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Comunicação sob coerção: falar claro ou pagar o preço

Escrito por Neo Mondo | 9 de fevereiro de 2026

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Comunicação não é ornamento nem slogan: num mundo fraturado, ela se torna infraestrutura de poder, risco e sobrevivência reputacional - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

ARTIGO

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Por - Lorena Nogaroli* e João Alfredo Nyegray*, especial para Neo Mondo

Quando o primeiro-ministro do Canadá subiu ao palco de Davos e evocou a metáfora de Václav Havel sobre o lojista que exibe um slogan no qual ninguém acredita, não fazia um aparte filosófico. Tratava-se de um diagnóstico preciso sobre poder, linguagem e vulnerabilidade no sistema internacional.

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O mundo transformou-se mais rápido do que a história costumava contar e, hoje, é moldado por assimetrias de alavancagem — e não por regras previsíveis. Assim, as frases que os países repetem deixaram de ser rituais inofensivos e passaram a funcionar como passivos estratégicos.

Esse é um ponto central da gestão de reputação. Mantras institucionais que perderam aderência à realidade deixam de ser ativos simbólicos e passam a operar como riscos latentes. O mesmo ocorre com empresas que insistem em discursos de “propósito”, “neutralidade” ou “compromisso com regras” que não se sustentam na prática.

foto de lorena Nogaroli, autora do artigo Comunicação sob coerção: falar claro ou pagar o preço
Lorena Nogaroli, autora do artigo "Comunicação sob coerção: falar claro ou pagar o preço" - Foto: Divulgação

Mark Carney centrou seu discurso no colapso da chamada ordem internacional baseada em regras. Por décadas, potências médias como o Canadá se beneficiaram de um sistema que prometia multilateralismo e contenção legal, ainda que a aplicação dessas regras fosse seletiva e o poder, desigual. Essa ficção compartilhada teve valor enquanto a potência dominante arcava com os bens públicos e exercia certa contenção. O slogan na vitrine preservava a estabilidade. Segundo Carney, esse pacto foi rompido.

O que se desenrola não é uma transição gradual, mas uma ruptura explícita. A integração econômica, antes vista como ganho mútuo, passou a operar como instrumento de coerção: tarifas usadas como ameaça, infraestrutura financeira convertida em arma e cadeias produtivas transformadas em pontos de pressão.

Do ponto de vista do risco, trata-se da passagem de um ambiente regido pela previsibilidade para outro dominado pela intencionalidade estratégica. Para governos e organizações, isso significa que dependências não mapeadas se convertem em vulnerabilidades exploráveis, inclusive no campo narrativo.

A obra O Poder dos Sem Poder, de Havel, ilumina esse fenômeno. Sistemas autoritários não persistem apenas pela repressão, mas pela participação coletiva em falsidades conhecidas. Sua força reside nessa adesão; sua fragilidade, no abandono dela. Estados e corporações hoje assumem o papel do lojista, repetindo mantras de neutralidade e de regras como forma de evitar confrontos.

A reação às declarações de Carney expôs a futilidade dessa postura. Dias depois, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos afirmou ter recuado de comentários feitos em uma ligação com Trump. A veracidade do episódio importa menos do que a dinâmica revelada: disputas narrativas convertem-se rapidamente em alavancas de pressão, seja pelo não convite do Canadá a um “Conselho da Paz” liderado pelos EUA, seja pela renovação de ameaças tarifárias.

Esse episódio ilustra um princípio clássico da gestão de crises: recuos discursivos sob pressão raramente apaziguam. Em geral, sinalizam vulnerabilidade. No campo reputacional, a tentativa de “corrigir o tom” após o impacto costuma ampliar o dano.

É nesse ponto que comunicação e estratégia se fundem. Em rivalidades entre grandes potências, a ambiguidade convida ao teste. Expressões de desconforto com a coerção, seguidas de recuos linguísticos, não sinalizam moderação, mas exposição. O teatro da soberania substitui sua realidade.

Carney — acompanhado por líderes europeus — argumentou que fingir a sobrevivência da antiga ordem acelera sua decomposição. Citar regras multilaterais enquanto se aceita sua aplicação seletiva corrói a legitimidade. Condenar a intimidação dos rivais enquanto se ignora a dos aliados aprofunda o enredamento.

Para a comunicação institucional, a advertência é direta: incoerência seletiva destrói confiança. Públicos estratégicos — investidores, parceiros, funcionários e opinião pública qualificada — identificam rapidamente quando princípios são aplicados de forma conveniente.

Carney rejeitou tanto a postura moralizante quanto a ingenuidade. Defendeu, em vez disso, um realismo orientado por valores: compromissos firmes com soberania, integridade territorial e proibição do uso da força, combinados com pragmatismo em relação a interesses, concessões e parceiros imperfeitos. Para potências médias, os riscos são existenciais. O bilateralismo assimétrico impõe termos, não negociações. Tentativas concorrentes de acomodação equivalem à submissão administrada.

Coalizões flexíveis, formadas tema a tema, representam hoje gestão de riscos, não um multilateralismo ultrapassado. O Brasil, exposto a guerras tarifárias e a cadeias globais sensíveis, encarna esse dilema. Clareza sobre coerções chinesas ou americanas exige diversificação prévia de comércio e finanças. Não há discurso de autonomia que se sustente sem estratégia de mitigação de dependências. Pronunciamento sem lastro estrutural é risco reputacional elevado.

A comunicação, portanto, torna-se elemento de resiliência nacional. Nomear realidades reduz incertezas para aliados e mercados. O alinhamento entre narrativas domésticas e externas eleva o custo da pressão externa. As nações conquistam clareza ao enfrentar primeiro suas próprias vulnerabilidades — como fez a Europa após a invasão da Ucrânia, ao criar fundos de defesa e rotas alternativas de suprimento. Em gestão de crises, a máxima é conhecida: credibilidade externa nasce da coerência interna. Não se comunica força; constrói-se.

foto de João Nyegray , autor do artigo Comunicação sob coerção: falar claro ou pagar o preço
João Alfredo Nyegray, autor do artigo "Comunicação sob coerção: falar claro ou pagar o preço" - Foto: Divulgação

Davos oferece uma lição que vai além do Canadá. Governos e empresas precisam abandonar slogans obsoletos. O léxico de uma ordem extinta não navega os riscos de um planeta fraturado. Onde o poder exerce pressão em vez de persuasão, a encenação convida à escalada. Havel observou que viver a mentira corrói tanto o sistema quanto seus participantes. O mesmo vale para a geopolítica contemporânea. A ruptura é real. A nostalgia não oferece estratégia. A clareza — desconfortável e custosa — oferece.

Para líderes de organizações públicas e privadas, a mensagem é inequívoca: clareza não é bravata, é gestão de risco. Diante da hipervisibilidade e da coerção, o maior perigo não é o conflito, mas a dissonância entre o discurso e a realidade.

*Lorena Nogaroli é gestora de reputação, jornalista, especializada em Marketing, Serviços e Gestão de Riscos e Crises. Fundadora da Central Press, dirige o escritório da agência de reputação em Londres.

*João Alfredo Lopes Nyegray* é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Negócios Internacionais da PUCPR e de Relações Internacionais da FAE.

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