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O excesso também pesa na pele, e no planeta

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 5 de agosto de 2026

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Excesso de produtos pode fragilizar a barreira da pele e ampliar a quantidade de resíduos que acabam no ambiente. Cuidar melhor também é consumir com mais consciência - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

Como dermatologista, sou uma grande defensora dos bons ativos. A evolução da indústria cosmética trouxe formulações cada vez mais sofisticadas, capazes de prevenir o envelhecimento cutâneo, tratar manchas e acne, melhorar a hidratação e a qualidade da pele. Retinoides, antioxidantes, ácidos, hidratantes, fotoprotetores e tantos outros têm seu espaço e, quando bem indicados, entregam excelentes resultados.

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Mas nem tudo o que cabe numa prateleira precisa caber na nossa rotina.

Nos últimos anos, os produtos se multiplicaram. Sérum para uma finalidade, creme para outra, ácidos diferentes, antioxidantes, máscaras, essências, fórmulas que prometem resolver necessidades cada vez mais específicas. As redes sociais aceleraram tendências e lançamentos, e criaram a sensação de que sempre há um novo produto para acrescentar. Aí está a pergunta que precisa ser feita: mais produtos significam, de fato, uma pele melhor?

A pele tem uma barreira de proteção sofisticada. Quando usamos muitos produtos ao mesmo tempo, sobretudo com ativos irritantes ou combinações inadequadas, essa barreira se compromete. Vermelhidão, ardor, descamação, sensibilidade e a piora de algumas condições dermatológicas surgem, muitas vezes, de uma rotina que pretendia cuidar mais.

Há ainda a sobreposição de ativos. É comum encontrar ingredientes semelhantes em produtos diferentes usados na mesma rotina, sem que o consumidor perceba. O resultado costuma ser mais irritação, mais custo e não necessariamente mais eficácia. Na dermatologia, quantidade não significa resultado. Uma rotina bem indicada considera idade, tipo de pele, doenças dermatológicas, exposição solar, hábitos e objetivos de cada pessoa. Às vezes, três produtos bem escolhidos fazem mais sentido do que uma bancada cheia deles.

A discussão, porém, não termina na pele. Cada produto que compramos carrega uma cadeia de produção: matérias-primas, água, energia, fabricação, transporte e, por fim, embalagem. Frascos, bisnagas, tampas, válvulas, pumps e caixas passam pelas nossas mãos durante algumas semanas ou meses. Depois, viram resíduo.

E nem toda embalagem se recicla com facilidade. Muitos recipientes de cosméticos combinam materiais distintos ou trazem componentes pequenos e sistemas complexos, o que dificulta a separação e o reaproveitamento. Multiplique isso por milhões de consumidores e por uma indústria que lança produtos sem parar: aquela pequena embalagem no banheiro faz parte de uma questão ambiental muito maior. O problema não está só no produto que usamos. Está também no que compramos sem precisar, usamos poucas vezes, abandonamos e descartamos.

Vivemos uma época em que o "novo" tem enorme valor comercial. Novos ativos, novas combinações, novas texturas, novas embalagens, novas tendências chegam ao consumidor numa velocidade impressionante. A inovação é positiva, e foi ela que permitiu boa parte dos avanços que hoje temos na dermatologia e na cosmética. O problema aparece quando inovação e consumo excessivo passam a andar juntos.

As redes sociais potencializaram essa dinâmica. Um produto viraliza, milhares de pessoas compram, uma tendência aparece e, num piscar de olhos, o que parecia indispensável já foi substituído pelo próximo lançamento. Precisamos separar inovação de necessidade.

Isso não recai só sobre a indústria. A mudança envolve empresas, profissionais de saúde e consumidores. A indústria pode avançar em embalagens de menor pegada ambiental, sistemas de refil, materiais mais recicláveis e cadeias produtivas mais responsáveis. Os consumidores podem fazer escolhas mais conscientes. E os profissionais de saúde têm um papel: ajudar as pessoas a entender aquilo de que a pele realmente precisa.

Talvez uma das mudanças mais interessantes nos cuidados com a pele nos próximos anos não venha de mais um ativo revolucionário, mas da forma como aprendemos a usar o que já temos. Comprar menos por impulso. Terminar um produto antes de trocá-lo. Evitar a duplicidade de ativos. Escolher fórmulas adequadas às necessidades reais da pele. São atitudes pequenas quando isoladas, relevantes quando somadas.

Sustentabilidade na beleza não significa abandonar a ciência, a tecnologia ou os avanços da cosmética. Significa usá-los melhor. Podemos continuar aproveitando tudo o que a dermatologia moderna e a pesquisa cosmética oferecem, com escolhas mais individualizadas e responsáveis. Porque cuidar da pele não deveria produzir um excesso que o planeta terá de absorver.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da Dra Marcela Baraldi, autora do artigo O excesso também pesa na pele, e no planeta
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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