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Escrito por Neo Mondo | 7 de abril de 2026
Abrolhos, Bahia — A linha entre o mar e o céu quase desaparece nas águas cristalinas do arquipélago: abaixo, os recifes de coral que sustentam a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul; acima, o mesmo azul que pescadores e baleias-jubarte partilham há séculos - Foto: Divulgação/WWF-Brasil
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Existe uma aritmética que o debate ambiental brasileiro raramente apresenta com precisão: quanto vale, em reais, um recife de coral intacto? Quanto gera de renda um manguezal preservado? Quanto se perde, em empregos, com uma área marinha desprotegida? Um estudo coordenado pelo WWF-Brasil, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o coletivo Abrolhos para Sempre, traz agora respostas mensuráveis. Em 2024, a pesca, o turismo e as Unidades de Conservação marinhas e costeiras movimentaram R$ 1,9 bilhão na Região dos Abrolhos, entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo. O número não é apenas expressivo. É uma inversão de argumento.
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A pesquisa, conduzida pelo economista João Carlos Pádua, professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), aplicou uma matriz de insumo-produto — metodologia consagrada para estimar efeitos diretos e indiretos de atividades econômicas sobre outros setores — a dados oficiais dos municípios da região. Os resultados revelam uma cadeia produtiva muito mais robusta do que o debate público sobre conservação costuma reconhecer. Pesca e turismo juntos garantiram cerca de 97 mil postos de trabalho nos municípios abrolhenses. Em impactos diretos, essas duas atividades geraram mais de 32 mil empregos e R$ 795 milhões em renda. Quando os efeitos multiplicadores sobre a economia regional são considerados, o número total de postos de trabalho praticamente triplica e a renda gerada mais que dobra.
O turismo se consolidou, em 2024, como o principal motor econômico da região, com quase 22 mil empregos diretos e R$ 611,5 milhões em renda direta, além de 43,9 mil empregos indiretos e mais de R$ 743 milhões em renda indireta. A pesca artesanal, por sua vez, garantiu mais de 10,4 mil empregos diretos e R$ 183,6 milhões em renda direta, e gerou outros 20,8 mil empregos indiretos com R$ 353,6 milhões adicionais por efeito cascata. São números que descrevem uma economia dependente em sua estrutura mais profunda da integridade dos ecossistemas marinhos que sustentam tanto a produtividade pesqueira quanto a atratividade turística do território.
As Unidades de Conservação aparecem no estudo não como elemento periférico, mas como espinha dorsal desse sistema. As áreas protegidas analisadas foram responsáveis, direta ou indiretamente, por 29.163 empregos e pela injeção de R$ 536,3 milhões na economia local em 2024 — representando cerca de 30% dos empregos e 28% da economia associada a pesca e turismo na região. Os dados granulares são igualmente reveladores. O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos recebeu 16.912 visitantes em 2024 e injetou quase R$ 7 milhões na economia local. O Parque Municipal Recife de Fora atraiu 73.650 visitantes, gerando 2.470 empregos diretos e indiretos e uma renda superior a R$ 51 milhões. As Reservas Extrativistas de Canavieiras, Corumbau e Cassurubá juntas geram mais de 18 mil empregos e movimentam cerca de R$ 330 milhões. As unidades do Espírito Santo — Reserva Biológica de Comboios, APA Foz do Rio Doce, Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz e APA Costa das Algas — produzem efeitos relevantes nos municípios capixabas de Linhares e Aracruz.
"A cada manguezal protegido, a cada área marinha preservada, cresce a força econômica de setores como pesca e turismo. Essa relação entre natureza e desenvolvimento não apenas fortalece a identidade local, mas aponta um caminho claro para o futuro: investir na conservação é investir em qualidade de vida, oportunidades e justiça social", afirma Pádua. A declaração sintetiza o que os dados demonstram de forma metodologicamente rigorosa: a conservação não é um freio ao desenvolvimento — é sua condição de possibilidade.
O estudo integra as ações do projeto "30x30 Brasil: Conectando e Ampliando a Rede de Áreas Marinhas Protegidas", liderado pelo WWF-Brasil e articulado com o ICMBio, a Conservação Internacional (CI-Brasil) e outras organizações parceiras. A meta 30x30, compromisso assumido pelo Brasil no Acordo de Biodiversidade, prevê a proteção de 30% dos oceanos até 2030. O país já protege cerca de 26% de sua área oceânica, mas estudos publicados na revista Ocean and Coastal Research, da USP, indicam que a distribuição dessas áreas não corresponde necessariamente aos habitats de maior biodiversidade e vulnerabilidade — bancos de rodolitos, recifes mesofóticos e buracas, formações únicas conhecidas apenas nos Abrolhos, seguem amplamente desprotegidos.
É nesse contexto que a candidatura do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos a Patrimônio Mundial Natural da UNESCO, com dossiê entregue pelo governo brasileiro em janeiro de 2026, adquire uma dimensão que transcende o simbólico. O reconhecimento internacional pode atrair visitantes comprometidos com experiências socioambientais responsáveis e valorizar ainda mais as comunidades que habitam e cuidam desse território, como sublinhou Marina Corrêa, analista de Conservação Sênior e líder da agenda de Oceano do WWF-Brasil. Abrolhos também ostenta o título de Hope Spot, conferido pela Mission Blue, organização fundada pela oceanógrafa Sylvia Earle — reconhecimento que a região detém desde 2013.
A lógica que o novo estudo torna inegável é exatamente a que o coletivo Abrolhos para Sempre tem defendido desde sua formação: a Região dos Abrolhos não é uma área a ser preservada a despeito do desenvolvimento, mas por causa dele. Pescadores artesanais, marisqueiras, quilombolas e povos originários não são residuais nessa economia — são sua estrutura de sustentação. As Reservas Extrativistas, os parques marinhos e as APAs da região não são um ônus para a sociedade brasileira. Rendem a ela, em empregos, renda e resiliência, muito mais do que qualquer alternativa de uso predatório poderia oferecer a longo prazo.

"Proteger as áreas marinhas não é apenas uma agenda ambiental, mas uma estratégia econômica robusta, capaz de sustentar cadeias produtivas inteiras e garantir estabilidade para milhares de famílias", afirma Marina Corrêa. O que o estudo acrescenta a essa afirmação é a precisão que o debate de política pública exige: não basta proteger. É preciso gerir. A expansão das Áreas Marinhas Protegidas, na avaliação do WWF-Brasil, deve vir acompanhada de qualidade na gestão, representatividade ecológica e participação das comunidades locais na governança. Sem esse tripé, o número pode crescer no papel enquanto encolhe no recife.
Fontes determinantes:
WWF-Brasil, Estudo "Importância social e econômica da pesca, do turismo e das unidades de conservação na região de Abrolhos", 2025
ICMBio, Dados de visitação e uso público das Unidades de Conservação marinhas e costeiras, 2024
Dutra et al., Ocean and Coastal Research, Universidade de São Paulo, 2025
Mission Blue, Hope Spot — Região dos Abrolhos, 2013
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima / ICMBio, Dossiê de candidatura do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos à UNESCO, 2026
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