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Da experiência de Pecém, um caminho para a transição justa no Rio Grande do Sul

Escrito por William Wills | 19 de agosto de 2026

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Experiência de Pecém mostra que a transição justa pode transformar antigas dependências em novas oportunidades de desenvolvimento, emprego e renda - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - WILLIAM WILLS*

Em Candiota, no Rio Grande do Sul, a transição energética não é abstração climática. É pergunta concreta sobre empregos, arrecadação e futuro dos jovens. Para uma região dependente do carvão, o desafio é evitar que a descarbonização se traduza em perda de renda, êxodo e abandono territorial.

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É justamente para evitar uma situação assim que foi elaborado o Plano de Transição Energética Justa para as regiões carboníferas do Rio Grande do Sul pelo consórcio Way Carbon-Centro Brasil no Clima. A iniciativa vai além do setor energético: recoloca a transição no centro de uma agenda de desenvolvimento regional, diversificação produtiva e criação de renda.

A reação local dimensiona o desafio. Durante a elaboração do plano, quase todos os atores ouvidos defenderam a permanência das atividades ligadas ao carvão, não necessariamente por rejeitarem a agenda climática, mas por conhecerem seu peso econômico. Em Candiota, quase 60% da massa salarial está associada às minas e termelétricas.

Dependência regional vai muito além da energia: é econômica, social e territorial. O maior risco de um eventual fechamento das usinas não é faltar eletricidade, já que a região é atendida pelo Sistema Interligado Nacional. O risco real é perder base produtiva, arrecadação, empregos, renda e perspectiva. Transição justa precisa, portanto, começar enquanto há tempo. Quando empregos se perdem, empresas fecham e a arrecadação cai, resta administrar danos. É necessário agir antes: qualificar trabalhadores, atrair investimentos e organizar novas cadeias produtivas capazes de sustentar a região.

A sobrevida recentemente concedida às usinas abre justamente essa janela. Em decisão recente, Candiota 3 poderá operar até 2040, já Pampa Sul possui contratos que se estendem até 2043. Esse tempo não deve ser entendido como licença para adiar a transição, mas como oportunidade para prepará-la. O objetivo deveria ser chegar ao final da próxima década com uma economia regional mais diversificada, capaz de gerar empregos e renda independentemente do carvão.

É justamente aqui que uma experiência brasileira pode ser particularmente útil: Pecém, no Ceará.

Hoje parece natural associar Pecém a um grande complexo industrial e portuário. Mas aquela realidade foi construída ao longo de décadas. O Ceará não dispunha, ao lado do empreendimento, das matérias-primas que normalmente determinariam a localização de uma grande siderúrgica. Sua vantagem competitiva precisou ser construída — com infraestrutura, logística, coordenação política, incentivos e uma estratégia persistente de atração de investimentos.

Nesse processo, o governo estadual articulou a implantação do porto, da área industrial e, posteriormente, da Zona de Processamento de Exportação do Ceará. Um dos grandes projetos estruturantes foi a Companhia Siderúrgica do Pecém, formada pela Vale em parceria com as sul-coreanas Dongkuk Steel e Posco. A siderúrgica tornou-se a empresa-âncora da ZPE, representando investimento superior a US$ 5 bilhões. Anos depois, foi adquirida pela ArcelorMittal.

O caso é importante porque mostra que desenvolvimento econômico não depende apenas das vantagens que um território recebeu da natureza. Vantagens competitivas podem e devem ser construídas.

A ZPE Ceará foi a primeira do país a entrar efetivamente em operação, em 2013, e dispõe de mais de 6 mil hectares destinados à implantação de empreendimentos exportadores. O regime oferece benefícios tributários, cambiais e administrativos e opera integrado ao Porto do Pecém. A siderúrgica funcionou como âncora inicial, mas, em torno dela, consolidou-se progressivamente um ecossistema muito mais amplo de infraestrutura, fornecedores, logística, serviços e conhecimento.

E talvez essa seja a parte mais interessante da história. A infraestrutura construída para uma determinada etapa do desenvolvimento passou a abrir espaço para a seguinte.

Pecém é hoje um dos principais polos brasileiros para projetos de hidrogênio e derivados verdes. Ao mesmo tempo, novos investimentos ligados à economia digital estão chegando à ZPE. Um data center de grande porte já está em construção no complexo, será o maior da América Latina, com capacidade projetada de 200 MW de tecnologia da informação. Segundo a Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará, cerca de mil pessoas já trabalhavam na obra em junho, número que poderá chegar a quatro mil durante sua implantação.

A escala dos projetos em análise também chama atenção. Em 2025, empreendimentos aprovados para instalação na ZPE — predominantemente grandes projetos de data centers, além de iniciativas associadas à produção de amônia verde — elevaram para mais de 30 mil a expectativa de empregos diretos caso se concretizem. O próprio Complexo do Pecém já reúne mais de 19 mil hectares e combina porto, área industrial e ZPE em uma mesma estratégia de desenvolvimento.

Isso é diversificação econômica na prática. Uma infraestrutura originalmente concebida para atividades industriais pesadas passa a sustentar siderurgia moderna, logística internacional, energias renováveis, hidrogênio verde, economia digital e novas cadeias tecnológicas e de baixo carbono.

Não significa que Candiota deva simplesmente copiar Pecém. As condições territoriais, econômicas e logísticas são diferentes. Mas a experiência cearense deixa uma lição valiosa: esperar que o mercado descubra sozinho uma nova vocação econômica para uma região periférica dificilmente será suficiente.

É preciso criar as condições para que os investimentos aconteçam.

Nesse contexto, tanto a proposta dos municípios de Candiota e Hulha Negra de criação de uma Zona de Processamento de Exportação quanto o anúncio do governador Eduardo Leite de estruturar uma Zona de Transição Energética Justa na Campanha — instrumento que ainda precisa ser detalhado — devem ser vistos como partes de uma estratégia maior. Bem desenhados, esses mecanismos podem reduzir desvantagens locacionais, mobilizar financiamento, estimular investimentos em infraestrutura, atrair empresas-âncora e ajudar a organizar novas cadeias produtivas.

E Candiota não parte do zero. A região possui trabalhadores qualificados, conhecimento industrial, infraestrutura energética, disponibilidade territorial e potencial para novas cadeias ligadas à biomassa, às energias renováveis, à agroindústria e a outras atividades.

Há também infraestrutura logística que pode ganhar nova relevância nesse processo. Uma ferrovia conecta a região ao Porto de Rio Grande, onde estão previstos investimentos de grande porte para transformar a refinaria local na primeira biorrefinaria 100% renovável do país. A Campanha pode se preparar para participar dessa nova cadeia, fornecendo biomassa e outras matérias-primas e capturando parte dos investimentos, empregos e renda que ela poderá gerar.

Esse exemplo ajuda a mostrar que diversificação econômica não precisa partir necessariamente de atividades inteiramente novas. Ela também pode surgir da conexão entre ativos que já existem, novas demandas, infraestrutura disponível e oportunidades abertas pela própria transição para uma economia de baixo carbono.

A questão é combinar esses ativos com políticas suficientemente ambiciosas para transformar potencial em investimentos concretos, renda e emprego na região.

O Estado tem papel decisivo nesse processo: reduzir riscos, coordenar instituições, atrair capital, apoiar a qualificação profissional e criar condições para que novas empresas consigam competir a partir da região. Bancos de desenvolvimento como BNDES e BRDE também podem exercer papel fundamental, sobretudo na redução do custo de capital e na viabilização dos primeiros investimentos capazes de desencadear novas cadeias produtivas.

A transição energética só será efetivamente justa se oferecer prosperidade concreta aos territórios que hoje dependem de atividades intensivas em carbono. Não basta fechar uma atividade e compensar posteriormente aqueles que ficaram para trás. É preciso construir a economia seguinte enquanto a anterior ainda existe.

O Rio Grande do Sul tem agora uma vantagem rara: tempo para fazer isso.

Se os próximos anos forem usados para criar novas vantagens competitivas, atrair investimentos e construir cadeias produtivas, a transição pode deixar de ser percebida apenas como ameaça e se transformar em uma nova etapa de desenvolvimento regional.

Pecém mostra que isso é possível. Candiota pode construir seu próprio caminho.

*William Wills - Diretor Técnico do Centro Brasil no Clima (CBC), engenheiro eletricista pela UFRJ, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, com mais de duas décadas de atuação na interface entre ciência, política pública, setor privado e agenda climática. É sócio-diretor da EOS Consultoria e consultor sênior do CentroClima/COPPE/UFRJ, tendo liderado e coordenado projetos estratégicos em mitigação, transição energética, precificação de carbono, modelagem macroeconômica, financiamento climático e transição justa. Colunista do portal Neo Mondo.

foto de william wills, autor do artigo Da experiência de Pecém, um caminho para a transição justa no Rio Grande do Sul
William Wills - Foto: Divulgação

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