Destaques Emergência Climática Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 16 de dezembro de 2019
Apesar dos fortes pedidos por uma ação climática urgente, feitos por países vulneráveis, sociedade civil e milhões de jovens em todo o mundo, os principais países emissores resistiram a todos os esforços para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C.
Embora descrita como a COP da "ambição", o que ficou evidente em Madri foi a falta de vontade política para responder à ciência na escala necessária. O caso do Brasil é emblemático: ao contrário dos últimos anos, em que era considerado um dos principais articuladores internacionais e um bom exemplo na redução de emissões, o governo brasileiro foi para a COP25 com uma posição de cobrar financiamento para proteção de suas florestas. Isso em um ano de aumento recorde de desmatamento, desmonte ambiental e perseguição às ONGs e mortes de lideranças indígenas. A ausência de diálogo por parte da delegação brasileira, seja com representantes da sociedade civil, seja com representantes do setor empresarial e com as lideranças políticas, também chamou a atenção.
Segundo o diretor-executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic, “Infelizmente o Brasil teve posição de destaque entre os países que agiram contra o avanço das negociações. A infeliz mudança de postura da diplomacia brasileira não trouxe qualquer ganho para o País e gerou um enorme prejuízo para o Brasil e o resto do mundo, já que o tempo é extremamente curto para mantermos o aquecimento global dentro do limite de 1,5 °C. Como o Brasil é um dos países mais vulneráveis à crise climática - inclusive porque um dos pilares de sua economia, o agronegócio é totalmente dependente de condições estáveis de clima - o desempenho do Brasil foi um verdadeiro tiro no próprio pé”.
Foto - PixabayO único resultado obtido pela condução das negociações pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi abalar nossa reputação internacional: pela primeira vez, o Brasil recebeu dois prêmios "Fóssil do Dia" durante as negociações e o Fóssil Colossal, ao final da conferência. Esse é o mais tradicional prêmio concedido pelas quase 2 mil organizações ambientais ligadas à Climate Action Network. É também um dos melhores termômetros da reputação de um país nas negociações.
Para retomar sua posição de destaque nas negociações climáticas, o país precisa mudar seu posicionamento e agir em consonância com a diminuição de emissões e respeito aos direitos humanos”, diz Voivodic, lembrando ainda que a decisão sobre o mercado de créditos de carbono, uma das grandes apostas do Brasil para a obtenção de financiamento foi um dos pontos que ficou para a próxima COP. E para agir de acordo com a meta climática a que se propôs, é necessário aumentar o número de hectares restaurados e reflorestados, reduzir a emissão de transportes e de combustíveis fósseis na matriz elétrica e, obviamente, reduzir drasticamente o desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
Num momento em que o governo brasileiro adota uma postura de liderança no “trancamento” das negociações, Estados, cidades, empresas, sociedade civil e os cidadãos foram clamados a atuar, para o bem do país e de nossas futuras gerações. E a sociedade civil cumpriu seu papel: além das grandes manifestações nas ruas, inspiradas pela greve climática iniciada por Greta Thunberg (escolhida, com muita justiça, como personalidade do ano pela revista Time), a sociedade brasileira pela primeira vez organizou um espaço coletivo de debates, lançamentos de estudos e trocas de informações, que se somou aos esforços individuais das organizações, como o já tradicional Panda Hub do WWF.
Foto - PixabayO resultado da COP25 não trouxe nenhum avanço na organização de um mercado de carbono, no respeito aos direitos humanos, na participação social ou no financiamento de perdas e danos causados por impactos climáticos. Esses países terão que justificar suas posições, que estão cada vez mais em desacordo com a ciência e a opinião pública.
Manuel Pulgar-Vidal, líder da prática global de Clima e Energia do WWF Internacional, ressaltou o contraste entre a ambição desejada para esta COP e o resultado da conferência, que deixa o cenário de emergência climática ainda mais crítico e urgente: “Apesar dos esforços da presidência chilena, a falta de compromisso em ampliar a ação climática dos grandes países emissores foi grande demais para superar. Suas posições contrastam fortemente com a ciência, crescentes demandas das ruas e os fortes impactos já sentidos em países vulneráveis”, afirma Pulgar-Vidal.
De acordo com Manuel Pulgar-Vidal, o próximo ano ainda representa uma chance para que os países finalmente façam ações comprometidas com a ciência e com um aumento máximo de 1,5 ºC médio na temperatura global, mas a lacuna de tempo está cada vez menor: “Sabemos o que precisa ser feito e ficamos sem tempo para voltar atrás ou debater. 2020 deve ser diferente e lutaremos ainda mais pelas pessoas e pela natureza. Os governos voltarão para casa para enfrentar crescentes frustrações de movimentos jovens, cidadãos e comunidades vulneráveis que sofrem com os impactos da crise climática, e terão que responder a eles”, afirma Pulgar-Vidal.
Para 2020, além do necessário aumento de ambição, precisaremos ganhar muita escala na implementação de ações que reduzam o impacto do desastre climático. As cidades têm de olhar a agenda do século XXI como, por exemplo, o transporte público eficiente e de baixas emissões, a gestão do tratamento de resíduos líquidos ou sólidos apoiando a geração de energia, estímulo ao cidadão para adotar práticas sustentáveis. As ações de combate às mudanças climáticas têm de sair do monopólio dos governos e deve ganhar as ruas.
Foto - PixabayA onça-pintada que voltou às nuvens
Heineken e SOS Mata Atlântica reforçam parceria pela recuperação do Rio Pinheiros
INSIDER transforma borra de café em material alternativo ao couro