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Escrito por Neo Mondo | 10 de abril de 2026
Oceano no centro de uma disputa silenciosa: entre a vida que resiste e as forças que avançam, o futuro se decide em águas que já não são neutras - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - ELENI LOPES, DIRETORA DE REDAÇÃO DE NEO MONDO
Existe uma contradição que nenhuma cúpula científica ou diplomática consegue resolver por decreto: o mesmo oceano que a humanidade precisa preservar para sobreviver está se tornando, aceleradamente, palco de disputa entre potências que raramente se entendem nem mesmo em terra firme. Em 2026, essa contradição deixou de ser uma abstração acadêmica para assumir a forma de uma crise de governança com consequências mensuráveis — para o clima, para a biodiversidade e para a ordem geopolítica que ainda finge ser multilateral.
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Os números que sustentam a urgência climática não são novos, mas continuam sendo subestimados. Medidas oceânicas já tecnicamente disponíveis — da expansão das áreas marinhas protegidas à restauração de ecossistemas costeiros, do aproveitamento de energias renováveis offshore à redução das emissões do transporte marítimo — poderiam responder por até 35% dos cortes anuais de gases de efeito estufa necessários até 2050. É uma contribuição à altura da de qualquer outro setor da economia global. E, no entanto, o oceano segue marginalizado nas grandes negociações climáticas, tratado como cenário e não como protagonista das soluções que o mundo diz estar buscando.
O que explica essa marginalização, em parte, é exatamente o que torna o oceano tão difícil de governar: ele não pertence a ninguém e pertence a todos ao mesmo tempo. Essa ambiguidade jurídica e política, que já era complicada no século XX, tornou-se explosiva em uma era de competição estratégica acirrada. Rotas comerciais, cabos submarinos de comunicação, reservas de minerais no fundo do mar, zonas de pesca e projeção de força naval — tudo isso converge no espaço marítimo, transformando o oceano em um tabuleiro onde a transição energética e a rivalidade entre grandes potências se desenrolam no mesmo lance.
A tensão que se acumula em águas disputadas não respeita calendários diplomáticos. Mas o segundo semestre de 2026 vai obrigar o mundo a tentar, ao menos formalmente, compatibilizar essas agendas. As COPs climática e de biodiversidade — a 31ª edição da UNFCCC e a COP 17 da CBD — amplificarão, no plano multilateral, uma contradição que os Estados já enfrentam individualmente: como cooperar na proteção de um bem comum global quando a lógica dominante é de competição por recursos e influência?
O Brasil ocupa, nesse contexto, uma posição singular que ainda não foi plenamente capitalizada. Com uma das maiores extensões costeiras tropicais do planeta e a maior floresta equatorial contígua do mundo, jurisdição sobre vastas extensões do Atlântico Sul e uma trajetória — ainda que irregular — de protagonismo nas negociações ambientais internacionais, o país tem argumentos para ser mais do que um anfitrião. Pode ser um mediador entre a agenda climática e a agenda de segurança marítima, dois campos que raramente se falam mas que precisarão, inevitavelmente, construir respostas comuns.
Para os gestores de risco sistêmico e os executivos que operam sob marcos ESG, a questão não é apenas normativa. A instabilidade geopolítica nos oceanos já se traduz em prêmios de seguro, disrupções logísticas e incerteza regulatória que afetam cadeias produtivas inteiras. Ao mesmo tempo, os mercados de carbono azul, os mecanismos de financiamento para áreas marinhas protegidas e a economia das energias oceânicas ainda aguardam o nível de previsibilidade institucional que somente uma governança mais robusta é capaz de garantir. O oceano, em suma, é simultaneamente um dos maiores ativos disponíveis para a transição e um dos principais vetores de instabilidade do sistema.
Essa dupla natureza é o que torna o tema incontornável em 2026. Não se trata de escolher entre a lente climática e a lente geopolítica — trata-se de entender que elas descrevem o mesmo fenômeno a partir de ângulos diferentes, e que qualquer estratégia que ignore uma delas está, por definição, incompleta.
Fontes:
Stockholm Environment Institute, The Ocean as a Solution to Climate Change, 2019. Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS). UNFCCC, documentação oficial do ciclo 2025–2026. Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), COP 17, 2026.
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