalo marítimo pela guerra em curso no Oriente Médio, a Agência Internacional de Energia registrou a maior perturbação do mercado global de petróleo em toda a história do setor. O FMI descreveu o efeito para os países importadores de combustível com uma precisão brutal: é como um imposto de renda súbito e maciço cobrado de toda a população ao mesmo tempo.

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O relatório publicado em 30 de março de 2026 por economistas-chefes do Fundo — Pierre-Olivier Gourinchas, Tobias Adrian, Jihad Azour e outros cinco diretores regionais — não é um exercício de modelagem hipotética. É um diagnóstico em tempo real de uma economia mundial que mal havia dado sinais de recuperação consistente depois de anos de choques encadeados: pandemia, crise de custo de vida, guerra na Ucrânia, tarifas comerciais sem precedente desde o século passado. A guerra no Oriente Médio chegou antes que os amortecedores fossem recarregados.

O documento não poupa Washington de uma leitura desconfortável. Os Estados Unidos estiveram, ao longo dos últimos dois anos, no centro de duas das principais fontes de instabilidade global: a política tarifária — que o WEO de abril de 2025, intitulado A Critical Juncture amid Policy Shifts, já havia apontado como responsável pela revisão do crescimento mundial de 3,3% para 2,8% naquele ano — e a postura geopolítica no Oriente Médio. O Fundo não nomeia responsabilidades políticas, mas os números se encarregam disso. A projeção de crescimento dos EUA para 2025 foi revisada para 1,8% — queda de 0,9 ponto percentual em relação a janeiro daquele ano. É um número que não precisa de adjetivos.

O que o relatório de março de 2026 acrescenta é a arquitetura sistêmica do contágio. Os canais de transmissão são três: energia, cadeias de suprimento e condições financeiras. E cada um deles tem uma geometria própria de dano. Na energia, a assimetria é imediata: países exportadores de petróleo no Oriente Médio, em partes da África e na América Latina que ainda conseguem escoar produção terão posições fiscais fortalecidas — os demais, não. Os membros do Conselho de Cooperação do Golfo com exportações interrompidas ou restringidas pelo próprio conflito ficam de fora desse ganho. Para a Ásia e a Europa, a conta chega sob a forma de custos de produção mais altos, pressão sobre moedas e, no caso europeu, o fantasma revivido da crise de gás de 2021 e 2022, com Itália e Reino Unido particularmente expostos pela dependência de geração termelétrica a gás.

Nas cadeias de suprimento, o relatório identifica um vetor que vai além do óbvio. Cerca de um terço do fertilizante comercializado globalmente passa pelo Estreito de Ormuz. A interrupção desse fluxo coincide exatamente com o início da temporada de plantio no Hemisfério Norte. A consequência não é abstrata: colheitas comprometidas ao longo de todo o ano, preços de alimentos em alta e, nos países de baixa renda onde a alimentação representa em média 36% do consumo familiar — contra 20% nas economias emergentes e 9% nas avançadas —, uma pressão que o Fundo não hesita em qualificar como ao mesmo tempo econômica e sociopolítica. A fome organiza revoltas com uma eficiência que nenhum manual de estabilização fiscal consegue antecipar.

Há ainda o hélio — do qual o Golfo fornece parcela expressiva da oferta mundial —, usado em semicondutores e equipamentos de imagem médica. E o níquel indonésio, que responde por cerca de metade da produção global desse metal essencial para baterias de veículos elétricos, depende de enxofre processado na região para ser refinado. O relatório rastreia essas dependências com a frieza de quem mapeia vulnerabilidades antes que elas virem manchetes. A lição é que a globalização não é apenas um fluxo de mercadorias: é uma teia de insumos que ninguém vê até que ela se rompe.

A inflação completa o circuito. Para países que haviam recém-convergido para metas depois de anos de aperto monetário, um novo choque de oferta energético e alimentar ameaça desancorar expectativas. O FMI alerta para o risco de que trabalhadores e empresas, convencidos de que os preços permanecerão altos por mais tempo, incorporem esse julgamento em salários e preços — tornando a contenção do choque incompatível com qualquer ritmo razoável de crescimento. A América Latina e partes da Ásia, onde a inflação havia cedido mais recentemente, são citadas como regiões de atenção particular, dada a exposição a moedas mais fracas e a grande dependência de importações de energia.

O que o documento do FMI revela, sem o dizer diretamente, é que o mundo não pode mais tratar guerras regionais como contidas. O Oriente Médio não é uma zona periférica do sistema econômico global: é uma das suas articulações mais críticas. Petróleo, gás, fertilizantes, hélio, rotas marítimas, hubs de aviação — a região opera como infraestrutura oculta de uma economia que prefere não reconhecer essa dependência. Quando essa infraestrutura falha, o choque não escolhe continente.

Para os Estados Unidos, a aritmética é ainda mais severa porque é dupla. Como potência que contribuiu para as condições do conflito e como economia já enfraquecida por sua própria política comercial, Washington colhe uma instabilidade que seus indicadores domésticos demorarão a registrar, mas que os mercados emergentes — muito mais sensíveis a variações nos preços de commodities e no custo do crédito internacional — já estão absorvendo. O FMI projeta que economias emergentes e em desenvolvimento enfrentarão desaceleração expressiva à medida que as tarifas e a incerteza se firmem. Para o Brasil, a revisão chegou a 2,0% de crescimento em 2025 e 2026 — uma queda de 0,2 ponto percentual em relação a janeiro daquele ano, antes mesmo de o conflito no Oriente Médio atingir a dimensão atual.

Há algo de profundamente revelador na arquitetura deste relatório do FMI. Ele foi assinado, ao mesmo tempo, pelos diretores dos departamentos de estabilidade financeira, Oriente Médio, Europa, Ásia e Américas — uma colegiatura que o Fundo raramente mobiliza para um único documento. É o equivalente institucional de uma sirene acionada em voz baixa: uma advertência que não quer soar alarmista, mas que não consegue esconder a gravidade do que está sendo calculado. Toda a matemática converge para o mesmo lugar. Preços mais altos, crescimento mais lento, inflação mais difícil de domar e países mais pobres pagando a conta de decisões tomadas longe deles. Não é um modelo. É o presente.

Fontes

Fundo Monetário Internacional. How the War in the Middle East Is Affecting Energy, Trade, and Finance. IMF Blog, março de 2026. Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook: A Critical Juncture amid Policy Shifts. Washington, DC, abril de 2025. Agência Internacional de Energia. Oil Market Report, março de 2026. Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook Update, janeiro de 2025.

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