CLIMA Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 3 de julho de 2026
Belém ainda trata como rotina temperaturas que agora começam a surpreender cidades como Londres. Na imagem, britânicos aproveitam o sol no Greenwich Park enquanto o Reino Unido enfrentava um alerta vermelho de calor extremo, com previsão de até 40°C no sul da Inglaterra. Um retrato de um clima que já deixou de ser exceção em muitas partes do mundo - Foto: AP Photo/Tony Hicks
ARTIGO
Os artigos não representam necessariamente a posição do NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
POR - RUBENS FILHO*, ESPECIAL PARA O NEO MONDO
No dia 25 de junho, enquanto debatíamos clima na London Climate Action Week, o Reino Unido registrava a maior temperatura já medida para um mês de junho: 36,7°C. No metrô de Londres, vagões chegaram a 40°C; no asfalto, a superfície atingiu 65°C. Escolas fecharam, o transporte ficou paralisado e equipamentos de refrigeração desapareceram das lojas.
Leia também: Ondas de calor e pele: como as mudanças climáticas afetam a saúde cutânea
Leia também: A memória do gelo: o que um milhão de anos revelam sobre o colapso antártico
Eu estava em Londres justamente para discutir a distância entre o que sabemos sobre as mudanças climáticas e o que efetivamente fazemos para enfrentá-las. Em um painel na Queen's University, uma pergunta sintetizou esse desafio: e se as seguradoras deixassem de atuar apenas após os desastres e passassem a investir na prevenção? O calor do lado de fora transformava essa reflexão em algo cada vez menos teórico.
Ao longo de cinco dias de debates, passando pela London School of Economics (LSE), Guildhall e eventos promovidos por instituições como Banco do Brasil, Instituto Arapyaú, ANBIMA, CNSeg e UNEP FI, uma ideia apareceu de forma recorrente: capital natural é infraestrutura. Não se trata apenas de compensação ambiental, mas de um ativo capaz de gerar retorno, reduzir riscos e atrair investimentos. Ao mesmo tempo, ouvi um alerta preocupante: o financiamento concessional, fundamental para destravar investimentos privados, pode estar próximo do limite.
O Brasil esteve presente de forma consistente nessas discussões, com empresas, setor financeiro, Presidência da COP30 e representantes do governo. Temos uma matriz elétrica majoritariamente renovável, uma Taxonomia Sustentável recém-aprovada, o Eco Invest Brasil e enorme potencial em bioenergia e soluções baseadas na natureza. Ainda assim, mais de 85% dos municípios brasileiros seguem sem planos de adaptação climática. Enquanto Londres lançava seu primeiro plano para enfrentar ondas de calor, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para transformar diretrizes nacionais em ações locais.
Há alguns meses, coordenamos, no Pacto Global da ONU – Rede Brasil, a contribuição do setor privado aos Mapas do Caminho da Presidência da COP30. Empresas de infraestrutura, agro, logística, saúde, resíduos e finanças apontaram desafios semelhantes aos debatidos em Londres. São eles: dificuldade de acesso ao financiamento climático, incertezas sobre retorno dos investimentos em mitigação e uma governança que ainda não conecta estratégia nacional à implementação nos territórios.
O financiamento climático precisará quadruplicar até 2030. O Brasil, sexto maior emissor global, mas dono de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, precisa consolidar seu papel tanto como destino de investimentos quanto como protagonista das soluções.
Também ficou evidente que a bioeconomia deixou de ser promessa para se tornar oportunidade concreta. O mercado começa a atribuir valor econômico à floresta em pé e aos serviços ecossistêmicos que sustentam cadeias produtivas, da regulação hídrica à conservação do solo. Da mesma forma, tecnologias como mercados de carbono, blended finance, infraestrutura resiliente e soluções baseadas na natureza já fazem parte das discussões mais avançadas do setor financeiro.
O problema não é mais a ausência de soluções. O desafio está em acelerar sua implementação, transformando conhecimento em políticas públicas, investimentos e projetos capazes de produzir resultados concretos. A COP31, em Antalya (Turquia), será a próxima parada para reforçar aquilo que já falamos há décadas.
Ao comentar os recordes de temperatura no Reino Unido, o cientista-chefe do Met Office afirmou que "ver temperaturas assim em junho é perturbador". Perturbador em Londres. Rotineiro em Belém. A diferença não está mais no clima, mas na velocidade com que transformamos evidências em ação.
*RUBENS FILHO - Gerente Executivo de Meio Ambiente do Pacto Global da ONU – Rede Brasil.

Mesmo olfato, humor mais baixo: o que 98 mulheres revelam sobre a pílula anticoncepcional
Município baiano propõe lei para reduzir plásticos descartáveis