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Escrito por Neo Mondo | 22 de abril de 2026
Raso da Catarina, Bahia — Um casal de araras-azuis-de-lear deixa os paredões de arenito da Estação Biológica de Canudos ao amanhecer. O voo diário em busca de licuri pode alcançar 70 quilômetros — e carregar consigo o futuro de toda uma espécie - Foto: Cris Laurito-@fotografules
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Uma expedição à Estação Biológica de Canudos coloca em perspectiva o que separa discurso ambiental de presença real em território
Às 4h30 da manhã, cinco diretores de uma das maiores seguradoras do Brasil estavam no escuro, no meio da caatinga, esperando araras.
Não havia assessores. Não havia sala de reunião, apresentação em PowerPoint nem linguagem de relatório. Havia poeira, frio de sertão e o silêncio específico daquele intervalo entre a noite e o amanhecer — o tipo de silêncio que não existe em São Paulo e que, naquele momento, era o único contexto disponível para entender o que a Fundação Biodiversitas vem construindo há mais de três décadas na Estação Biológica de Canudos.
Quando o sol começou a rasgar os paredões de arenito, o som veio antes da imagem. Um grito, depois outro, depois uma quantidade de vozes que não se conta — as araras-azuis-de-lear deixando seus ninhos em bloco, azul sobre laranja, como se o próprio rochedo tivesse decidido voar.
Remegildo Milanez, Fábio Gastal, Pedro Nabuco, Luis Fernando Rolim e Yugo Sakamoto viram isso do mesmo lugar onde eu vi. Do chão. Sem intermediação.
Essa é a imagem que resume o que a Seguros Unimed propôs ao convidar um grupo de jornalistas para a expedição entre os dias 14 e 16 de abril: não uma narrativa sobre biodiversidade, mas contato direto com ela. E a decisão de a diretoria inteira estar presente em cada etapa — acordando no mesmo horário, caminhando na mesma trilha, ouvindo a mesma pesquisadora — diz algo que nenhum relatório de sustentabilidade consegue reproduzir. A empresa não mandou representantes. Foi.
O vínculo entre a Seguros Unimed e a Fundação Biodiversitas não começa nessa expedição. Parceira da Fundação desde março de 2019, a seguradora apoia as quatro reservas permanentes mantidas pela Biodiversitas — Mata do Sossego, Mata do Passarinho, Ninho da Tartaruga e Estação Biológica de Canudos — por meio do programa Azul+, criado pela sinergia entre o azul da marca e a coloração das penas da espécie que se tornou símbolo do compromisso. O relatório de sustentabilidade da seguradora registra que, nesse período, a população de araras-azuis-de-lear cresceu de 69 para mais de 2.000 indivíduos livres na natureza. É um número que exige ser lido com cuidado — porque não descreve um projeto de comunicação. Descreve uma trajetória.
Canudos carrega mais de uma história — e o peso de cada uma delas muda conforme quem chega e o que veio buscar. A mais conhecida ainda ecoa nos livros de história: entre 1896 e 1897, o Estado brasileiro enviou quatro expedições militares contra o arraial fundado por Antônio Conselheiro no sertão baiano. Conselheiro era um líder religioso que havia reunido milhares de sertanejos pobres numa comunidade autossuficiente, em aberta resistência à recém-proclamada República. O governo e as elites locais viram no movimento uma ameaça à ordem. O que se seguiu foi um dos episódios mais violentos da história brasileira: a destruição completa de Canudos e o massacre de sua população, eternizados por Euclides da Cunha em Os Sertões. Hoje, o Parque Estadual de Canudos preserva os sítios históricos daquele confronto — um museu a céu aberto onde ainda se encontram vestígios materiais dos combates.

Mas Canudos está sendo ressignificada por uma segunda história, igualmente improvável e igualmente poderosa. Se o massacre do século XIX projetou o nome da cidade no imaginário nacional como símbolo de brutalidade e abandono, a recuperação da arara-azul-de-lear começa a reescrevê-la no imaginário internacional como símbolo de resistência ecológica. O Projeto Jardins da Arara de Lear já recebeu visitantes de mais de 40 nacionalidades. A Secretaria de Turismo da Bahia escolheu a espécie como símbolo oficial do turismo de observação de aves do estado e estruturou o primeiro roteiro integrado de birdwatching do país com Canudos como destino central. O que o massacre não conseguiu apagar — o território, a resistência, a teimosia de permanecer — a arara também não deixou desaparecer.
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No centro dessa segunda história está a arara-azul-de-lear, Anodorhynchus leari, endêmica da Caatinga e uma das aves mais ameaçadas do planeta. Quando a Fundação Biodiversitas criou a Estação Biológica de Canudos no início dos anos 1990, a população conhecida da espécie era de 50 indivíduos. A urgência era tão concreta quanto os paredões rochosos que servem de ninho. Hoje, estima-se que cerca de 2.200 araras vivam livres na natureza — uma recuperação que a própria Fundação e seus parceiros internacionais reconhecem como um dos casos mais bem-sucedidos de conservação de espécie ameaçada no Brasil, mas que esconde uma vulnerabilidade estrutural grave: praticamente toda essa população está concentrada em uma única região ecológica, o Raso da Catarina.

"Se essa população colapsa, a espécie inteira entra em risco", disse Érica Pacífico ao grupo de jornalistas durante entrevista coletiva realizada na tarde do dia 15. Doutora em biologia da conservação, mestra em zoologia e especialista em manejo de fauna, Pacífico coordena desde 2008 o projeto de pesquisa sobre reprodução e dinâmica populacional da arara-azul-de-lear na Estação Biológica de Canudos. São quase duas décadas de dados contínuos sobre uma única espécie, em um único território — uma raridade científica num país onde a descontinuidade de financiamento e a rotatividade de pesquisadores costumam fragmentar exatamente o tipo de série histórica que permite entender como um ecossistema responde à pressão do tempo.
A reprodução da espécie depende de algo que não pode ser recriado artificialmente: cavidades em paredões de arenito calcário, formações geológicas com milhões de anos que as araras usam como ninhos e que Pacífico e sua equipe acessam por rapel. Quando ela começou seu trabalho no paredão da Toca Velha, havia sete ninhos ativos. Hoje são 35. Esse crescimento, aparentemente positivo, revela também um limite físico que se aproxima. Há um teto para a expansão reprodutiva da espécie, determinado não pela biologia, mas pela geologia. A rocha não cresce.

Enquanto a população pressiona esse limite por cima, três vetores de ameaça pressionam por baixo. O desmatamento da Caatinga — que avança em taxas crescentes segundo dados recentes do MapBiomas — reduz a oferta de licuri, a palmeira que compõe a base da dieta das araras e sem a qual o sucesso reprodutivo despenca. Mas a relação entre as duas espécies é mais complexa do que uma simples dependência alimentar: as araras são também as principais dispersoras de sementes do licuri e de outras 30 espécies vegetais da Caatinga, percorrendo até 70 quilômetros por dia e transportando frutos a distâncias de até 1.620 metros dos pontos de origem. Sem as araras, o licuri não se regenera. Sem o licuri, as araras não se reproduzem. O desaparecimento da espécie não seria a perda de uma ave. Seria a interrupção de um ciclo que a Caatinga leva décadas para repor — se é que repõe.
A abelha africanizada, invasora na região desde os anos 1960, compete pelas mesmas cavidades de nidificação, obrigando equipes de campo a realizar remoções ativas de colmeias como ação de conservação prioritária. E a expansão de redes elétricas rurais introduziu um risco que antes não existia: a eletrocussão de adultos em plena atividade reprodutiva, indivíduos que levariam anos para ser substituídos demograficamente.
Frente a esse cenário, a ciência deixou de ser apenas observação. O projeto coordenado por Pacífico inclui hoje um programa de reintrodução no Parque Nacional do Boqueirão da Onça, onde a espécie havia sido funcionalmente extinta. Partindo de dois indivíduos remanescentes, a população local chegou a 33 animais — nascidos em cativeiro, oriundos de apreensões do tráfico e repatriações internacionais, reabilitados e devolvidos à natureza segundo as diretrizes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) para translocação de espécies ameaçadas. O objetivo não é apenas numérico. É restaurar uma segunda população com fluxo gênico ativo, de modo que o colapso de um núcleo não arraste a espécie inteira.

Na noite de abertura da expedição, Jorge Velloso Vianna, superintendente da Fundação Biodiversitas, apresentou ao grupo o alcance institucional desse trabalho: uma rede que conecta ICMBio, universidades e parceiros internacionais em torno de uma das poucas iniciativas de conservação de longo prazo da Caatinga com base científica contínua e verificável — uma plataforma de produção de conhecimento que opera também como centro de educação ambiental, como polo de turismo científico que gera renda local e como argumento vivo sobre o custo de deixar de existir.
O que separa esse projeto de tantos outros com intenções semelhantes é, em parte, o que os diretores da Seguros Unimed revelaram ao longo dos três dias — não em discursos, mas nas conversas que acontecem quando executivos e pesquisadores dividem o mesmo campo antes do amanhecer. Remegildo Milanez, diretor de Operações e Provimento, articulou com precisão a lógica que sustenta o compromisso da seguradora: "não há como gerenciar a saúde humana sem considerar a interdependência com a saúde animal, vegetal e o clima." É uma frase que caberia num manual de saúde planetária — e que vem de um diretor de operações de seguradora, não de um biólogo.
Fábio Gastal, diretor acadêmico da Faculdade Unimed e de Novos Negócios, situou o compromisso num terreno ainda mais estrutural. "Financiar essa ciência de longo prazo é possível porque é algo que está ancorado na nossa essência cooperativa, que nos orienta a priorizar o desenvolvimento sustentável da comunidade e a ir além das métricas de curto ciclo", disse. É uma distinção que separa cooperativas de empresas convencionais, e que raramente aparece com tanta clareza no debate sobre financiamento de ciência ambiental no Brasil.
Pedro Nabuco, diretor executivo de Estratégia e Tecnologia, foi direto ao ponto que a experiência em campo torna incontornável: "não há como gerenciar saúde se não há uma consciência de que existe uma interdependência gigantesca da questão da saúde animal, do clima e do meio ambiente." A lógica da conservação, vista assim, não é filantropia. É gestão de risco com horizonte adequado.
A fala mais inesperada veio de Luis Fernando Rolim, diretor executivo de Provimento. Rolim revelou que foi aluno do professor Ângelo Machado — fundador da Biodiversitas, médico, entomologista e ambientalista que morreu em abril de 2020, aos 85 anos — na década de 1980. "Desde aquela época, ele mostrava seu grande interesse pela conservação da natureza", disse Rolim. "Como professor de Medicina, ele já enxergava a correlação da natureza com os cuidados da nossa saúde e, consequentemente, da sociedade." Ver o legado do professor associado à Seguros Unimed décadas depois, disse, é algo que carrega um peso que vai além do institucional. É uma continuidade que não estava planejada — e que por isso diz mais do que qualquer estratégia poderia dizer.
Yugo Sakamoto, diretor de Finanças e Administração, fechou o argumento pelo ângulo que mais deveria incomodar o mercado financeiro: "enquanto a maior parte do mercado começou a falar dessas métricas, nós já investimos de forma consistente nessa preservação há mais de uma década." A frase não é uma declaração de superioridade. É uma observação sobre tempo — e sobre o que significa comprometer-se com algo antes que ele se torne tendência.

Jorge Velloso Vianna, superintendente da Fundação Biodiversitas, resume em poucas palavras o que décadas de trabalho custaram a aprender: "Fomos desafiados a proteger a última população conhecida de arara-azul-de-lear no mundo, uma espécie que já era considerada extinta. Com a ajuda de parceiros internacionais, conseguimos comprar as áreas onde essas araras se reproduziam, protegemos por 20 anos sem visitação e agora o acesso controlado foi liberado." É uma frase que condensa uma lógica raramente praticada: proteger antes de mostrar, durante tempo suficiente para que a espécie decida por si mesma que vale a pena permanecer.
O que aquela manhã diante dos paredões tornou evidente — para jornalistas e para executivos igualmente — é que biodiversidade, quando vista de perto, deixa de ser tema de relatório. Tem textura de rocha, tem cheiro de caatinga úmida, tem o barulho específico de mais de dois mil indivíduos de uma espécie que esteve à beira do desaparecimento e que, a cada amanhecer, parte dos ninhos como se o mundo fosse inteiro.
Esta matéria é publicada em 22 de abril, Dia Mundial da Terra — data que, desde 1970, convoca a humanidade a repensar sua relação com o planeta. Em Canudos, essa convocação não chega como calendário. Chega como realidade concreta: uma espécie que quase desapareceu, uma ciência que nunca desistiu, e empresas que aprenderam, antes de virar moda, que o horizonte de tempo da natureza e o horizonte de tempo dos negócios precisam, mais cedo ou mais tarde, coincidir.
A pergunta que persiste, e que nenhuma expedição resolve sozinha, é se essa coincidência chegará rápido o suficiente. Érica Pacífico está em campo há 19 anos tentando demonstrar que sim. Naquele amanhecer em Canudos, pelo menos por algumas horas, havia diretores de seguradora dispostos a acordar às 4h30 para entender por quê.
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