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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 11 de maio de 2026
Petróleo na pele: entre fibras sintéticas e silêncio inflamatório, o corpo começa a revelar os limites invisíveis da moda fóssil - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Durante décadas, a dermatologia concentrou sua atenção no que se aplica sobre a pele — os ácidos, os ativos, os filtros, os procedimentos. Construímos uma cultura sofisticada de skincare enquanto deixávamos de lado uma pergunta mais simples e mais antiga: o que toca a pele o dia inteiro?
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A resposta, na maior parte dos casos, é petróleo.
Poliéster, poliamida, acrílico — as fibras sintéticas que compõem grande parte do guarda-roupa contemporâneo são derivadas do petróleo. São materiais tecnológicos, baratos, versáteis e onipresentes. São também materiais com os quais o corpo humano nunca coevoluiu. A pele não tem memória adaptativa para doze horas diárias de contato com polímeros industriais — e ela responde a isso, ainda que em silêncio.
O mecanismo não é dramático: é justamente aí que mora o problema. Tecidos sintéticos alteram de forma sutil e contínua o microambiente cutâneo — reduzem a ventilação, retêm calor, aumentam a fricção, modificam a distribuição de umidade. Esse estado persistente de desequilíbrio térmico e mecânico favorece inflamação de baixo grau, oleosidade aumentada, foliculite, acne corporal e, talvez o mais subestimado de todos os efeitos, a perturbação do microbioma cutâneo: o ecossistema de bactérias comensais que trabalha incessantemente para manter a barreira da pele íntegra.
A dermatologia contemporânea tem um nome para esse campo de investigação: Exposome. O conceito descreve a totalidade das exposições ambientais acumuladas ao longo de uma vida e seus efeitos sobre a biologia cutânea. Poluição, radiação ultravioleta, padrões de sono, alimentação, estresse oxidativo — tudo isso já integra a equação. O que ainda falta incorporar com mais rigor é o que chamamos, sem glamour, de têxtil.
Isso não é um argumento contra a modernidade. Fibras sintéticas têm aplicações legítimas e insubstituíveis — no esporte de alta performance, na medicina, na engenharia. A questão não é a existência desses materiais, mas sua onipresença irrefletida: o pijama, a camiseta do dia a dia, a roupa de trabalho, o tecido encostado na pele por horas a fio, todos os dias, ao longo de anos.
Há algo revelador no fato de que o movimento pelo skinimalismo — pela redução de camadas desnecessárias no cuidado com a pele — tenha emergido no mesmo momento histórico em que a indústria têxtil fast fashion atingiu seu pico. A pele, de certa forma, antecede a consciência. Ela sinaliza o desequilíbrio antes que a pessoa consiga nomeá-lo.
Investir em sérum de niacinamida enquanto se dorme em poliéster não é exatamente incoerente — mas é incompleto. A saúde da pele é também uma questão de arquitetura do cotidiano: quais materiais escolhemos, por quanto tempo os usamos, com que frequência permitimos que ela respire de verdade. Perguntas simples, com respostas que a dermatologia ainda está, lentamente, aprendendo a formular.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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