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Escrito por Neo Mondo | 1 de julho de 2026
Invisível: por trás de cada prompt enviado a uma inteligência artificial, há um data center consumindo água — um custo invisível que o Brasil ainda não aprendeu a regular - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há uma pergunta que nenhum dos grandes anúncios sobre inteligência artificial no Brasil responde: quanta água será necessária para abastecer o futuro digital que o país está decidido a construir? A pergunta não é retórica. Ela tem números, e os números são incômodos. Cada interação com ferramentas como o ChatGPT consome entre 10 e 25 mililitros de água, segundo estimativas reunidas por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside. A geração de imagens por inteligência artificial pode multiplicar esse consumo em até 30 vezes. O ChatGPT recebe hoje mais de um bilhão de interações diárias. Feita a conta, estima-se que o sistema gaste em média 25 milhões de litros de água por dia apenas para responder às solicitações dos usuários. Atrás de cada resposta instantânea, de cada imagem gerada em segundos, há uma estrutura física invisível ao usuário comum — e extremamente sedenta.
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Essa estrutura tem nome: data centers. São grandes centrais de processamento e armazenamento de dados que funcionam 24 horas por dia, mantendo servidores em operação contínua que geram calor constante e exigem resfriamento permanente. O calor é o problema central. Para dissipá-lo, a solução mais comum e economicamente viável continua sendo a água — e em volumes que desafiam qualquer narrativa de leveza digital. Nos Estados Unidos, os data centers consumiram quase 1 trilhão de litros de água em 2025, volume comparável à demanda anual de Nova York. Na Irlanda, essas estruturas já consomem mais de 20% da eletricidade do país. No Chile, aquíferos preciosos correm perigo de esgotamento. Na África do Sul, sobrecarregam ainda mais uma rede elétrica historicamente fragilizada.
É nesse contexto global que o Brasil se posiciona como o próximo destino preferencial desse boom — e o faz com um argumento que é, ao mesmo tempo, legítimo e insuficiente. O país desponta como potencial destino para grandes projetos de data centers principalmente em virtude de sua matriz elétrica predominantemente renovável. O raciocínio é correto do ponto de vista da descarbonização energética. O que ele omite é que energia renovável e impacto hídrico são duas variáveis inteiramente distintas — e que a segunda ainda não recebe nem de longe a atenção que merece nos instrumentos de política pública em discussão. Especialistas alertam que, se o alto consumo energético dos data centers é conhecido e amplamente discutido, o impacto hídrico dessas estruturas não tem recebido a mesma atenção, mas é igualmente preocupante.
Os projetos já anunciados oferecem uma ideia da escala do que está por vir. A Elea Data Centers pretende instalar quatro unidades dedicadas à inteligência artificial dentro do projeto Rio AI City, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, com potência inicial de 1.500 megawatts — o que representa, no limite, o consumo diário de aproximadamente 6 milhões de residências. Outro projeto de grande escala está previsto para Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, onde a Scala Data Centers anunciou o Scala AI City. No Ceará, o TikTok anunciou a instalação de seu primeiro data center no Brasil no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, com previsão de investimento de R$ 200 bilhões ao longo das próximas duas décadas. A escolha do Ceará não é acidental: o estado tem investido pesadamente em energia renovável e logística portuária. Mas há um detalhe geográfico que raramente entra nos releases institucionais: o Ceará é também um dos estados mais vulneráveis à escassez hídrica do país, inserido em uma região onde qualquer demanda adicional por água potável precisa ser avaliada contra um histórico de semiárido, cisternas e racionamento. Em estados como esse, onde se cogita usar água da transposição do Rio São Francisco para resfriar servidores, a questão é delicada: aquele recurso foi pensado para abastecimento humano e agricultura, não para alimentar a sede tecnológica de corporações globais.
A transparência sobre esses impactos é, por ora, exceção — não regra. A OpenAI não apresenta dados do consumo de água do ChatGPT desde a versão 3, lançada em 2020. Menos de um terço das instalações de data centers no mundo divulga dados de consumo hídrico, e menos ainda têm metas de sustentabilidade. O padrão de opacidade tem respaldo no próprio modelo de expansão: Google, Amazon, Microsoft e outras empresas de tecnologia frequentemente operam por meio de subsidiárias e prestadores de serviços para construir data centers, mascarando sua presença e revelando pouco sobre os recursos que as instalações consomem. Governos que deveriam compensar essa opacidade com regulação rigorosa têm, em geral, feito o movimento oposto — oferecendo terrenos baratos, isenções fiscais e acesso a recursos, adotando uma abordagem de não intervenção. O Brasil segue esse modelo: novas isenções fiscais para atrair essas estruturas estão sendo desenhadas, segundo reportagem do New York Times, sem que contrapartidas ambientais vinculantes integrem o pacote.
O que falta ao debate brasileiro não é, portanto, consciência do problema — os alertas existem, e vêm de instituições respeitáveis. Pesquisadores da Unifesp alertam que, embora os data centers sejam estratégicos para o desenvolvimento digital do país, seu crescimento acelerado exige regulação mais rigorosa, especialmente no que diz respeito ao consumo de água e energia. A professora Lilian Berton, do ICT/Unifesp, resume com precisão o nó central da questão: hoje, nada impede que água potável seja usada para resfriar servidores — e relatórios públicos de consumo hídrico e energético poderiam ser exigidos como condição para a instalação desses empreendimentos, mas ainda não o são. O professor Daniel Caixeta Andrade, da UFU, acrescenta a dimensão climática que torna o cenário ainda mais urgente: em um contexto de intensificação das mudanças climáticas, com maior frequência de secas severas e eventos extremos, a presença de consumidores intensivos de água pode agravar pressões já existentes sobre os recursos hídricos.
Há soluções técnicas disponíveis — sistemas de resfriamento por imersão líquida que eliminam o uso de água, instalações em regiões de clima naturalmente frio, algoritmos de otimização da carga computacional. Mas essas alternativas custam mais no curto prazo, e sem regulação que as exija, o mercado tenderá naturalmente à opção mais barata. É aí que reside o verdadeiro risco sistêmico para o Brasil: não na chegada dos data centers em si, mas na ausência de um marco regulatório que estabeleça, antes da instalação e não depois da crise, as condições mínimas de responsabilidade ambiental para quem quer ocupar o território e consumir os recursos naturais do país. A inteligência artificial promete transformar a economia, a saúde, a educação e a produtividade. Mas ela tem sede — e o Brasil ainda não decidiu quem vai pagar essa conta.
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