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A bandeira que sumiu — e o oceano que voltou

Escrito por Neo Mondo | 31 de março de 2026

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Bandeira da aliança SOS Oceano, coalizão que reúne 16 organizações brasileiras e internacionais dedicadas à ampliação das Áreas Marinhas Protegidas no Brasil - Foto: Divulgação / SOS Oceano

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

No dia 23 de outubro de 2025, uma bandeira de dez metros foi hasteada entre o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio. Ela era reconhecível pela forma — losango, círculo, estrelas —, mas irreconhecível pelas cores. O azul havia sumido. O verde, também. No espaço onde deveria estar escrito "Ordem e Progresso", lia-se apenas: Sem azul não há verde. A bandeira desbotada não era um protesto. Era uma prova: a agência Droga5, contratada pela coalizão SOS Oceano para lançar a campanha "Bandeira sem Vida", havia encontrado na teoria das cores um argumento científico disfarçado de estética. O azul é uma cor primária. O verde, não. Sem o azul dos oceanos, não há o verde das florestas. A imagem foi cirúrgica porque era verdadeira.

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A iniciativa nasceu na mesma semana em que o governo brasileiro concedia à Petrobras autorização para perfuração do primeiro poço exploratório na Foz do Amazonas — uma coincidência que não era casual. A SOS Oceano, coalizão que reúne a Rede Pró-UC, Sea Shepherd Brasil, Planète Amazone, Divers for Sharks, Seaspiracy Foundation, Instituto Baleia Jubarte, Projeto Golfinho Rotador, NEMA, Tubarões e Raias de Noronha, com apoio internacional da Blue Marine Foundation, escolheu aquele momento com a precisão de quem conhece a lógica do calendário político. A COP30 estava às portas. Belém esperava o mundo. E o oceano brasileiro seguia fora da pauta.

O oceano cobre mais de 70% da superfície da Terra, abriga 80% de toda a vida no planeta e fornece alimento para mais de 3 bilhões de pessoas. É responsável por absorver cerca de 30% das emissões globais de CO₂ e por produzir mais da metade do oxigênio que respiramos. Mesmo assim, apenas 8,2% do oceano global está protegido por alguma categoria de Área Marinha Protegida. No Brasil, o quadro é mais preciso e mais grave: cerca de 27% da Zona Econômica Exclusiva está sob alguma forma de proteção legal, e menos de 3% conta com proteção integral.

A SOS Oceano não foi criada para denunciar esse déficit. Foi criada para reduzi-lo. A aliança nasceu em 2023 e reúne hoje 16 organizações brasileiras e internacionais unidas pela ampliação e fortalecimento de Áreas Marinhas Protegidas, operando em três eixos simultâneos: advocacy junto ao poder público, mobilização social de largo alcance e suporte científico às propostas de novas unidades de conservação. A campanha "Sem azul não há verde" foi o braço comunicacional dessa estratégia — a tentativa de transformar, como descreveu a própria agência criadora, um debate técnico sobre conservação em narrativa capaz de alcançar quem nunca ouviu falar em Zona Econômica Exclusiva.

Que a narrativa funcionou, o extremo sul do Brasil atestou em março de 2026. Após anunciar na COP30 o objetivo de ampliar a proteção marinha de 26,5% para 30% até 2030, o presidente Lula criou o Parque Nacional do Albardão, localizado na costa de Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul. São 1.004.480 hectares protegidos, tornando Albardão o maior parque marinho do país. O número equivale a mais de seis vezes a superfície do município de São Paulo. É o maior parque nacional fora da Amazônia.

O Albardão não era uma causa recente. A luta pela formalização de uma área protegida no local se estendeu por 18 anos. Desde 2004, a região figurava em todas as listas de áreas prioritárias para a conservação elaboradas pelo governo federal — e permanecia sem decreto. O que mudou foi a pressão organizada. No último ano, a SOS Oceano intensificou o diálogo com os governos estadual e federal, mobilizou a sociedade civil com a campanha "Sem azul não há verde" e pressionou pela criação da unidade de uso integral. O processo estava emperrado na burocracia de Brasília. A coalizão o destravou por fora — nas redes, nos influenciadores, nos especialistas, nas celebridades — enquanto pressionava por dentro.

O Albardão justificava cada esforço. O mar da região recebe águas tropicais e subantárticas, abrigando ecossistemas marinhos únicos, com recifes naturais relevantes para a estabilidade climática, a proteção da linha de costa e a manutenção da biodiversidade. A área é local de descanso e reprodução de espécies migratórias como baleias-francas, tubarões, tartarugas-marinhas, albatrozes e outras aves marinhas. Angela Kuczach, articuladora da aliança SOS Oceano, descreveu a relevância que poucos mapas conseguem expressar: a região tem conexão direta com o mar patagônico, influenciando populações de fauna que chegam até a Antártica.

Mas o Albardão era também um campo de batalha silencioso. Em 2025, pesquisadores da coalizão SOS Oceano encontraram quase 400 tartarugas mortas na praia e 221 carcaças de toninhas na costa — captura acidental associada à intensificação pesqueira entre primavera e verão, período que coincide com fases reprodutivas de diversas espécies. A toninha (Pontoporia blainvillei), o menor golfinho do Atlântico Sul, classificada como criticamente em perigo na lista nacional de espécies ameaçadas, morria afogada em redes de emalhe que, em um único dia de pescaria, podiam se estender por 3.500 quilômetros ao longo da costa gaúcha. O fundo do mar na região vinha sofrendo taxas de degradação até 50 vezes maiores que as registradas nas florestas terrestres.

A criação do parque não resolve todos os problemas — e a SOS Oceano foi a primeira a dizer isso. Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil, uma das organizações idealizadoras da aliança, celebrou a medida mas pontuou que menos de 3% do oceano brasileiro está protegido de forma integral. A meta de 30% anunciada por Lula na COP30 requer, para ser cumprida até 2030, uma velocidade de criação de novas unidades de conservação marinha sem precedente na história do país. A aliança alerta que a meta precisa representar proteção real — não pode cair na armadilha do blue washing, quando se cria ou amplia áreas marinhas sem garantir gestão, recursos ou fiscalização.

Foi no território Kayapó, às margens do Rio Xingu, que a campanha ganhou sua imagem mais densa. O cacique Raoni Metuktire, 93 anos, símbolo mundial da defesa da Amazônia, recebeu Paul Watson, 74, fundador da Sea Shepherd, em um encontro entre dois velhos amigos que não se viam há 35 anos. Watson propôs a Raoni que os povos da floresta se somassem oficialmente à campanha "Sem azul não há verde", e os indígenas Kayapó aceitaram o convite, abrindo uma bandeira gigante da coalizão. Era o verde e o azul se encontrando em pessoa — a Amazônia viva e o oceano vivo, representados por dois homens que dedicaram suas vidas a impedir que ambos desaparecessem.

A campanha "Sem azul não há verde" não foi apenas comunicação. Foi o argumento de que proteção florestal e proteção oceânica são o mesmo projeto, dividido por uma fronteira que a crise climática já não reconhece. Como disse Angela Kuczach ao lançar a aliança: "Todo e qualquer esforço em proteger a biodiversidade terrestre será nulo se não protegermos o oceano." A bandeira desbotada que foi hasteada no Rio em outubro de 2025 passou a ter, em março de 2026, um parque de um milhão de hectares como resposta parcial. Parcial — e, por isso, mais exigente do que uma vitória costuma ser.

Fontes

SOS Oceano, Campanha Sem Azul Não Há Verde, 2025 Rede Pró-Unidades de Conservação, Notas de lançamento da aliança SOS Oceano, outubro de 2025 Droga5 / Walk, Bandeira Sem Vida — conceito e execução da campanha, outubro de 2025 ICMBio / Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática, Decreto de criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, março de 2026 NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental, Relatórios de monitoramento costeiro, litoral do RS, 2025 Sea Shepherd Brasil, Nota sobre a criação do Parque Nacional do Albardão, março de 2026 Observatório do Terceiro Setor, SOS Oceano na COP30: defesa do Albardão, novembro de 2025

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