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Jovens e política

Escrito por Daniel Medeiros | 3 de agosto de 2026

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Jovens no megafone, ausentes das urnas partidárias: a filiação de 16 a 34 anos caiu 54% em 16 anos, e a voz migrou para fora das legendas - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - DANIEL MEDEIROS*

A filiação de jovens aos partidos políticos no Brasil caiu 54% entre 2010 e 2026, com uma perda de quase 1,5 milhão de filiados entre 16 e 34 anos (levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da UnB, a partir de dados do TSE). É fato que o país vem envelhecendo, mas esses números excedem em muito o encolhimento dos jovens em relação à população total. O que revelam é que a atração que existiu um dia esgotou-se.

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É fácil dizer que "os jovens não se interessam mais pela Política", mas creio que, na verdade, é a Política que não se interessa mais pelos jovens. Quais são as pautas dos principais partidos nas quais os jovens são prioridade? Com exceção dos chavões que ficam mal até na boca do mais experiente demagogo, como "Educação, Saúde e Segurança", de que forma os partidos encarnam as aspirações mais prementes das novas gerações?

As denominações que ilustram os partidos, tão século XIX, tão começo do século XX, como Liberal, Trabalhista, Social Democrata; os campos ideológicos nos quais se situam, esquerda e direita, são tão século XVIII que fica difícil imaginar as questões do século XXI associadas a um ou a outro desses espectros: crise climática, Inteligência Artificial, futuro do trabalho, adoecimento mental, evoé, novos problemas, pois que surgem a cada clivagem de classe, idade, gênero, etnia, território, sigla de transtorno do comportamento.

Como seria um governo para os jovens? Se vai abordar a Educação, de que Educação o jovem precisa? Mais dias letivos ou desenvolver a habilidade de elaborar perguntas que traduzam o que se deseja que aconteça? Mais disciplinas ou tempo qualificado para elaborar pesquisas que traduzam evidências, e não opiniões ou crenças? Mais testes avaliativos ou pressupostos e instrumentos para enfrentar problemas perversos, que desafiam a lógica e exigem controle das emoções, negociação de valores morais e responsabilidade com tempo e recursos escassos?

Se vai abordar Saúde, como não focar em políticas para melhorar o ambiente social dos jovens, de maneira a dar sentido às escolhas que ocupam as horas de seus dias, evitando o risco fatal das redes sociais e dos aplicativos de apostas e pornografia? Como recriar espaços de convívio coletivo nos quais seja possível reestabelecer a Ação, isto é, a criação de discursos e de práticas inovadoras para transformar a realidade e deixar a assinatura desses jovens neste mundo? Ou restará aos espaços o triste destino dos concursos de "farmar aura", nos quais jovens se requebram como que movidos por uma descarga elétrica enquanto outros, aparvalhados, batem palma até que, segundos depois do término da triste expressão, não sobra nada, não fica nada para ninguém, como criação ou como legado?

Lembro-me de meu primeiro envolvimento público, quando eu tinha 16 anos e participei de um projeto coletivo de alfabetização de adultos junto ao sindicato da construção civil, embalado pelos ventos do movimento Solidariedade da Polônia. Meu desejo de ser professor nasceu ali e ficou para sempre. Se, ao contrário, eu tivesse participado de um concurso de farmar aura, no que eu teria me tornado? Sei que essa especulação é até um pouco mal-humorada, mas o que pretendo ilustrar é o que a Política pode fazer pelos jovens, em vez de lamentar esse distanciamento ou, pior, culpar os jovens por estarem em uma nau sem piloto, seduzidos pelos cantos de sereias que nem se importam mais em esconder seus rostos verdadeiros e as rochas sobre as quais esperam o desastre acontecer.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo Jovens e a Política
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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