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O que desce pelo ralo

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 18 de maio de 2026

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Ralo invisível: o que escorre no banho não desaparece — continua no rio, nos oceanos e, silenciosamente, volta para nós - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

Toda manhã, antes mesmo do café, uma série de reações bioquímicas acontece no banheiro — sem que ninguém perceba. O filtro solar aplicado na nuca, o shampoo que espuma por três minutos, o hidratante que sela a rotina antes da saída: cada um desses produtos carrega, em sua fórmula, moléculas que não terminam sua vida útil no ralo. Elas continuam.

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Os desreguladores endócrinos — classe de substâncias químicas presentes em cosméticos, embalagens plásticas, perfumes e protetores solares — são capazes de interferir no funcionamento hormonal do organismo humano mesmo em concentrações ínfimas, na faixa de micro e nanogramas. Entre os compostos mais estudados estão parabenos, ftalatos e bisfenóis, ingredientes amplamente utilizados pela indústria cosmética como conservantes, plastificantes e estabilizadores de cor. A Endocrine Society estima que, entre os cerca de 85 mil compostos sintéticos produzidos pela indústria química global, ao menos mil apresentam potencial de disrupção endócrina — número que a pesquisa científica só recentemente começou a dimensionar com precisão.

O mecanismo é sutil e, por isso, foi subestimado por décadas. Essas substâncias não destroem receptores hormonais: elas os enganam. Imitam estrogênios, bloqueiam andrógenos, alteram a síntese e o transporte de hormônios tireoidianos. Agem de forma cumulativa e tendem a se acumular no tecido adiposo. Uma revisão publicada em 2025 na Frontiers in Endocrinology confirma que os disruptores endócrinos atuam por múltiplas vias de receptores e que a exposição precoce — durante a gestação ou a infância — pode reconectar circuitos cerebrais de forma permanente, influenciando desde o metabolismo até o risco de obesidade e distúrbios reprodutivos. Os custos sanitários associados a essa exposição superam US$ 340 bilhões anuais apenas nos Estados Unidos, segundo estimativas recentes, e aproximadamente € 157 bilhões na União Europeia — cifras que medem não apenas doenças, mas perdas de renda e produtividade ao longo de gerações.

O que muda a natureza desta conversa não é apenas o corpo humano. É o que acontece depois do banho. Os sistemas convencionais de tratamento de água e esgoto foram projetados para lidar com matéria orgânica e patógenos — não com micropoluentes de síntese química. Estudos sedimentológicos realizados em 2025 na bacia hidrográfica do Canal do Cunha, no Rio de Janeiro, identificaram atividade estrogênica nos sedimentos do sistema que drena para a Baía de Guanabara. É um achado local que ecoa um padrão global: organismos aquáticos — peixes e anfíbios particularmente — vêm apresentando alterações hormonais, reprodutivas e comportamentais em corpos hídricos contaminados por esses compostos. Machos que sintetizam proteínas tipicamente femininas. Fêmeas com ciclos reprodutivos alterados. Populações inteiras sob pressão química difusa e contínua.

A dermatologia e a cosmetologia chegam tarde a essa encruzilhada, mas chegam. A pergunta que a indústria começou a se fazer — não sob pressão regulatória, mas sob pressão de evidência — deixou de ser somente "esse ativo funciona?" e passou a incluir uma segunda dimensão: o que essa molécula faz quando abandona o corpo e entra no ciclo hidrológico? A Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) atualizou em 2025 seus critérios de identificação de disruptores endócrinos no âmbito do Regulamento CLP, priorizando a proteção de gestantes e trabalhadoras. No Brasil, a ANVISA publicou entre 2024 e 2025 um conjunto de RDCs que reformulam o setor cosmético, com exigência de cosmetovigilância sistemática e nova classificação de risco por produto — sinais de que o marco regulatório começa, lentamente, a incorporar o princípio da responsabilidade pós-uso.

A tendência que emerge desse cenário é a busca por formulações biodegradáveis, com menor pegada ecotoxicológica e ingredientes de origem natural cuja decomposição não gere resíduos bioativos persistentes. Não se trata de uma guinada romântica em direção ao natural por oposição ao sintético — a ciência não sustenta esse binarismo. Trata-se de uma revisão técnica profunda sobre o que significa segurança em cosmetologia: segurança para quem usa, e segurança para o que vem depois. Para o rio que recebe o esgoto. Para o peixe que vive nesse rio. Para a criança que bebe essa água.

Essa não é uma discussão que a medicina ambiental possa ter sozinha. Ela exige a dermatologia, a toxicologia, a química ambiental, a engenharia sanitária — e, cada vez mais, o consumidor informado que entende que a escolha de um produto de beleza não termina no espelho.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto de dra marcela baraldi, autora do artigo O que desce pelo ralo
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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