Biodiversidade Destaques Economia e Negócios Educação Emergência Climática Meio Ambiente Sustentabilidade

Em abril, Brasil vira palco de iniciativa global que aposta em liderança para impulsionar a economia da conservação

Escrito por Neo Mondo | 20 de abril de 2026

Compartilhe:

Abril revela a geografia silenciosa do litoral brasileiro, onde a terra avança sobre o mar em equilíbrio raro e a natureza dita o ritmo do tempo - Foto: Gabriel Marchi

Por - Claudia Guadagnin, assessora de imprensa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e da Grande Reserva Mata Atlântica

Com imersão em andamento no litoral do Paraná, programa internacional reúne especialistas e profissionais de todo o país para enfrentar um dos principais gargalos da agenda ambiental: a falta de lideranças capazes de escalar projetos e gerar impacto real

O Brasil sedia, neste mês de abril, uma iniciativa inédita que pode redefinir os rumos da conservação da biodiversidade no país. Está em andamento, na Grande Reserva Mata Atlântica, no litoral do Paraná, a etapa presencial do Curso de Conservação Efetiva – Brasil, promovido pela Effective Conservation Training Initiative (ECTI) em parceria com a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

Leia também: Biodiversidade entra no centro das decisões econômicas à medida que a crise climática redefine a economia global

Leia também:Grande Reserva Mata Atlântica acumula reconhecimentos nacionais e internacionais em 2025

Idealizador e mentor da iniciativa, o biólogo espanhol Ignácio Jimenez afirma que o principal desafio da conservação hoje não está mais na falta de conhecimento técnico ou de recursos, mas na capacidade de liderança para transformar esses elementos em impacto concreto.

"Existe um desalinhamento crítico entre o que sabemos fazer, o que conseguimos financiar e o que, de fato, conseguimos implementar em escala. Sem líderes preparados para operar nessa complexidade, a conservação simplesmente não avança na velocidade que o cenário exige", afirma.

A iniciativa reúne profissionais de diferentes regiões do país e especialistas internacionais para enfrentar um desafio estrutural ainda pouco debatido: a escassez de lideranças capazes de transformar conhecimento técnico e financiamento em projetos de conservação efetivos, escaláveis e economicamente sustentáveis.

Com duração de cinco meses, o programa combina formação online com uma imersão prática que ocorre entre os dias 11 e 20 de abril no território da Grande Reserva Mata Atlântica, envolvendo atividades em áreas naturais estratégicas como a Reserva Natural Salto Morato, da Fundação Grupo Boticário, o Parque Nacional do Superagui, o Parque Estadual da Ilha do Mel, a Reserva Natural Guaricica, da SPVS, e o Ekôa Park. Ao longo dessa etapa, os participantes vivenciam na prática a gestão de projetos em territórios complexos, interagem com lideranças experientes e participam de dinâmicas voltadas à tomada de decisão, à articulação institucional e à gestão de equipes.

O gargalo que trava a conservação

Apesar de contar com conhecimento científico consolidado e iniciativas relevantes em andamento, o Brasil enfrenta um obstáculo estrutural persistente: a dificuldade de formar profissionais preparados para liderar projetos que envolvem múltiplos atores, interesses e escalas territoriais. A constatação é direta: sem liderança qualificada, a conservação não escala.

"Hoje, mesmo em contextos com financiamento disponível, muitos projetos enfrentam dificuldades para avançar devido à ausência de profissionais capazes de coordenar equipes multidisciplinares, estabelecer relações com comunidades locais, dialogar com o setor público e privado e estruturar estratégias de longo prazo", explica Clóvis Borges, diretor-executivo da SPVS.

Nesse contexto, o curso propõe uma mudança de abordagem ao tratar a conservação não apenas como um desafio técnico, mas como uma agenda de gestão, governança e articulação.

Uma agenda global que chega ao Brasil

A Effective Conservation Training Initiative é uma iniciativa internacional criada por organizações que, juntas, gerenciam mais de 40 milhões de hectares de áreas naturais em diferentes continentes. O programa já foi realizado em países da África e na América Latina e chega ao Brasil, pela primeira vez, em uma edição dedicada, estruturada em português e adaptada à realidade nacional.

O corpo docente reúne especialistas com atuação global em conservação, rewilding, gestão de áreas protegidas e desenvolvimento de equipes, além de lideranças brasileiras com experiência consolidada em campo.

Entre os participantes estão profissionais de instituições como SPVS, Associação Mar Brasil, Mater Natura, Legado das Águas, Rede Trilhas, Associação Mico-Leão-Dourado, Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Fundação Pró-Natureza – Funatura, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Projeto Tamar, Refauna, Onçafari, Instituto de Pesquisas Cananéia – IpeC, Instituto Cerrados e Instituto Homem Pantaneiro, refletindo a diversidade e a capilaridade da atuação em conservação no país. Participaram como palestrantes representantes de instituições nacionais e internacionais, entre elas Nuestros Espacios Protegidos, Inspiration4Action, Fundación Rewilding Argentina, Rewilding Europe, Instituto Águas e Terra – IAT, ICMBio, Fundação Florestal e Ekôa Park.

Território como laboratório de soluções

"A escolha da Grande Reserva Mata Atlântica como sede da imersão reforça o posicionamento do Brasil como um território estratégico para o desenvolvimento de soluções integradas. Com quase 3 milhões de hectares, a região concentra iniciativas que conectam conservação da biodiversidade, turismo de natureza, restauração ecológica, políticas públicas e geração de renda", destaca Ricardo Borges, coordenador de comunicação e parcerias estratégicas da Grande Reserva.

"Durante o curso, os participantes têm acesso direto a experiências concretas que demonstram como a conservação da natureza pode se traduzir em oportunidades econômicas e desenvolvimento territorial, ampliando o entendimento sobre o papel da natureza como infraestrutura estratégica", acrescenta.

Conservação como ativo econômico

Ao colocar a formação de lideranças no centro da agenda, a iniciativa aponta para uma mudança mais ampla: a consolidação da conservação como vetor de desenvolvimento, capaz de gerar valor econômico, reduzir riscos climáticos e estruturar novas cadeias produtivas.

Mais do que proteger áreas naturais, o desafio passa a ser gerir territórios, pessoas e relações — uma equação que exige competências que vão além da formação acadêmica tradicional.

Impacto que vai além do curso

De acordo com Clóvis Borges, entre os resultados esperados estão o fortalecimento de organizações brasileiras, a ampliação da capacidade de execução de projetos em escala e a formação de uma rede ativa de profissionais conectados nacional e internacionalmente.

"A iniciativa também contribui para posicionar o Brasil como referência global na formação de líderes em conservação, em um momento em que a agenda ambiental ganha centralidade nas discussões econômicas e climáticas. Sem liderança, não há escala. E sem escala, não há resposta à altura dos desafios impostos pela crise climática e pela perda acelerada de biodiversidade", conclui.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Entre o Raso da Catarina e o tempo que a natureza exige

Dia da Terra: o que precisa mudar para que continuemos aqui

A beleza que a Terra exige


Artigos relacionados