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Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026
Água como dom e espelho: o Lago das Cinco Flores, na China, condensa em uma imagem o que a humanidade ainda não aprendeu a preservar - Foto: Carpe Mundi
EDITORIAL
POR - ALEXANDER TURRA, CONSELHEIRO E COLUNISTA DO NEO MONDO
O Dia Mundial da Água foi concebido pela Organização das Nações Unidas em 1993, um ano após a Rio92, a Cúpula da Terra, que alicerçou os princípios da agenda da sustentabilidade no planeta. Isso foi feito porque a água é essencial à vida e cuja centralidade e transversalidade para a humanidade permitem entendê-la como ecumênica e sincrética.
A água é ecumênica porque nos une. Segundo a Rede Ecumênica da Água, a água é um dom sagrado, um bem comum e um direito humano. Algo tão importante que não pode ser instrumento de opressão. Esse entendimento, ainda que com nuances e simbolismos específicos, é compartilhado por todas as religiões e expressões espirituais. Só algo tão grandioso poderia unir todas as fés. E, nesse sentido, poder-se-ia ousar pensar que a água estaria acima da figura dos deuses que conferem significado às diferentes crenças que, por vezes, nos separam.
A água também é sincrética, pois é um elemento de convergência de diferentes abordagens, perspectivas, significados e preocupações. A água é um mote que elicita atitudes, mas também é glosa, pois se traduz e se enreda em diversas narrativas. A água, que é rio e mar, nuvem e chuva, aquífero e açude, neve e geleira, atrai a atenção de diferentes ramos da ciência que buscam desvendar seus segredos e aflições.
Esse sincretismo revela a onipresença da água, outra alusão à sua sacralidade. Não importa o seu estado — sólido, líquido ou gasoso —, onde esteja e sua função. É água. Até onde ela aparentemente não existe, lá ela está. No deserto, em Marte e na mente de quem já perdeu a esperança de uma vida digna que só a água pode oferecer.
A água é transformação. No nosso corpo, a água permite que as enzimas orquestrem o metabolismo. A plasticidade da água empresta à termodinâmica o meio que distribui energia e calor no planeta. A sua fluidez dialoga com outros elementos da natureza, criando um palco no qual espetáculos se descortinam. Como a vida, que surgiu na água do mar.
Por fim, o sincretismo da água é simbolizado pelas lágrimas. De alegria ou de tristeza, todas as lágrimas são água. De fato, esse sincretismo remete a dualidades, a paradoxos, pois a água, que nos une, também pode nos separar. Essa água que mata a sede, mas cuja falta mata de sede e de fome. Ignácio de Loyola Brandão, ao antecipar, no livro intitulado “Não Verás País Nenhum”, publicado em 1981, a visão apocalíptica da crise hídrica, bebeu no passado e singrou futuro. Esse futuro abominável é, hoje, cada vez mais uma realidade em inúmeras localidades do Brasil e do mundo. Esse futuro, que é o passado e o presente dos retirantes que ainda abdicam de suas raízes que não têm água para se firmar no lugar onde sua hereditariedade foi semeada.
De fato, esse elemento tão importante para a vida tem sido severamente comprometido pelas ações humanas. Apesar de ser considerado um recurso renovável, na prática, acaba sendo finito, especialmente para alguns. A degradação das nascentes e das matas ciliares, e o uso exacerbado da água, drenam os veios, cuja aridez craquela a esperança de quem não tem o privilégio de acessá-la. Essa água, que gera energia e alaga o passado de um futuro intangível nos reservatórios de imensas usinas hidrelétricas, ao mesmo tempo, escasseia em nossas mãos.
Por vezes não falta a água, mas sim a água que pode ser bebida. A água, que é vital, tem perdido sua vitalidade. O lançamento de fertilizantes, agrotóxicos, esgoto e lixo inviabiliza o uso da água. Mais do que isso, afeta os seres vivos e as pessoas que se alimentam deles. A água contaminada também compromete as atividades de lazer e recreação e aniquila oportunidades de desenvolvimento econômico.

É por isso que precisamos falar da água, compreender a água, sentir a água, zelar pela água. O Especial Semana Mundial da Água, do portal Neo Mondo, foi idealizado para reunir diferentes visões sobre o passado, o presente e o futuro da água. O seu sincretismo reuniu cientistas, educadores, empresárias e personalidades, que trouxeram suas perspectivas para que pudéssemos conhecer a água em todos os seus estados e significados e, acima de tudo, agir. A expectativa é que os leitores e leitoras sejam inundados de inspirações para que, efetivamente, cuidemos desse bem comum. Pois sem ele, faltarão lágrimas para lamentarmos o que nossa fleuma causou. Leiam, inspirem-se e mergulhem profundamente no manancial que o Especial Semana Mundial da Água nos oferece.
Índice + As vozes deste especial
O século em que a água deixou de obedecer
“Água: o recurso que definirá o século”