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324 girinos mortos em uma única lagoa: a ranavirose derruba 83% da reprodução de uma perereca da Mata Atlântica

Escrito por Neo Mondo | 23 de agosto de 2026

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Girinos nascem já dentro da água, e é ali que o ranavírus os encontra. Na imagem, uma fêmea de perereca-macaco deposita os ovos sobre a folha dobrada, protegidos de predadores aquáticos, enquanto dois machos tentam acasalar com ela. Foto Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio - Foto:

POR - REDAÇÃO NEO MONDO*

Em uma lagoa de 180 metros quadrados no norte de Santa Catarina, pesquisadores recolheram 324 girinos mortos entre janeiro de 2024 e março de 2026. Duzentos e oitenta e sete testaram positivo para ranavírus. O estudo que descreve o episódio, publicado em 20 de agosto na Biodiversity and Conservation, apresenta a primeira comprovação, na América do Sul, de que surtos de ranavirose mataram em massa uma espécie nativa de anfíbio e coincidiram com uma queda de 83% na produção de ovos da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta), endêmica da Mata Atlântica.

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O trabalho reuniu o Laboratório de Interações Biológicas e o Departamento de Biologia Celular da Universidade Federal do Paraná, o Instituto de Pesquisa em Biodiversidade da Espanha, o Instituto de Zoologia da Sociedade Zoológica de Londres, o Departamento de Ciências Patobiológicas da Universidade de Wisconsin-Madison, o Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade e o Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros, da Unicamp. Integra o projeto "Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros", apoiado pela FAPESP e coordenado por Luís Felipe Toledo, do Instituto de Biologia da Unicamp, com financiamento adicional do CNPq e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.

O que distingue o caso não é a detecção do vírus, e sim a cadeia de prova. Mortes suspeitas já haviam sido registradas na Argentina, na Nicarágua e no próprio Brasil, quase sempre sustentadas apenas por deteção molecular. Aqui houve três camadas: carga viral alta, lesões visíveis e confirmação histológica. Treze fígados foram processados para microscopia e revelaram necrose extensa, granulomas com necrose caseosa central e corpúsculos de inclusão intracitoplasmáticos. "Nosso estudo é o primeiro a comprovar esse vírus como causador de mortalidade em massa de um anfíbio nativo", diz Karla Magalhães Campião, professora do Departamento de Zoologia da UFPR e coautora do artigo.

A morte é rápida. Larvas moribundas boiavam na superfície sem conseguir submergir e morriam em trinta minutos ou menos. Os sinais externos incluíam hemorragias petequiais e confluentes na parede ventral, eritema, edema abdominal e, em alguns indivíduos, hemorragia dentro do olho. Nas pererecas-macaco infectadas, a carga viral chegou a 9,81 bilhões de cópias por microlitro, com mediana de 1,12 bilhão. O sequenciamento de seis regiões genômicas alocou o agente dentro do clado Ranavirus rana1, o FV3, o mesmo de distribuição global que já atinge anfíbios, répteis e peixes em vários continentes.

Foram três ondas. A primeira em janeiro de 2024, com carcaças até abril. A segunda entre novembro de 2024 e o fim de janeiro de 2025. A terceira do fim de novembro de 2025 a março de 2026. Um segundo lago, a 450 metros de distância e isolado por floresta íntegra, não registrou doença.

O gatilho aparece na umidade. Os pesquisadores testaram temperatura média, temperatura máxima, precipitação e umidade relativa em janelas de até trinta dias. Só a média móvel de umidade dos catorze dias anteriores previu a mortalidade diária. Cada aumento de 6,07% na umidade antecedente reduziu em 78,4% a chance diária de um evento de morte. A probabilidade prevista cai de 0,977, com umidade média de 65%, para 0,071, com 90%. Ar seco impõe estresse de dessecação às larvas, compromete a resposta imune e, ao reduzir o volume de água, concentra os girinos em área menor, o que multiplica os encontros entre hospedeiros.

E aqui está o achado que separa este trabalho da narrativa climática usual. Nenhuma das quatro variáveis climáticas apresentou tendência direcional estatisticamente significativa na série de 1999 a 2026. A temperatura média subiu 0,148 °C por década, sem significância (p = 0,081). Quando os modelos compararam clima e transição epizoótica como explicações para o colapso reprodutivo, a doença venceu. A umidade explica quando o surto acontece; não explica o declínio de longo prazo.

Esse declínio tem uma régua rara. Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-bugio, contam massas de ovos diariamente na temporada reprodutiva desde 1999. A fêmea dobra a folha ao redor da postura, e os girinos caem na água ao eclodir. Comparando agosto de 1999 a fevereiro de 2004 com agosto de 2025 a fevereiro de 2026, a taxa de deposição na fase anterior aos surtos foi 5,74 vezes maior, o que corresponde a uma redução de 82,6%, com intervalo de confiança entre 69,6% e 90%. A curva sazonal não mudou de forma nem de época: a supressão foi uniforme ao longo de toda a estação.

A Europa já viveu esse roteiro. Em 2014, Stephen Price e colegas descreveram na Current Biology o colapso de comunidades inteiras de anfíbios no Parque Nacional dos Picos de Europa, na Espanha, atribuído a ranavírus introduzidos. Na América do Norte, ao contrário, populações de rã-da-madeira e salamandra-manchada seguiram persistindo apesar de surtos recorrentes. O Brasil entra agora na primeira coluna.

Falta saber de onde veio o vírus. A rã-touro americana (Aquarana catesbeiana), trazida ao país em 1935 e espalhada pela natureza depois do abandono de ranários, é a suspeita óbvia. "Quando uma espécie é reservatório do vírus, ela não fica doente, nem apresenta sintomas da doença. No entanto, o vírus está presente em sua corrente sanguínea e pode ser transmitido a outros indivíduos", diz Aline Fonseca, doutoranda em Ecologia e Conservação na UFPR e uma das autoras principais. O paralelo com o fungo quitrídio recomenda cautela. Em novembro de 2025, o grupo de Toledo mostrou na Biological Conservation que a linhagem Bd-Brazil já circulava no país em 1916, duas décadas antes da chegada das primeiras rãs-touro, e que sua dispersão global seguiu 8 rotas plausíveis dentro de um comércio de carne de rã com 3.617 rotas mapeadas em 48 países.

O número que emoldura tudo isso está na Nature. A segunda Avaliação Global dos Anfíbios, publicada em 2023 com 8.011 espécies analisadas, classificou 40,7% delas como ameaçadas, a maior proporção entre os vertebrados, com deterioração mais acentuada justamente nos Neotrópicos. O monitoramento da lagoa do Santuário Rã-bugio continua, e as pesquisadoras da UFPR pretendem coletar amostras em áreas próximas para medir a prevalência do vírus. Toledo defende ainda a triagem de anfíbios depositados em museus de zoologia, o mesmo método que reescreveu a história do quitrídio.

"Talvez o ranavírus também esteja aqui há muito tempo. Resta saber o que mudou para ele se tornar uma ameaça", diz o pesquisador da Unicamp.

*Com informações da Agência FAPESP.

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