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Sustentabilidade na moda: o modelo de estoque zero como resposta aos desafios ambientais do Brasil

Escrito por Neo Mondo | 6 de maio de 2026

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Sustentabilidade na moda deixou de ser tendência para se tornar condição de sobrevivência em uma indústria pressionada pelo excesso de resíduos, pela rastreabilidade e pela urgência da economia circular - Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação

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Por - Guillermo Arslanian*, especail para Neo Mondo

A indústria da moda brasileira está em um ponto de inflexão. Um relatório da ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), em parceria com a FGV (Fundação Getúlio Vargas), divulgado em 2025, lançava um alerta contundente cujas projeções ressoam em 2026: o consumo de roupas e, com ele, a geração de lixo têxtil seguem em ritmo insustentável. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, o consumo de roupas no Brasil gerou 4 milhões de toneladas de resíduos em 2023, com projeção de 4,7 milhões de toneladas para 2025 — marca que, ao que tudo indica, foi alcançada — e alarmantes 6,1 milhões de toneladas projetadas para 2030. Esse volume tem como destino principal aterros sanitários e lixões, inclusive os clandestinos.

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Esse quadro é agravado por uma lacuna crônica de rastreabilidade na cadeia, pela ausência de legislação específica e pela escassez de dados confiáveis, o que impede diagnósticos precisos e a formulação de políticas públicas eficazes. Soma-se a isso uma desconexão histórica entre a indústria e as empresas de reciclagem, em grande parte devido à falta de padronização na classificação dos materiais — entrave que precisa ser superado para que se avance de fato.

O ano de 2025, contudo, também marcou o início de uma virada. A inauguração do primeiro Ecoponto Têxtil em São Paulo e o fortalecimento do Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC) foram passos que trouxeram o debate sobre responsabilidade compartilhada ao centro das atenções. Agora, em 2026, a pressão global por transparência no ciclo de vida dos materiais não pode mais ser ignorada. As projeções são claras: a estruturação da triagem e a consolidação de bases de dados públicas são pilares para que o Brasil construa um modelo de economia circular viável e, principalmente, escalável.

Prosperidade com responsabilidade ambiental

É nesse contexto de desafios e oportunidades que o modelo de negócio B2B de estoque zero emerge não apenas como tendência, mas como a espinha dorsal de um futuro mais sustentável para a moda. Tradicionalmente, o setor opera sob a premissa da previsão de demanda e da produção em massa. O resultado inevitável é a superprodução, que se traduz em excesso de estoque, necessidade de descontos agressivos para escoar coleções ou, na pior das hipóteses, descarte prematuro — alimentando diretamente os aterros já mencionados.

O modelo B2B de estoque zero inverte essa lógica. Ele se baseia na produção sob demanda ou em ciclos de produção ultrarrápidos e responsivos, nos quais as peças são confeccionadas apenas quando há demanda confirmada por parte do varejo ou de outros parceiros de negócio. Imagine um cenário em que cada peça produzida já tem um destino certo, eliminando suposições, riscos e, principalmente, o desperdício inerente à superprodução.

Os benefícios ambientais dessa abordagem são diretos e transformadores. Ao eliminar a necessidade de manter grandes volumes de produtos acabados, reduz-se de forma expressiva a geração de resíduos têxteis. Menos peças produzidas significam menos consumo de recursos naturais — água, energia e matérias-primas virgens — e consequente diminuição da poluição em todas as etapas da cadeia produtiva.

Além disso, a estratégia de estoque zero impulsiona a otimização da cadeia de suprimentos, a digitalização dos processos e uma transparência sem precedentes. Cada etapa da produção torna-se mais visível e responsiva à demanda real, o que, por sua vez, facilita a rastreabilidade — hoje um dos maiores obstáculos para uma reciclagem eficaz e para a economia circular no país.

O estoque zero é, portanto, uma ponte concreta para um futuro em que a moda não alimenta aterros, mas um ecossistema circular e regenerativo. Ele permite que marcas e empresas respondam com agilidade às tendências sem se comprometer com volumes excessivos, minimizando ao mesmo tempo sua pegada ambiental. Essa abordagem não apenas beneficia o planeta, como também otimiza custos, reduz perdas por obsolescência e superprodução e impulsiona a inovação em toda a indústria.

A transição para o estoque zero não é um caminho simples — é inegável. Exige colaboração entre produtores, governos, empresas de tecnologia e recicladores, configurando-se como um investimento que não pode ser adiado. É necessário investir em plataformas que conectem a demanda do varejo diretamente à capacidade de produção, e em tecnologias que permitam a customização e a produção eficiente em pequena escala. A construção dessa nova realidade depende, acima de tudo, da qualidade da informação e de indicadores confiáveis que orientem decisões e atraiam os investimentos necessários.

Guillermo Arslanian - Foto: Divulgação

O Brasil tem o potencial e a responsabilidade de ser protagonista nessa transformação. Os primeiros movimentos estruturais já indicam que o setor têxtil brasileiro está pronto para abraçar uma nova fase, em que sustentabilidade e prosperidade caminham lado a lado.

* Guillermo Arslanian é cofundador e CEO da BackChannel.

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